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Já fui peão

Digo com orgulho: já fui peão; trabalhei bastante no “pesado”, quando, bem jovem cheguei de São Paulo e fui morar no distante e querido município de Envira.

Foi lá que aprendi a trabalhar duro na agricultura e em outros serviços braçais. Com terçado, machado, enxada, no roçado; carregando latas de água ou de areia; erguendo paredes de tijolo, concretando alvenaria; fazendo picadas e delimitações de terras; transportando sacas de arroz ou de farinha. Enfim, trilhando caminhos na mata, carpinando, roçando campo, ordenhando, carregando pesos, pescando, plantando…

Com pessoas amigas de Envira aprendi muito. Não apenas o significado da expressão “ganhar a vida com o suor do próprio rosto”, como também da sabedoria de gente simples, honesta e trabalhadora. Pessoas boas, capazes de grande generosidade, que dividem o pão e o peixe na “vizinhança” e na ajuda aos mais necessitados e cujo valor não se mede pela riqueza nem apenas pelo letramento adquirido nas escolas, mas principalmente na educação “doméstica”, pela prática dos princípios do amor ao próximo e da boa conduta pessoal e social.

Minha experiência de trabalhador braçal me incentivou a respeitar mais os outros trabalhadores. Quando trabalhei em pavimentação de ruas, por exemplo, percebi como os pedreiros são importantes nos serviços de alvenaria. Foi com eles que aprendi o “traçado” de uma boa “massa”, diferenciando o concreto de um piso ou de uma laje de uma massa para construção de paredes ou de um reboco. Também aprendi a dar valor ao trabalho de pescadores e de seringueiros e de carregadores de cargas. Todos são importantes. Aliás, qualquer trabalho honesto é valioso.

Em Envira fui professor numa escola chamada “Presidente Castelo Branco”, na época muito quente, sem um único ar-condicionado. Fazíamos promoções de rifas e bingos para adquirir ventiladores, que uma vez instalados no teto de uma sala de aula, representavam um grande alívio para a “quentura”. Nesta escola me tornei amigo de alunos, serventes, administrativos e colegas professores. Nosso diretor foi o saudoso Padre Theo Ferfers, alemão naturalizado brasileiro e com grande dedicação à Educação e ao Desenvolvimento do município. Ali também aprendi lições valiosas de trabalho, disciplina, dedicação, amizade e  solidariedade.

Meu objetivo aqui é apenas demonstrar como valorizo a aprendizagem da própria experiência de vida, com as pessoas mais simples e os trabalhos mais humildes. Estes ensinamentos não podem ser substituídos por nenhum bem material nem mesmo pela cultura formal, esta também importante, se permeada de valores éticos. O fato de ter exercido funções públicas no parlamento e nos executivos municipal e estadual, não me serve de motivo para esquecer e desprezar os ensinamentos de pessoas boas e cuja sabedoria não se mede pelos anos de estudo, mas pelo caráter e pela conduta. Por essas pessoas tenho muita gratidão!

Sim, sinto orgulho por já ter sido peão e trabalhador braçal. E também professor de ensino fundamental. Mas principalmente fui – e continuo a ser – um aluno da Vida, que pede a proteção e  iluminação de Deus para defender os direitos das pessoas mais vulneráveis e sofridas, trabalhando com humildade e determinação pelo bem comum.

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