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Como tratamos nossos heróis?

Para aqueles que, como eu, são filhos da geração anos 80 os filmes de ação tiveram e porque não dizer ainda possuem um relevante impacto em nossa “psiquê”, nossa formação, dentre os vários que foram produzidos à época creio que um dos pioneiros e que possui lugar de destaque é o clássico de 1982 estrelado por Sylvester Stallone , “Rambo”, neste longa que conta até hoje com várias sequências, nosso herói veterano da guerra do Vietnã ao retornar a seu país vê-se confrontado com a dura realidade de que a América pela qual lutou não mais existe, já não há mais espaço para ele, “as coisas mudaram” diz a ele o Xerife da cidade, interpretado pelo grande Brian Dennehy, a partir daí toda uma trama se desenrola de perseguição, aventura e também de reflexão, afinal, como são tratados nossos heróis?

Ponto importante também de nota que serve aos propósitos desta singela reflexão é o que vemos na sequência de 1985, com “Rambo II: A Missão”, sem adentrar em muitos detalhes para não estragar a experiência cinematográfica de nossos leitores que ainda não conhecem estas obras, basta informar que nosso herói retorna ao Vietnã com a missão de encontrar evidências de prisioneiros de guerra, em certa altura dos acontecimentos é lhe indagado, em outras palavras, “porque você foi escolhido para esta missão?” a resposta automática é “porque sou descartável”, noutros termos, em sua visão sabe ele que seus superiores o enviaram para uma árdua missão porque sabem que ele pode ser facilmente substituído caso falhe, não tendo assim que arcar com a responsabilidade por qualquer infortúnio ocorrido.

Pois bem, feitas essas primeiras considerações advindas da sétima arte e que nos servem de base para o que vamos aqui delinear deixem-me aclarar que neste artigo não trataremos, como sempre procuro fazer em minhas contribuições, de assuntos ligados às atuais situações jurídico-políticas pelas quais passamos, mas sim do elemento humano e um em particular que contribuiu para minha formação.

Antes também de continuar devo deixar claro que as linhas aqui traçadas refletem meu particular entendimento e indignação com os eventos ocorridos, não sendo necessariamente a mesma visão dos veículos que publicam ou reproduzem meus escritos.

Ao final de janeiro deste ano fui surpreendido com a informação de que um de meus professores do estabelecimento de ensino do qual sou egresso, um conceituado colégio de nossa Manaus, conhecido em minha época pelo seu rigorismo e disciplina tanto acadêmica quanto comportamental, foi “gentilmente convidado a se retirar” das salas de aula para as quais lecionava e posteriormente da própria instituição de ensino, noutros termos, foi descartado.

Falo do já conhecido professor de português Antônio Vilela Cardoso, de 74 anos de idade, 49  dedicados ao magistério da língua de Camões, sendo 33 destes exclusiva e pioneiramente no referido estabelecimento de ensino, além de professor foi também coordenador, orientador e amigo dos milhares de alunos que passaram sob o seu crivo, posso inclusive dizer que graças aos seus ensinamentos muitos, como eu, enveredaram pela docência e também pela arte da escrita.

Diante desta notícia e como já se tornou habitual em nossos dias, procurei maiores informações no “grupo de comunicação” de minha turma do colégio, entrando em contato pessoalmente com o mencionado mestre, nestas verificações qual não foi minha segunda surpresa ao saber dos fatos e razões que levaram ao desligamento do professor: excesso de disciplina, rigor acadêmico, postura, exigência mínima de respeito no binômio ensino-aprendizagem, exatamente o tipo de atitude e características que levaram a formação dos milhares de alunos que mencionei, a “fama” atribuída ao mestre e de maneira direta da própria instituição de ensino que se diga de pronto, longe está de refletir aquela de tempos outros, afinal são outros os tempos.

Segundo apurado por este articulista, ao que parece, o corpo discente da escola, em particular do terceiro ano, ou seja os finalistas, se encontrava insatisfeita com o fato de ser cobrada pelo Professor Vilela em sua assiduidade, pontualidade, respeito em sala de aula (há inclusive relatos de que em aulas outras, alunos entravam em sala quando bem entendiam, ficando se quisessem e mesmo quando presentes ocupando-se de outras atividades, menos a devida atenção às aulas), isto estaria trazendo muitos transtornos sobretudo diante do fato do Mestre Vilela não abrir mão do mínimo de postura e respeito, além do zelo e compromisso com que nestes mais de trinta anos se dedicou com seriedade que lhe é peculiar a ensinar.

Mesmo diante de todo este histórico e ao que tudo indica, corpo discente hoje é cliente e cliente tem sempre a razão, primando por uma decisão de mercado e quem sabe com o receio de “perder”receita, cortou-se a raiz do problema : o professor.

Em assim sendo e sem mais pestanejar, nosso herói foi “convidado a passar no RH” e desligar-se da instituição, sem oportunidade de apresentar suas razões, tampouco de transmitir a seu sucessor (porque substituir experiência, dedicação e caráter não seriam tarefas fáceis) todo o cabedal de instruções para prosseguimento da disciplina (sua principal preocupação) em vista inclusive do fato de que o material didático utilizado em aula é de sua autoria e vem sendo aplicado com positivo resultado nos últimos anos.

Certo que qualquer instituição pode e deve guiar seus passos como bem lhe aprouver, contratando e desligando colaboradores (hoje não há mais funcionários, segundo a moderna teoria da administração) no momento em que achar devido, procurando atingir seus objetivos e metas, o que causa espécie no presente é a maneira como isto foi feito e ademais com quem isto foi feito, não digo aqui da pessoa do mestre Vilela em si, mas de toda seu contributo, sua história e experiência, adquiridos em anos e anos de combate nas trincheiras do ensino, sendo trinta e três deles dedicados exclusivamente a uma mesma casa.

Claro que há sempre em qualquer história duas versões, porém, sendo egresso de dita instituição, tendo conhecido em primeira mão suas qualidades e porque não também seus defeitos, sabedor que sou de sua atual notoriedade, não causa infelizmente estranheza o acontecido.

Afinal, como tratamos nossos heróis? Os tempos são outros e por isso são eles “descartáveis”? Acaso não merecem atenção e apreço aqueles que dedicaram suas vidas a uma causa e após “se tornarem obsoletos” serem relegados ao limbo da história?

A mim algumas lições podem ser extraídas, uma delas, tal qual no exemplo cinematográfico do “Rambo” cujo país que bravamente foi defender não mais existe, ao que parece “meu colégio”também não mais existe, não falo por óbvio da estrutura física, esta até ampliada foi, mas daquele método de ensino que impactou e formou toda minha geração, aprendemos com mestres como Vilela (português), Aristides (química), Maciel (física), Leila (biologia), Sônia (história), Cleomar (história), Gilberto (geografia), Rubens (matemática), Júnior (educação física),dentre tantos outros, a respeitar a autoridade, a nos empenharmos ao máximo nos estudos, a sermos a melhor versão de nós mesmos, adolescentes todos à época, cheios de dúvidas e aspirações, mas olhávamos para nossos mestres com o sentimento de não querer nunca desapontá-los, ao que tudo indica, esse tempo passou, hoje são todos (em menor ou maior grau) descartáveis aos olhos do impiedoso sistema, números a serem apresentados em um relatório de metas, somente.

A despeito da tristeza com que recebi a notícia de seu desligamento, em outro lado pude presenciar as inúmeras manifestações de apreço e carinho de alunos de diversas turmas e gerações, todos agradecidos pelo “rigor” com o qual fomos tratados em nossa época, dentro e fora do ambiente acadêmico, penso que isto para um professor não tem preço, o culminar de uma carreira podendo dizer sem sombra de dúvidas que combateu o bom combate e cumpriu fielmente a sua missão.

Neste dia branco, espero que nosso herói esteja certo de que seu impacto foi e é bastante relevante, transpondo gerações e de que de alguma maneira estamos todos unidos, de igual maneira espero que todos os heróis da verdadeira educação possam ter a certeza de que seus esforços não são em vão, a despeito de ventos contrários, vale a pena fazer a diferença.

Anderson F. Fonseca. Professor de Direito Constitucional. Advogado. Especialista em Comércio Exterior e ZFM. IG:@anderson.f.fonseca

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