A OUTRA CONTA

O mundo inteiro está reagindo contra o legado da pandemia do novo Coronavírus. No Brasil, o efeito é um pouco menor porque existe uma agricultura forte. Em tese, tem alimentos para dar e vender. Descontados os bolsões de pobreza, os números estão dizendo isso. Temos deficiência em trigo para o pão nosso de cada dia, mas os outros grãos compensam com sobras.

O governo comemora o equilíbrio nas contas. Coisa inimaginável há poucos anos. É motivo para festejar? Sim, com algumas restrições. Embora o déficit viesse se arrastando por uma década e o fantasma da inflação rondando, a reação dos brasileiros afastou a ambos. Não deixa de ser um feito grandioso levando-se em conta que atravessamos dois anos de epidemia e muitos anos de desmandos administrativos e corrupção. Contudo, devemos ter cuidado em aplaudir. Quando o governo vai bem e o povo mal, alguma coisa está errada. Para o cidadão contribuinte, o superávit o atinge muito indiretamente. O que interessa é que o povo tenha dinheiro para gastar. Com o emprego voltando lentamente, o trabalhador já está arriscando comprometer a renda futura, comprando parceladamente. Ainda é um sonho reservar algum dinheiro para a poupança.

O trabalhador da iniciativa privada teve seus direitos ampliados na constituição de 1988, mas o seu ganho ficou muito aquém do seu parente ou colega que conquistou um cargo público. Este é outro entrave para o equilíbrio das contas do governo. Não estamos falando do professor ou de subalternos que estão na ponta garantindo o funcionamento da máquina. Estamos falando dos altos salários. Não apenas o que o político ou juiz embolsa no final do mês, mas das enormes mordomias que só beneficiam os que estão no alto da pirâmide. O custo mensal de um senador é igual ao ganho de um professor concursado em sete longos anos de trabalho. Por que um juiz do STF precisa de duzentos e dez auxiliares? Sim, para atender os onze juízes do Supremo existem dois mil trezentos e dez trabalhadores. Aliás, o termo “trabalhador” não se aplica a muitos deles que sequer trabalham. As viagens e diárias de um parlamentar, que precisa visitar seu Estado, não são menores das de um alto membro do judiciário. Somente com a dita Justiça do Trabalho se gasta o dobro que com o parlamento federal.

Por ora, o trabalhador da iniciativa privada apenas sente inveja do funcionário público. Lentamente está exigindo sua equiparação. Quando isso acontecer, até mesmo aqueles montados em verbas públicas vão entender que exageraram na dose. Não se pode enriquecer cercado de pobreza por todos os lados. O fato é que, se o governo consegue equilibrar suas contas com tudo isso, é porque está cobrando demais ou tirando da previdência (aposentados) sem mexer na mordomia das elites dos três poderes. É uma situação que aqueles que conquistam um cargo esquecem com facilidade.

Quantos políticos já nos frustraram durante a vida? Quantos chegaram lá com a promessa de mudar as coisas? Os mais céticos dizem que é mais fácil manter a castidade num prostíbulo que a honestidade na política. Infelizmente alguns dos nossos representantes dão motivos para esta argumentação. Antes do mandato falam em restrições de gastos e depois se locupletam, tal qual marido infiel que, em casa, sacrifica a família e no prostíbulo não tem limite de gastos. O mundo só é maior que nossa casa no tamanho. (Luiz Lauschner)

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