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A Floresta e nós

No mês passado, agosto, uma área do tamanho de Belo Horizonte foi desmatada na Amazônia atingindo o maior índice mensal de desmatamento para o mês em 10 anos, 1.606 km². No acumulado de janeiro a agosto de 2021 o índice também foi o pior desde 2011. Será que os manauaras acreditam, do ponto de vista econômico, que “derrubar” a floresta é o melhor caminho para terem uma melhor qualidade de vida?

O Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) afirma que em relação a agosto do ano passado, a área desmatada neste ano é 7% superior e o acumulado nos 9 meses é 48% maior do que no mesmo período de 2020, com 7.715 km². Para quem não conhece o Imazon é uma instituição brasileira de pesquisa que tem como missão promover conservação e desenvolvimento sustentável na Amazônia. 

No mês de setembro o ritmo do desmatamento segue acelerado e a Amazônia perde diariamente uma área de floresta maior do que 4 mil campos de futebol. Até agora já foram devastados 1.224 km², o que corresponde ao tamanho da cidade do Rio de Janeiro e já é a pior marca para setembro em 10 anos. 

Durante a gestão do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles ficou muito claro que na sua antológica frase “passar a boiada” o que estava sendo gestado e posto em prática era a desestruturação de políticas protecionistas do meio ambiente. Demissões de fiscais, anistia a desmatadores, flexibilização de regras para a exportação de madeira nativa do Brasil, eliminando a necessidade de autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e várias outras ações facilitaram a exploração das florestas no Brasil. Agora cabe dizer que a exploração depredatória da Amazônia não começou neste governo.

Com a propaganda que dizia “Toque sua boiada para o maior pasto do mundo”, o governo federal, em 1970, incentivava produtores rurais a ocuparem a Amazônia. E a iniciativa surtiu efeito, pois o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que os estados da região norte concentram 41,6% do rebanho bovino do Brasil. Na contextualização de que a exploração da Amazônia já ocorre a muito tempo o MapBiomas informa que entre 1985 e 2020, a Amazônia perdeu 74,6 milhões de hectares de sua cobertura vegetal natural, uma área equivalente ao território do Chile. No mesmo período houve um crescimento de 656% na mineração, 130% na infraestrutura urbana e 151% na agricultura e pecuária. 

O MapBiomas é uma iniciativa do SEEG/OC (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima) e é produzido por uma rede colaborativa de cocriadores formado por ONGs, universidades e empresas de tecnologia organizados por biomas e temas transversais. O mapeamento temporal do uso e cobertura da terra do bioma, feito pelo MapBiomas, mostrou que se em 1985 apenas 6% da Amazônia haviam sido convertidos em áreas antrópicas, como pastagens, agricultura, mineração ou áreas urbanas, em 2020, esse percentual quase triplicou, chegando a 15% de toda a região. 

Diante da exploração da Amazônia, com desmatamentos para retirada de madeiras nobres e posterior criação de campos de cultivos e pastos para o “Agro é pop, Agro é tec, Agro é tudo”, com garimpos que revolvem o solo e destroem rios em busca de metais preciosos e muitas outras formas de destruição do meio ambiente, surge a ideia de que o desmatamento se converte em riquezas para a população, o que não é uma verdade. A prova de que a riqueza gerada pela destruição da floresta é para poucos pode ser obtida ao consultarmos o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o Índice de Progresso Social (IPS), ambos indicam que os municípios da Amazônia possuem os índices mais baixos registrados no país, conforma registar o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Mas o que pensa o manauara sobre o que está ocorrendo com a Amazônia? Sobre a “derrubada” das florestas? Em maio deste ano a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) realizou uma pesquisa de opinião sobre algumas questões ambientais e os resultados foram bem interessantes. 72,6% acreditam que a floresta em pé afeta positivamente a qualidade de vida, 67% dizem que as áreas verdes urbanas afetam positivamente a qualidade de vida, 94,1% afirmam que as queimadas afetam negativamente a qualidade de vida e 73,4% têm a certeza de que a criação de novas áreas de conservação não atrasa o desenvolvimento econômico.

Diante dos dados apresentados e da pesquisa realizada pela FAZ lembrei de uma notícia sobre um deputado estadual do Amazonas, não me recordo o nome, que ao ser entrevistado por uma rádio paulista falou que o desmatamento da Amazônia é “quase imperceptível” para o amazonense. A afirmação foi feita ao responder sobre como os amazonenses reagem à pressão internacional a respeito dos níveis alarmantes de desmatamento. Bom, cada um com sua opinião, mas daqui não parece tão “imperceptível”.

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