Há cem anos perdíamos o sociólogo alemão. Max Weber foi não só o maior sociólogo de seu tempo como também foi o mais destacado erudito de toda a tradição sociológica até os dias de hoje. E escrevo isso com muita segurança – sem sofisma nem fervor ideológico.

As qualidades das pesquisas sociológicas de Weber são reconhecidas até por seus críticos funcionalistas ou marxistas. Weber fez da sociologia uma ciência madura e rigorosa. Incorporou à sociologia as contribuições mais significativas das ciências humanas de sua época: historiografia cultural, filosofia kantiana, psicologia social, estudos de religião comparada, jurisprudência alemã, métodos administrativos e ciência política.

A sociologia weberiana é robusta, complexa e nada reducionista. Diferente de Marx (reducionismo economicista do modo de produção capitalista) e Durkheim (reducionismo sociologista do fato social), a sua abordagem é multicausal e compreensiva. E é dessa perspectiva que brota o seu estudo mais conhecido: “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”.

A tese de Weber busca compreender a emergência do capitalismo num conjunto de mudanças religiosas e políticas no interior da Europa. É como se uma confluência não intencional de acontecimentos históricos pudesse sedimentar um novo ethos, vale dizer, uma nova ética para a coletividade.

A ética protestante em questão é a calvinista. O calvinismo foi uma revolução dentro da reforma protestante à medida que invertia radicalmente a orientação religiosa dos fiéis. Se a vida católica é devota à Santa Igreja ou a luterana às cinco solas, o calvinismo é orientado para uma concepção terráquea da fé, onde a salvação está na devoção imediata e na construção da obra para Deus.

O trabalho metódico e abnegado, conduzido individualmente em nome do Senhor, por uma comunidade de predestinados, daria as condições morais e econômicas para o surgimento de uma sociedade de mercado amplamente competitiva, racional e universalmente válida.

O capitalismo, portanto, seria a resultante desse novo ethos que correlaciona trabalho econômico vocacionado com os princípios de salvação do crente.

Weber atribuía, portanto, ao agente e a sua ação individual todo processo social e histórico. Na sociologia weberiana, os indivíduos agem socialmente motivados pelos valores, pela razão, afetividade ou tradição.

A recepção da obra de Weber no Brasil foi positiva e desde a década de 30 do último século estudos weberianos são desenvolvidos no país.

Em 1936, o jovem Sérgio Buarque de Holanda introduzia as categorias weberianas, no seu clássico “Raízes do Brasil”, no tipo de colonização da Espanha (ladrilhador) e de Portugal (semeador), passando pelo estudo sobre a vida intelectual nos trópicos e formulando o já consagrado conceito de “homem cordial”.

O jurista Raymundo Faoro, em “Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro”, de 1957, aplica os conceitos de burocracia e patrimonialismo para o estudo do fenômeno do estamento-burocrático na formação da elite nacional.

Fernando Uricoechea, em “O Minotauro Imperial: burocratização do estado patrimonial brasileiro no século XIX”, de 1978, e Simon Schwartzman, em “Bases do Autoritarismo Brasileiro”, de 1982, desenvolveram sofisticadas análises de sociologia histórica sobre a formação das nossas instituições políticas e sociais, e a sua trajetória dependente até os dias de hoje.

O valor de um autor clássico é inesgotável. E de tempos em tempos, leitura após leitura, ainda descobrimos na obra de Max Weber um significado importante para a compreensão da nossa realidade, para aquilo que Weber chamou de o mundo da vida.

*Breno Rodrigo de Messias Leite é cientista político

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