Vitória, início, meio e fim

Em 1º de maio de 1973 o cine Vitória engrossou a lista dos cinemas de Manaus que haviam fechado suas portas, ou estavam em vias de fazê-lo, como reflexo da popularização da televisão na cidade. A imensa sala do Vitória foi ficando vazia e, com pouco menos de 19 anos de existência, as projeções cinematográficas cessaram.

Deu no JC: Manaus ganha um novo cinema
Foto: Divulgação

“O Vitória colocou o Educandos entre os bairros que possuíam um cinema. Os outros foram a Cachoeirinha (Recreio Amazonense, Operário, Ipiranga); São Raimundo (Ideal, Paroquial, Iris); Aparecida (Ideal Cine Teatro); Glória (Glória). O próprio Educandos já tivera o Cine Teatro Rio Negro e o Constantinópolis, antes do Vitória”, lembrou Ed Lincon Barros, pesquisador da história dos cinemas de Manaus.

Voltando à inauguração do cine Vitória, em 11 de dezembro de 1954, vamos encontrar o Jornal do Commercio divulgando o acontecimento com uma nota destacando ‘Floresta maldita’ como o primeiro filme a ser exibido na sala. Lançado em 1952, ‘Floresta maldita’ chegava a Manaus com dois anos de atraso. Uma curiosidade: o filme era estrelado por Kirk Douglas, que morreu ano passado com 103 anos.

 Deu no JC: em breve, inauguração do Vitória
Foto: Divulgação

Numa entrevista de quando o Vitória fechou, Raimundo Marques, gerente do cinema, recordou da inauguração do espaço: “ainda me recordo da bonita festa: o cinema lotado. Todo o bairro presente para ver ‘Floresta maldita’, filme da inauguração”.

Floresta Maldita, filme de estreia do Vitória, lançado dois anos antes
Foto: Divulgação

O cinema pertencia aos empresários Adriano Bernardino e Aurélio Antunes e, como outras salas de sua propriedade, fora totalmente construído e, depois de pronto, se não o maior, era um dos maiores da cidade, com capacidade para 1.116 pessoas sentadas em poltronas estofadas.

Deu no JC: Educandos ainda era chamado de Constantinópolis
Foto: Divulgação

Ele estava lá      

Em 1954 o bairro de Educandos ainda fazia parte da periferia de Manaus, e como tal, gozava de má fama, mesmo assim ganhou o belo cine Vitória (nas horas vagas uma casa de espetáculos, o Cine Teatro Vitória), cuja construção começara no início de 1950, na av. Leopoldo Peres, então estrada de Constantinópolis, ao lado da Usina Americana, próximo à Baixa da Égua, e em 1953 já estava quase concluído, faltando os acabamentos e o início da instalação dos equipamentos de som e projeção, o que só ocorreu no ano seguinte.

O jornalista Cláudio Amazonas nasceu e mora no bairro de Educandos. Em 1954 ele tinha apenas nove anos de idade e recorda que foi assistir, na matinal, logo no outro dia após a inauguração, o filme ‘Adaga de Salomão’. Também lembra que era uma série. ‘Adaga de Salomão’ tinha 15 episódios de muita ação e aventura, mas Cláudio não sabe dizer se todos foram exibidos no Vitória.

“Lembro da construção do prédio e da festa da inauguração do cine. Todo mundo do bairro queria ir lá. Foi um acontecimento. Todos os domingos, pela manhã logo cedo, eu e meu irmão Erasmo tínhamos a obrigação de ir ajudar o padre Antônio Plácido na igreja, depois estávamos liberados. Com a inauguração do Vitória, a ida ao cine passou a ser uma diversão imperdível para nós”, disse.

Naquele domingo, 12 de dezembro de 1954, Cláudio contou que o cinema estava repleto de famílias, que passavam ao largo da zona boêmia do bairro, iniciada logo a partir do Vitória, nos inúmeros bares que se estendiam ao longo de toda a estrada de Constantinópolis.

“Os maridos, então, fingiam que nem sabiam o que se passava naqueles bares”, riu.

Sem ar condicionado

A partir da bilheteria do Vitória, fila para entrar, mostrando que o arriscado investimento dos empresários Adriano e Aurélio havia valido a pena. Arriscado porque o Educandos, apesar de populoso, era um bairro habitado por pessoas de baixo poder aquisitivo e considerado ‘distante’ da cidade, conforme texto do Jornal do Commércio do dia da inauguração que classifica o bairro como um ‘populoso arrabalde’.

Adriano Bernardino, poderoso empresário dos cinemas
Foto: Divulgação

Com exibições de filmes às 9h (matinais), 13h, 16h (matinés) e 20h, os educandenses mais endinheirados iam ao cine em todas as sessões, principalmente aos domingos.

“As matinais, e as matinés, passaram a ser uma diversão imperdível para a molecada do bairro. Fui tanto ao Vitória que nunca mais esqueci a música que antecedia ao início da projeção: ‘Beijo nos Olhos’, orquestrada. Até hoje, quando ouço essa música, volto àqueles dias”, relembrou.

“De noite eles abriam as imensas portas laterais do cinema, para ventilar. Acho que nem existia ar condicionado na Manaus daqueles tempos, mas a cidade não era quente como hoje”, falou.

Mas o que marcou na mente do jornalista foram as apresentações artísticas que revezavam com a exibição dos filmes.

“Nunca esqueci o show da cantora paraguaia Sarita Antunes junto com um grupo de cantores também paraguaios. Um deles entrou cantando, do fundo da sala, na direção do palco com uma voz potentíssima. Nessa época eu tinha uns 16, 17 anos. Recordo dos shows do Altemar Dutra; do Waldick Soriano, que entrou, bêbado, no palco; do Nilton César; Teixeirinha; e do Roberto Carlos, em começo de carreira, com uma guitarra, vestido numa camisa super vermelha”, contou.

O último filme

O gerente Raimundo Marques confirmou que o Vitória recebia muitos shows de artistas nacionais. Ele morava numa casinha atrás do cinema e por isso acumulava a função de vigia do prédio. Raimundo revelou que muitos artistas iam até sua casa, como Teixeirinha e Waldick Soriano, entre outros, Ciro Aguiar, Moacyr Franco, cantores que faziam muito sucesso na década de 1960.

No aniversário de um ano do Vitória, o Jornal do Commercio noticiou a data como ‘o maior acontecimento cinematográfico em Manaus’, e o cine presenteou seu público com a exibição de nove filmes em menos de uma semana, todos com ao menos dois anos de lançados.

Em 13 de outubro de 1959 o jornal A Gazeta publicou a manchete: ‘Reformas totais no cine Vitória’. As reformas incluíam a ampliação do espaço devido ao público crescente. Dez anos depois, a história era outra. Em 8 de julho de 1969 foi a vez do jornal A Notícia publicar a manchete: ‘Inteiramente recuperado o cine ‘Vitória’ de Educandos’, mas ao mesmo tempo informava que desordeiros frequentemente destruíam as instalações do cinema, que estava prestes a entrar em seus últimos anos de existência.

Apenas quatro anos depois, em 10 de maio de 1973, O Jornal publicou: ‘Cine Vitória não vai mais divertir’, e nove dias depois, em 19 de maio de 1973, A Notícia completava: ‘Vitória transformado em depósito’.

Em 1973, a prefeitura havia dado um prazo para as salas de cinema, em frangalhos, melhorarem suas instalações. Como o segmento estava em declínio, nenhuma conseguiu atender à ordem. No dia 1º de maio daquele ano, o Vitória encerrou suas atividades com o filme ‘Comandos’.

“Eu cheguei a ver esse filme numa sala que deveria ter umas cinco pessoas”, concluiu Cláudio.

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