25 de junho de 2022

Violência não se combate com violência

Neste Domingo de Páscoa, as Igrejas Cristãs fazem um balanço da Campanha da Fraternidade, cujos resultados são dramáticos, mas não podem ser desanimadores. O tráfico, a corrupção e a exclusão social estão matando uma Hiroshima e Nagasaki a cada ano em estatística e sem perspectiva de solução. No documento, entregue na Cerimônia das Cinzas, “Fraternidade e Superação da Violência”, a Conferência dos Bispos aponta a violência no Brasil contra as crianças, os negros, os jovens e as mulheres.
Atualmente, os mais pobres arcam com sacrifícios maiores e pagam a conta da corrupção com o aumento da cesta básica, das tarifas de energia e do aviltamento dos combustíveis, já que, ao desviar recursos que deveriam ser usados em favor da população, os políticos acabam por promover outra forma de violência contra o ser humano: a miséria.

Dados do Instituto de Pesquisa Aplicada divulgaram o Atlas da Violência de 2017, cujos resultados apontaram o perfil das vítimas e como a violência está separada no Brasil. Mais de 318 mil jovens foram assassinados no Brasil entre 2005 e 2015. Os homens jovens continuam a ser as principais vítimas: mais de 92% dos homicídios atingem essa parcela da população, com idade entre 15 e 29 anos. Os jovens negros também estão mais sujeitos à violência visto que, de cada cem pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

Segundo a professora do Curso de Segurança Pública da UCB (Universidade Católica de Brasília), Marcelle Gomes Figueira, “esses resultados apontam o perfil das vítimas e como a violência está distribuída de forma desigual”. E complementa: “O que é assustador é ver que, mesmo com este cenário, o Estado brasileiro continue omisso ao debate qualificado e não proponha ações que possam, de fato, produzir efeitos sobre o problema”, frisou.

A violência contra as crianças está impregnada de Norte a Sul do Brasil. Levantamento da OIT (Organização Internacional do Trabalho) informa que ocorrem no país, por ano, cerca de cem mil casos de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, enquanto, menos de vinte por cento desses casos chegam ao conhecimento das autoridades. Em Manaus, dos 788 casos de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes registrados em 2016, 481 foram denúncias de estupro e a maioria das vítimas, 618, era do sexo feminino, com idade entre 12 e 17 anos.

Esse cenário trágico, sejamos honestos, conta com o silêncio obsequioso das autoridades, de adultos omissos, da conivência absurda até de familiares, a par de boicote explícito à CPI da Pedofilia quando aqui esteve para apurar denúncias. “Deixai vir a mim as crianças porque delas é o Reino dos Céus”, disse Jesus de Nazaré para ilustrar a importância superior das crianças e o respeito que a elas devemos dedicar.

Corremos sério risco de naturalizar o absurdo, a ponto de o ser humano passar a ser o lobo sanguinário de outro ser humano. A raiz da violência também começa com os castigos corporais, na escolha dos super-heróis, nos filmes de guerra, recheados de agressões espetaculares, nos jogos eletrônicos, na disseminação desses parâmetros de agressividade e de retaliação de desafetos ou adversários nas redes sociais. Resta claro como os problemas enfrentados no Brasil decorrem da própria violência em seus vários formatos.

É imperioso estancar o crescimento da violência da qual temos sido vítimas diárias e que se tornou banal. Em 2017, foram mais de 60 mil homicídios, com apenas 15% de elucidação e punição, número maior que as vidas humanas perdidas na Guerra da Síria. Parar significa fazer um exame de consciência, dos nossos valores e condutas, identificar onde estamos errando, o que estamos consumindo, ou permitindo que nossos filhos, alunos e pessoas do convívio diário consumam, sem saber o que estão fazendo contra elas.
A luta pela paz e harmonia social é insana, sem trégua e obstinada, de modo que ninguém fique de fora.

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