11 de agosto de 2022
Prancheta 2@3x (1)

Violência e insegurança ampliam gastos da indústria local

Como no restante do País, a violência cresce no Amazonas e está afastando potenciais investidores interessados em instalar fábricas no Estado. Segundo a Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), grandes empresas passaram a transportar cargas e funcionários com segurança armada dentro dos veículos devido ao número crescente de assaltos na área do Distrito Industrial e adjacências de Manaus. A vulnerabilidade é altíssima de quem trafega pelo local. Mesmo sem estatísticas oficiais, a estimativa é de que pelo menos três casos de assaltos são registrados por dia nas ruas e avenidas do parque industrial da capital.

As ocorrências  vão de roubos e furtos de celulares, relógios, entre outros eletroeletrônicos, dinheiro em espécie, cartões, carteiras porta-cédulas até cargas que saem das fábricas para serem transportadas por via marítima ou rodofluvial, tendo como destinos os principais centros consumidores do Brasil, principalmente do eixo Rio-São Paulo. O problema se agrava e é vísivel hoje a queda do interesse de empresas nos negócios da ZFM (Zona Franca de Manaus). Muitas desistiram de implantar projetos ao constatar a expansão da violência na cidade, direcionando os negócios para países que ofereçam mais segurança aos investimentos (nacionais ou estrangeiros).  

Segundo o Atlas da Violência 2019, divulgado recentemente, o número de assassinatos chegou a 1.674 em 2017 no Amazonas, o dobro do registrado há uma década no Estado. Os dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o jovem negro, não só na região como também em outros Estados brasileiros, tem maior probabilidade de ser vítima da violência. As disputas entre as facções criminosas que deixam um rastro de sangue também são apontadas pelo agravamento da situação de insegurança. E todo esse cenário negativo reflete diretamente na atividade econômica.

“Acontece que os grandes investidores, além da segurança jurídica, querem também tranquilidade para operar seus negócios. Se a violência cresce, é óbvio que as empresas passam a temer por eventuais prejuízos em função das ações de bandidos, não só em termos de mercadorias ou produtos, mas ainda sobre o risco à vida dos funcionários”, diz o vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo. Segundo Azevedo, falta a contrapartida dos órgãos de segurança para combater a violência, fruto do desemprego e da extrema desigualdade de renda existente no País.

“Hoje, são quase 14 milhões de desempregados e grande parte da população vive em extrema pobreza, sem praticamente oportunidade de educação, de melhores condições de vida e emprego, dando vazão para o crescimento dos crimes”, afirma o empresário. “Aqui no Amazonas, apesar de um parque industrial amplo, consolidado e diversificado, não é muito diferente dos outros Estados do Brasil. Muitos passam fome e com isso enveredam para o crime”, acrescenta.

Tribunal do crime

Para o economista e consultor Ailson Resende, especialista em ZFM, as ações de facções criminosas – que em pouco menos de cinco anos deixaram mais de cem mortos em Manaus – também afugentam investidores interessados no potencial da indústria incentivada no Amazonas. Segundo ele, hoje o crime atingiu um grau de inovação e sofisticação tão elevado que é muito mais organizado que as três esferas de governo – municipal, estadual e federal. E ainda possui uma hierarquia rigorosa e bem estruturada que garante a sobrevivência econômica e social de todos os seus membros. “Os bandidos que agem de dentro dos presídios decidem quem vai morrer ou não e ainda estipulam pensões vitalícias para as viúvas de seus integrantes”, diz o consultor.

“O tribunal do crime age com competência e rigor”. Sem medir palavras em suas previsões, Ailson Resende alerta que não só o Amazonas como todo o Brasil podem se transformar “numa nova Venezuela” caso os aparatos de segurança não consigam dar um freio à expansão da violência. “Não faz muito tempo, grandes empresas faziam bilionários investimentos no mercado venezuelano nos mais diversos segmentos produtivos. Mas o caos político com impacto negativo na economia que se instalou com o chavismo acabou afugentando investidores. E hoje vemos aí o que resta do país vizinho – gente morrendo de fome, alto desemprego, migrações em massa e centenas de vítimas do sistema de repressão do governo Maduro ”, afirma o consultor. O economista e professor José Alberto Machado avalia que a instabilidade no sistema de segurança facilita o crescimento das ações do crime organizado e repercute diretamente nas atividades da indústria. Tem, portanto, um efeito dominó em todos os estratos sociais.

“As pessoas ficam violentas por causa da crise econômica, que é o problema central da nossa sociedade. Quem está desempregado afoga as mágoas no álcool, nas drogas, aumentando as estatísticas sobre violência. E com isso crescem os bolsões de miséria e a extrema desigualdade social  existente no País”, diz ele. Segundo Alberto Machado, a crise penitenciária obrigou o governo a mobilizar praticamente todo o contingente policial para resguardar o sistema penitenciário, relegando a segundo plano outras ações de controle da marginalidade fora das prisões, nas ruas. “A população vive à mercê de bandidos porque não existem policiais suficientes para dar mais segurança ao cidadão. Eles todos foram deslocados para os presídios”, acrescenta.

Para o economista, o sistema de segurança brasileiro perdeu também a guerra contra o  tráfico de drogas, que hoje está em cada esquina do Brasil operando um comércio ilegal bilionário e eficiente. “Com certeza, essa luta está perdida, pois o narcotráfico se expande a cada dia e consegue mais simpatizante porque é uma atividade altamente rentável e organizada”, afirma ele.

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