A Máfia é um tipo de crime organizado não apenas ativo em vários campos ilegais, mas também com tendências a exercer funções soberanas num território específico – o ambiente político não escapa dessa influência. Alguns estudiosos veem a “máfia” como um conjunto de atributos profundamente enraizados na cultura popular. Muitos sicilianos não consideram os membros dessas organizações como criminosos, mas como esteios da comunidade, uma vez que substituem o Estado incapaz de oferecer proteção aos pobres e desvalidos. Em 1925, o ex-primeiro-ministro Vittorio Orlando reportou ao Senado italiano que se sentia orgulhoso de ser um mafioso, visto que essa palavra significava honorável, nobre e generoso (Wikipédia).

Em muitas localidades dominadas pelo crime organizado, a bandidagem toma para si uma responsabilidade negligenciada pelo Estado. Daí, a revolta de vários moradores durante as batidas policiais que sobem os morros cariocas. As pessoas, esquecidas pelo poder público, acabam se apegando a quem lhes oferece um pouco de cidadania, mesmo que de forma tortuosa. A lógica estabelecida pela crua realidade define o padrão ético do “mata, mas faz” ou do “trafica, mas faz”; algo muito semelhante ao paradigma cristalizado no mundo político do “rouba, mas faz”.

O deplorável festival de cinismo e descaramento que inocentou o presidente Temer das acusações de corrupção passiva escancarou para o mundo inteiro as sujas engrenagens da máquina legislativa, onde impera a prática franciscana do “é dando que se recebe”. Tudo no parlamento é movido pelo dinheiro. Por isso a predecessora Dilma Rousseff foi enxotada do palácio do planalto – ela não encampou a prática fisiologista do seu vice. Ficou claro que “pedalada” é um crime inafiançável, mas o reality show da mala de dinheiro é fato irrelevante. Tanto, que o emissário do Temer (autorizado em gravação) já foi inocentado pela Justiça e agora está livre, leve e solto. A maior piada dos últimos tempos se chama prisão domiciliar. O bandido pode, tranquilamente, roubar centenas de milhões porque, no pior dos cenários, ficará “preso” num complexo residencial que mais parece um resort. Detalhe: tudo construído pelo dinheiro roubado que autoridade nenhuma se atreve a confiscar.

Muitos deputados votaram na inocência do senhor Temer sob a alegação de que, mesmo sendo hipoteticamente corrupto, o presidente está fazendo um bom trabalho. É a mesma coisa de se afirmar que o chefão do tráfico não deve ser preso porque ele garante segurança e outros serviços aos cidadãos amparados pela sua gestão criminosa. Com isso, o pragmatismo assumiu de vez a preponderância sobre qualquer princípio de honra ou de honestidade. Tudo aquilo de mais tenebroso que se esbraveja sobre a política foi finalmente sacramentado na votação da semana passada. Não faltaram palavras duras nem discursos contundentes sobre o escárnio de engavetar uma grave acusação. Mesmo assim, os asseclas tufados de verbas parlamentares entoavam em uníssono o apoio ao relatório do deputado Paulo Abi-Ackel. O Parlamentar André Figueiredo chegou a dizer que “as votações que estamos tendo aqui estão transformando essa casa num vergonhódromo”.

A cada dia que passa a nossa política se torna mais cínica e aviltante. Demagogia e Falso pudor são coisas do passado. Vivemos a era do pós-verdade; um tempo onde as crenças e os valores duma sociedade são chutados pra escanteio, cedendo lugar para modelações fabricadas ao sabor das conveniências do poder estabelecido (político ou econômico). A mensagem que o congresso nacional deixou na sua histórica e lamentável sessão é a de que temos que engolir a “normalidade” da corrupção, do tráfico de influência, do fisiologismo, da impunidade, das malas de dinheiro e de tudo que corrói os valores fundamentais daqueles que ainda acreditam na honra e na honestidade.

A coisa está tão “normalizada” que o Advogado Felisberto Córdova esbraveja num vídeo que o Tribunal de Justiça não é a câmara dos deputados para aceitar a livre e disseminada negociação de propinas para manipulação de resultados judiciais. Disse isso na cara do desembargador do TJSC, Eduardo Gallo, a quem acusou de corrupção.

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