6 de dezembro de 2021

Venezuelanos buscam a sobrevivência em Manaus em diversas ocupações

Os venezuelanos vieram em massa para Manaus e encontraram na capital amazonense, uma solução de sobrevivência, fugindo do duro regime de Nicolás Maduro que levou a Venezuela a enfrentar uma das maiores (se não a maior) crise social e econômica dos últimos tempos.

Hoje, eles são pelo menos 30 mil vivendo só na capital do Amazonas. Mas estão espalhados por todos os Estados brasileiros, engrossando as fileiras de migrantes de outros países que buscam empregos no Brasil.

Além de auxílios governamentais e de países do exterior, os venezuelanos são de diversas classes sociais e com níveis de escolaridade também diferentes, mas que formam uma massa humana em busca de trabalho e de dias melhores. E não importa a origem econômica-social, quando o grande objetivo é continuar vivendo, ter um pouco mais de dignidade, algo que deixaram de ter há muito tempo com o regime ditatorial do atual presidente venezuelano.

Simples operários, engenheiros, mestres, doutores e pós-doutores correm atrás de uma ocupação para ganhar o pão de cada dia, dispostos a fazer qualquer atividade desde que consigam angariar alguns recursos.

Estão praticamente em todos os segmentos da vida econômica. Falando um ‘portunhol’ quase incompreensível, o engenheiro químico Guillermo Salas, 47 anos, chegou a Manaus há nove meses, trazendo a mulher e dois filhos, um adolescente e outro já adulto. É motorista de aplicativo, atividade que garante o sustento de cada dia, mesmo com o preço da gasolina nas alturas.

Ele conta a sua saga, exigindo grande atenção para entender, traduzir a sua história, devido à barreira idiomática, mesmo que o espanhol se assemelhe ao idioma português. Mas, a pronúncia gera muitas vezes confusão. E parece ininteligível.

Mesmo com formação superior, Salas disse que ganhava tão pouco que não dava nem para sustentar a família. “Fiz pós-graduação em eficiência energética, mas nem o nível superior com qualificação foi suficiente para sobreviver”, lamenta. “A situação está muito ruim na Venezuela. O que se ganha lá não dá nem para comer”.

Guillermo Salas está aprendendo o português para tentar um trabalho na sua área de atuação. “Após dominar melhor o idioma, vou tentar outro trabalho, mas pelo menos consigo cobrir as despesas básicas como motorista de aplicativo”, acrescenta.

Com dois anos em Manaus, Eduardo Fuentes também ganha a vida como motorista de aplicativo, uma das atividades que mais absorvem a mão de obra de venezuelanos em Manaus. E possivelmente no resto do país.

Sem ajuda imediata, eles contam com o auxílio de entidades que os encaminham para tirar documentos básicos e, posteriormente, para algum emprego. “Com certeza, a vida aqui está melhor do que no meu país. Lá, está muito difícil viver. Hoje, temos mais perspectivas de vida no Brasil”, diz Fuentes.

A Hermanitos é uma das entidades que auxilia migrantes venezuelanos em Manaus. Tem pelo menos 5 mil pessoas registradas que podem representar até  10 mil pessoas, incluindo seus familiares.

“Damos apoio para retirar documentos básicos e, em seguida, encaminhamos para vaga de empregos”, conta Xiosmel Ramón, também migrante, que é um dos coordenadores da entidade em Manaus. “Aqui eles encontram ajuda. Não estão sozinhos. Procuramos fazer tudo para ajudá-los”, diz.

Níveis escolares

A massa de imigrantes é formada por diversos níveis escolares – do básico, superior até a pós-graduação. São especialistas, mestres e doutores que também buscam alguma ocupação para sobreviver.

A Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) estima que, dos atuais 5,4 milhões de refugiados venezuelanos em todo o mundo, 260 mil vivem no Brasil, sendo pelo menos 20 mil em Manaus.

A capital do Amazonas abriga o maior grupo de imigrantes, antes dos haitianos, que totalizam aproximadamente 5 mil. E a cada dia vão chegando mais, já que a situação econômica e política da Venezuela piora de semana a semana.

Informalidade

Atuando na informalidade ou em atividades de baixa remuneração venezuelanos ocupam espaços improvisados como moradia – Foto: Altemar Alcântara / Arquivo – Semcom

A maioria dos venezuelanos da capital amazonense “se vira” como Jesús e Rossmary, no setor informal, vendendo água, café, frutas e artesanato nas ruas. Ou coleta ferro velho, papelão e plástico. Em julho, quando parte do centro da cidade foi inundada pelo rio Negro, e a feira da Manaus Moderna afetada pela enchente, Jesús trabalhou como catador. Algumas mulheres e homens se prostituem, “vendendo café e o corpo”, como se diz por aqui.

O constante fluxo migratório da Venezuela resultou na formação de pequenas comunidades em alguns terrenos baldios de Manaus, onde os imigrantes construíram moradias simples de madeira, tijolos e plástico. Já se pode prever como, daqui a alguns anos, elas terão se transformado em favelas.

Centenas de venezuelanos também se estabeleceram no decadente centro antigo de Manaus, e em algumas ruas se formou uma colônia que já leva o nome de “Pequena Venezuela”. Também Jesús e Rossmary vivem no Centro, numa velha casa deteriorada, pagando R$ 300 por mês por um quarto de 12 metros quadrados.

Há um banheiro em que não corre água, e eles têm que pegá-la com balde, na casa de uma vizinha também venezuelana. Como o dinheiro não dá para comprar gás de cozinha, o casal faz comida em duas pequenas placas elétricas. Faz muito tempo que o quarto não é pintado, e a umidade sobe pelas paredes.

Foto/Destaque: Altemar Alcântara / Arquivo - Semcom

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