Uyra, o ente defensor da floresta

As drag queens chamam a atenção onde quer que cheguem com suas roupas espalhafatosas e esfuziantes. Por isso o biólogo, artista visual, performer e maquiador Emerson Pontes resolveu criar o personagem Uyra (do tupi, ave livre), uma drag da mata, como ele a define, para, através dessa arte transformista, chamar a atenção para a natureza amazônica.

O performer explica a gênese da personagem. “Uyra já existe há mais de dois anos, surgindo nos mais diversos tipos de eventos, mas foi no início deste que resolvi criar a oficina ‘Morfose de Maquiagem Intuitiva e Sustentável’, para repassar noções de técnicas de ilusão facial com uma maquiagem sustentável a partir da pigmentação natural de folhas e sementes”, falou.

Emerson se formou biólogo no ano passado, especializando-se na pesquisa de sapos e lagartos, estes, talvez porque como ele, também vivem transmutando sua cor, seja para atrair o sexo oposto, assustar um inimigo ou comunicar-se. No caso de Emerson, ele quer comunicar-se. “Uyra surgiu para participar de atos políticos, mas principalmente para gritar por diversas causas: contra a destruição do meio ambiente, a favor do LGBT, pelos direitos das mulheres, dos indígenas, dos negros, da diversidade”, listou.

Durante suas performances Uyra dança e lê poesias, seja na rua onde estejam acontecendo protestos políticos, ou em festas em ambientes fechados, para as quais Emerson é contratado. “Resolvi utilizar o que aprendi sobre a floresta e os seres vivos que a habitam em função da conservação dessa mesma floresta e seres vivos”, explicou.

Mas, quem é Uyra? “Nas oficinas demonstro a maquiagem intuitiva, que parte do princípio da construção de uma estética baseada nas lendas amazônicas. Trabalho com a pesquisa em cima dos seres encantados (Iara, Curupira, Caipora e todos os demais) e também das narrativas da origem do mundo e seus elementos, representados pelas lendas e mitos, retratados nas histórias do guaraná, da Vitória Régia e dos rios. Uyra representa tudo isso junto, ou individualmente”, esclareceu.

Tudo de volta à terra
Outros ensinamentos repassados nas oficinas são algumas técnicas para trabalhar a ilusão facial como, por exemplo, contornos e sombras, aumento e diminuição de nariz, boca e olhos e produção de perucas orgânicas com folhas, fibras e cipós. “A ideia é usar a maquiagem de tintas junto com elementos da floresta para compor um personagem”, falou.

Sobre o material usado nas oficinas e performances, Pontes comenta.
“Tudo que eu utilizo, eu pego na floresta, galhos, folhas, cipós, ossos, sementes, um material não utilizado por artesãos que fazem peças ecológicas. Eu aproveito o que a natureza tem de belo e crio em cima disso, sempre mostrando o lado místico, através dos personagens de nossas lendas, fazendo um resgate cultural, e apresentando a diversidade de elementos com os quais podemos trabalhar”, ensinou.
A Oficina Morfose de Maquiagem Intuitiva e Sustentável motivará os participantes a descobrirem outras possibilidades de si, disse Pontes. “Tudo isso através da sua mudança de forma com a maquiagem. Para se ter uma ideia, desde que Uyra apareceu, ele, ou ela (é um ser sem gênero), nunca teve uma forma repetida. Cada vez que ele surge tem sempre um visual diferente”, garantiu.

Com o trabalho desenvolvido o performer busca dar valor à floresta e seus elementos. “O intuito é pegar elementos das matas, respeitando sua retirada, e criar uma leitura sobre isso”, disse.

“Cada folha, galho ou semente se degrada no seu processo natural de ciclagem de matéria, mas antes que isto ocorra, podemos dar valor artístico a estes materiais, usando-os na criação de personagens. Depois que me ‘desmonto’, todo o material é devolvido à terra, de onde veio, para que volte a se decompor naturalmente”, acrescentou.

A Oficina Morfose foi criada no início deste ano e até agora Emerson já a realizou quatro vezes. A mais recente foi durante a Semana do Meio Ambiente, no início de junho, no próprio Inpa, e ele já prepara a quinta edição. “Também instigo os participantes a criarem seus próprios personagens, afinal, o imaginário amazônico é infinito, e esse processo de criação é um eterno aprendizado. Quando comecei só ‘montava’ a minha cabeça, mas agora já crio o vestuário e a transformação é completa”, adiantou.

Os interessados em participar da próxima oficina Morfose podem se inscrever direto com Emerson, por meio do e-mail [email protected], ou pelo telefone (92) 9 9425-5511.

A floresta modificada
Estudo inédito liderado pelo Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) mostra que há uma relação entre a ocupação humana passada na Amazônia e a presença de plantas domesticadas na floresta. Isso indica que essas florestas podem ser em parte um patrimônio vivo dos povos pré-colombianos. O resultado da pesquisa publicado na revista Science põe abaixo a ideia de que as florestas amazônicas estavam intocadas pelo homem.

A pesquisa atual focou em 85 espécies de árvores, que foram domesticadas em algum grau pelos povos pré-colombianos, dentre elas cacau, castanha-do-Brasil, açaí, bacaba, patauá, mapati, seringueira, pupunha e muitas outras espécies que são fonte de alimentação, abrigo ou outros usos.

Para a pesquisadora e uma das coautoras do artigo, Flávia Costa, não é totalmente novo dizer que a Amazônia há muito tempo já era habitada. Segundo ela, ao olhar para outros estudos se vê que as pessoas usaram e modificaram a Amazônia somente perto dos grandes rios onde era bom para a pesca e pela facilidade de transporte, já nas áreas entre os rios (os chamados interflúvios) eram considerados vazios demográficos.

“Mas o trabalho da pesquisadora Carolina Levis mostra que nesses interflúvios também tinha gente usando e modificando a floresta. De verdade, o impacto da ocupação humana é muito mais espalhado do que se pensava”, disse Flávia, acrescentando que o sudoeste e o leste da Amazônia são as regiões onde concentram a maior abundância e diversidade de espécies domesticadas e, ao mesmo tempo, é onde a maior parte da degradação e desmatamento ocorre atualmente.

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