27 de junho de 2022

Distante da terra natal há mais de quarenta anos, com uma breve visita 23 anos depois da saída, fui fazer uma visita mais alongada. No imaginário da gente está aquela música “Nos Verdes Campos do Meu Lar” onde tudo permanece igual como deixamos, esperando nossa volta. Que engano fabuloso e que surpresa agradável. Afinal, a fila anda. Às vezes devagar, outras, muito depressa.

Quando deixei a região, os agricultores brigavam pela eletrificação rural, tendo alguns até contraído empréstimos para pagar fios e postes e mais tarde doar para a companhia de energia. Mesmo pagando a conta, ainda precisavam de motores a gasolina ou diesel para impulsionar certas máquinas estacionárias. A parelha de bois ainda era obrigatória para puxar arados e carroças.  Neste retorno, encontro as residências urbanas e rurais com energia solar, todo o maquinário com motores elétricos, as vacas servindo para dar leite, mas os bois sendo criados para o abate porque o trator os substituiu na tração. O calçamento da cidade foi substituído ou coberto por asfalto, com sinaleiras florindo os cruzamentos mais movimentados. Também constatei, com certo saudosismo, que os ônibus intermunicipais simplesmente deixaram de existir, porque os moradores preferem usar o carro. A cidade cresceu para os lados e para cima e os moradores vivem melhor.

Na comunidade em que meu pai lecionou, as pessoas guardam histórias que eu mesmo não lembrava mais. Ele tinha sido eleito vereador em Chapecó, com a maioria dos votos obtidos de seus vizinhos, amigos e admiradores de Itapiranga, que ainda era distrito. Para vencer a grande distância de 180 quilômetros até a sede do município, a comunidade sempre disponibilizava o melhor cavalo. Era uma honra para qualquer um ceder um bom animal para tão nobre função. Conhecedores da resistência necessária, não achavam adequado que meu pai usasse a sua montaria comum. Assim, em cada reunião ele ostentava um “veículo” novo, ajaezado de maneira diferente. Nesta viagem solitária de mais de três dias de ida e três de volta, debaixo de intempéries, cavalo e cavaleiro precisavam de grande resistência. As sessões da câmara eram mensais e o cargo não era remunerado. 

Os mais antigos ainda lembram qual foi o cavalo que montou quando trouxe a notícia da emancipação de Itapiranga. Muitas vezes trazia em seus alforjes dinheiro vivo, enviado pela prefeitura de Chapecó para obras no local que representava. Fico comovido ao ver que os compradores de suas terras ainda preservam algumas construções que serviam de depósito, estrebaria e até moradia nos primórdios da comunidade de Ervalzinho. 

A história acontece num momento e é escrita depois, baseada em testemunhos e fragmentos de documentos da época. Constato que ainda existem as primeiras escrituras registradas no Território Federal do Iguaçu que durou de 1938 até 1946 e que deixou poucas marcas na história. Nunca se transformou em Estado da federação porque foi criado atabalhoadamente por políticos do Paraná que não queriam receber ordens de Curitiba e por líderes catarinenses que achavam injusto depender de Florianópolis, tão distante e culturalmente adversa. Outras terras foram adquiridas da British Delopment and Colonization, que era representada pela Volksverein. 

Foi um grande mergulho no passado que, naquele momento, parecia bem presente. As raízes precisam ser regadas de tempos em tempos para que os frutos sempre estejam viçosos. (Luiz Lauschner)

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