11 de agosto de 2022
Prancheta 2@3x (1)

Uma nova anedota no Maracanã

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Quem mandou não substituir quando possível aquele jogador que desperdiçou várias jogadas

Não chegou a ser o Maracanaço de 1950, mas cogite-se que nestes três últimos dias será decretado feriado nacional no Uruguai, incitado pelo secular rancor contra o Brasil, em torno de qualquer contenda, sugerindo, quem sabe, que os hermanos ainda não esqueceram passagens históricas como os eventos da Guerra Cisplatina, ou outros, mesmo quase 200 anos depois. É que ontem, 03/04, o Flamengo derrotou-se por 1×0, ao final do jogo, num autêntico 1º de abril, onde se evidenciou que seus jogadores não foram advertidos do significado mortal que é de jogar contra uruguaios, tamanha era a postura de alguns atuando em meia-sola. É certo que naqueles idos nenhum dos atletas em serviço era nascido, o que não obsta, contudo, de que tivessem notícia daquilo. Que pena rol de erros!

Paciência. Quem mandou não substituir quando possível aquele jogador que desperdiçou várias jogadas, afinal expulso. O que usa a cabeça enfeitada de botafoguense, ou seja cabelo branco e barba preta? Mas, como se viu, mesmo apenas com 10, o time optou por lançar-se ao ataque, cercando o adversário, ao invés de contentar-se com o empate de 0x0, não fosse essa a sua histórica flama em busca da vitória. Mas, não deu…

Acima lembrou-se da Copa do Mundo de 50, realizada no Brasil e que se traduziu numa derrota incrível e dolorosa, perante o maior público numa partida de futebol, contando-se por volta de 220 mil pessoas presentes à decisão, após a realização do Quadrangular Final entre Brasil, Uruguai, Espanha e Suécia, quando então os brasileiros soterraram os suecos por 7 a 1 e os espanhóis, por 6 a 1, ao coro de Tourada de Madrid, entoada pela maioria do público. Já os uruguaios empataram com os suecos por 2 a 2, e venceram os espanhóis num jogo dificílimo, mas classificando-se para a final, partida em que bastaria o empate para o Brasil ser campeão.

O otimismo tupiniquim reforçava-se em face das recentes vitórias sobe o adversário, além de que circulavam notícias sobre o desalento destes, tais como a suposta recomendação do seu médico de que estaria muito bom se não fossem goleados. Não bastasse, no dia da final os jornais estampavam os atletas brasileiros como campeões mundiais, enquanto a torcida já comprara a certeza do título, com isso tirando a concentração dos jogadores. Ou seja, ali nasceu e eternizou-se o famigerado “já ganhou”, de tão desastrosas consequências, como bem se sabe.

Este articulista ora mostra-se em dúvida: Em casos da espécie, o melhor é soterrar as lembranças da desdita, ou mantê-las de pé servindo de lição? Convém fechar os olhos e ouvidos, no adjetivo, para evitar a reedição de um tenebroso fato? Ou, como os avestruzes, enterrar a cabeça no chão quando na pradaria, para não verem a iminência de que vão ser devorados?  Ou é melhor ter em conta: Quem esquecer os seus fracassos, tende a repeti-los? O leitor por favor faça a escolha.

Nesta altura do comentário, ao invés de continuar a colher subsídios, o melhor é partir para a transcrição do que se oferece disponível (Wikipédia). Assim, verbis:

“Ao entrar no gramado do Estádio do Maracanã, naquele 16 de julho de 1950, brasileiros e uruguaios encontraram o maior público já visto para uma partida de futebol: 174 mil pagantes, somados a uma estimativa de 50 mil penetras. Havia entre 200 mil, ou 220 mil pessoas (pouquíssimos uruguaios), ali presentes. Ambos escretes estavam nervosos, alguns, apavorados. Júlio Perez chegou a urinar em seu calção de tão nervoso. Os uruguaios vestem o tradicional uniforme de camiseta celeste e calções e meias negras, enquanto os brasileiros jogam todos de branco. Às 14h e 50 minutos começa a decisão. O Brasil toma a iniciativa do jogo, pressiona. O Uruguai fica na defensiva, mas puxando perigosos contra-ataques. […]”

Bola vai, bola vem, cessa o primeiro tempo, começa o segundo. “Logo aos 2 minutos, Zizinho toca para Friaça na ponta-direita, que nas costas de Andrade, sai na cara do gol. O bandeirinha marca impedimento. O juiz nada marca. Friaça toca à direita de Máspoli. Gol do Brasil, 1 a 0. Bombas e rojões estouram dentro do estádio, que vira um carnaval.

Obdúlio Varela, capitão Uruguaio, prende a bola nos braços e bate boca com Augusto do Brasil, com o árbitro e com o bandeira, alegando impedimento, parando o jogo por 2 minutos, e acalmando seus colegas assustados. Por fim grita a seus colegas "Ahora és hora de vencer!". Recomeça o jogo […]”

“Varela tenta pressionar a arbitragem, apitar o jogo, grita com os companheiros, mais do que nunca ele é "El Negro Jefe". Por fim, aos 21 minutos do segundo tempo, Varela lançou Ghiggia na ponta-direita, o qual venceu o lateral-esquerdo Bigode na corrida e cruzou à meia altura. Juan Alberto Schiaffino, o único gênio do time, tentou emendar de primeira no canto direito de Barbosa. Pegou mal, errou, mas a bola entrou à direita do goleiro brasileiro. Uruguai empata o jogo em 1 a 1.

Eis o momento decisivo do jogo e da Copa: O inesperado empate choca os torcedores brasileiros, que vieram certos de uma vitória, talvez outra goleada. A torcida silencia. 200 mil almas em silêncio, murmúrios baixo, um silêncio ensurdecedor que acaba psicologicamente com o time brasileiro. A Copa acabou ali. Varela grita: "Vamos adelante!" O Uruguai agora domina o jogo, ataca, pressiona pela ponta direita. Bigode faz seguidas faltas. Gambeta, recua errado para Máspoli, manda contra o próprio gol, mas o arqueiro defende. O tempo não passa. O time brasileiro está catatônico. Aos 34, Julio Perez e Ghiggia saem tabelando pela ponta direita em cima de Bigode. Peréz lança então o ponta, que vence Bigode na corrida e sai na cara de Barbosa. O goleiro brasileiro espera novo cruzamento como no primeiro gol e se adianta para cortar. Alcides Ghiggia vê uma brecha entre o goleiro e sua trave esquerda, chuta. Uruguai 2 a 1. Um narrador brasileiro desmaia em sua cabine.

O time brasileiro acorda de sua letargia. Porém está desesperado agora e com 10 minutos para empatar apenas. A torcida enfim volta a apoiar das arquibancadas. Varela, que mandava mais que o técnico, retranca Los Charruas. Aos 38, Jair da Rosa Pinto, marcado por Varela, chuta violentamente. Pra fora. Faltam 5 minutos! Aos 42, o meio campo brasileiro faz excelente troca de passes e toca para Ademir, que desesperado chuta. A bola passa muito longe. O Uruguai tem 10 zagueiros, o Brasil é puro ataque. O Brasil tem sua última chance. Friaça, na ponta toca para Ademir no centro. Ademir, tão apavorado quanto seus colegas. Ademir, dá o chute de sua vida. Pra fora, longe demais. Máspoli, nem tocou na bola após a virada! Às 16h50’ o Árbitro apita o fim do jogo. Gambeta segura a bola. Alguns brasileiros pedem pênalti. Uruguaios ficam loucos: pulam, dão cambalhotas, Varela sai gritando em meio a uma multidão de zumbis aos prantos. Muitos invadem o gramado. Os jogadores brasileiros choram e chorando vão para os vestiários, os repórteres choram também. Na arquibancada pessoas choram, ficam ali no estádio muito tempo, sem saber o que fazer, o que houve. Jules Rimet, presidente da FIFA, entrega a taça a Varela de forma discreta e triste. No Maracanã, os torcedores, mesmo abalados, respeitam e cumprimentam os campeões do mundo de 1950. Ghiggia. Schiaffino. Julio Perez. Máspoli. Obdulio Varela. Heróis da maior conquista do Futebol Uruguaio e da maior derrota do Futebol Brasileiro e Mundial. A mãe de todas as derrotas. O Maracanaço. Uruguai 2, Brasil 1.”

Mal sabíamos que um dia teríamos também um “Mineiraço”! Na Copa de 2014. Lembra? Desculpe, sem comentários, 7×1, no Mineirão. Então, resta preparar os jogadores flamenguistas em todos os aspectos imagináveis em busca da desforra, lá em Montevideo, não se aconselhando que torcedores brasileiros lá deem as caras. Sabe-se que há dois tipos de morte: os naturais, pelo fim esperado da vida e aqueles em que a culpa é inteiramente nossa, caso de comparecendo ao citado jogo. Credo!

* Bosco Jackmonth é advogado de empresas (OAB/AM 436). Contato: [email protected]

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