Não sei se foi um sonho. Ou uma visão. Era noite alta. Perdi o sono pensando na conversa que tivera com meu amigo sobre a existência dos Anjos. Conversa como sempre inacabada. Eu, querendo crer. Ele, duvidando. Finalmente, voltei a dormir. Foi quando aconteceu uma coisa extraordinária. Vi à minha frente uma jovem pessoa. Poderia ser um mancebo. Mas isso não tinha importância. Era uma linda criatura. Parecia um ser andrógino, como os anjos da capela do colégio em que estudei quando criança. Ele não era loiro como geralmente são os anjos, e sim de tez morena e cabelos negros, anelados, à altura dos ombros. Usava uma roupa estranha. Uma espécie de casaco de peles, sem mangas, aberto na frente. Seu corpo se delineava, elegantemente, não mostrando suas vergonhas. De seus ombros saíam penas, dando a impressão de serem asas. Não, não cheguei a ver as asas, mas sabia que elas estavam lá.  

Aproximei-me dele, “Quem é você”?

“Sou um Emissário de Deus”.

“Um Anjo?”   Perguntei franzindo os sobrolhos.

“É”, respondeu-me, “pode chamar-me assim”.

Continuei, “Anjo! E por que não está no Céu ao lado de Deus”

Ele replicou, “Meus colegas e eu estamos em missão na terra. Ordens do Criador”!

Curiosa, arrisquei “Que tipo de missão”?

“Em geral, velar pelas pessoas, para que não caiam no abismo”.

Foi, então, que notei o grupo que se formava ao nosso redor. Todos Anjos, pareceu-me serem. Lindos, jovens, excêntricos, como soe serem os anjos. Todos exibindo com um narcisismo compreensível sua quase nudez pura e bela.

E eu, continuando a conversa, “E quando vocês retornam ao Céu”?

“Bem”, disse ele, “não há pressa. Depende das necessidades dos homens e das mulheres aqui na terra, assim como das tarefas que Deus nos ordenar. O tempo não tem importância lá no Céu. Por ora, devemos ficar um pouco por aqui, para conviver com os humanos deste planeta tão belo e tão castigado. Viver entre eles! Olhando lá do alto, temos uma visão macro do que acontece aqui na terra. Mas, precisamos saber das minúcias. Por que as pessoas se sentem infelizes? Pois Deus quando fez o mundo foi para a felicidade delas. Por que se queixam de falta de amor? Pois Deus ao criar os seres humanos lhes disse, “Amai-vos uns aos outros”. Por que não têm fé? Pois Jesus Cristo, o Filho de Deus, muitas vezes lhes disse, “A fé remove montanhas”. Por que lhes falta a paz? Pois foi o próprio Jesus Cristo quem ensinou ao mundo a saudação, “A paz esteja convosco”. Enfim, temos que relatar tudo a Deus, e Ele decidirá o que fazer”.

Eu, pensativa, “É raro sentir um Anjo tão perto. Poder falar-lhe. Acho até que isso nunca aconteceu”. O Anjo pareceu não reagir, mas senti seu sorriso compreensivo, encorajador. Fiz-lhe, então, uma última pergunta, “Diga-me, como é Deus? Você vê o Altíssimo, fala com Deus, todos os dias?”

O Anjo respondeu, “Deus é onipresente, está em toda parte. Ele é onipotente, tem poder sobre todas as coisas. É onisciente, conhece todas as coisas. Assim, sempre que precisarmos falar com Deus, Ele tem o poder de nos ouvir de onde quer que estejamos. Ele tem o poder até de conhecer nossos pensamentos”.  

“De qualquer maneira, retorqui, eu gostaria de pedir-lhe que seja o emissário de uma mensagem minha para Deus. Sei que, de acordo com o que você disse, não faria nenhuma diferença, pois Deus atenderia minha mensagem com a mesma presteza.

“E qual seria a mensagem?”

Eu gostaria de pedir a Deus, que do alto de sua onisciência, onipotência, onipresença, que passasse aos terráqueos luzes para que conseguissem uma vacina que erradicasse uma doença terrível que chegou ao planeta terra e está implantando o terror. Adoecem pessoas aos milhões e falecem aos milhares. Isso, no planeta inteiro. Nunca se viu algo parecido na terra desde a Idade Média. O perigo de contágio está latente, no ar. E as pessoas em seu comodismo, egoísmo, relutam em usar máscara para proteger seus interlocutores. Isso, de alto a baixo. Desde os cidadãos comuns aos dirigentes de nações.

O famoso isolamento ou quarentena, ou seja, ficar em casa o mais possível para evitar contágio foi visto como uma terrível punição. Raros foram aqueles que aproveitarem desse “tempo morto” para atualizar sua leitura, Como eu que aproveitei para ler Ulisses de James Joyce no original, obra bastante indigesta que já começara N vezes abandonando-a pelo caminho. Perdoe-me, Senhor, se estou cometendo o pecado do orgulho. Os terráqueos clamam por uma solução para a pandemia que chegou ao planeta, instalou-se e quando se pensou que tinha concluído seu estágio devastador, começou-se a falar em uma segunda onda. Sentindo que será extremamente difícil encarar uma segunda volta da pandemia, nós vos suplicamos, Senhor, que afasteis de nós esse cálice.”   

Meu Anjo respondeu, “Eu não vou lhe prometer que isso vá se realizar, rapidamente. O tempo da terra é diferente do tempo do Céu. E a natureza humana guiada pelo livre arbítrio. Foi assim que Deus a fez. Mas vou tentar”. Fazendo uma pausa, ele acrescentou, “E para si, o que deseja”? Respondi, “Para mim basta ter meu Anjo da Guarda perto de mim protegendo-me dos perigos. E, se a pandemia voltar, que ele me dê asas para voar bem alto até alcançar a imensidão do infinito…”  

O Anjo esboçou um sorriso enigmático, tranquilo. Como o Anjo Sorridente da magnífica catedral gótica de Reims, na região de Champagne, na França. “Mas, você pode voar quando quiser, pode fazer viagens fantásticas. Basta ter fé. E acreditar que sempre haverá um Anjo ao seu lado…”, disse ele, gentilmente, afastando-se devagar…

Duvidei que tivesse sido um sonho. Tudo me pareceu tão real! Algo me dizia que aquele ser formoso, cheio de doçura era o meu Anjo da Guarda. Que mesmo tendo partido, continuava junto a mim. Rolei um pouco na cama, desejando manter aquela sensação de conforto, de paz. Então, senti um vento suave soprar em meus cabelos, em meus olhos que se fecharam como quando eu era criança e adormecia ouvindo minha Madrinha contar a história do mercador que passava todas as noites espalhando areia…

Acordei com o dia claro e a voz de meu amigo, mesclada de ternura e suave ironia. “Ontem, conversaste em sonho. Falavas com uma pessoa sobre o teu desejo de voar bem alto. Era o teu Anjo da Guarda por acaso”? Respondi com um sorriso maroto, certa de que meu Anjo piscava para mim em cumplicidade…

Marluce Portugaels é Professra [email protected]

Qual sua opinião? Deixe seu comentário

Gostou do Conteúdo? Assine nossa Newsletter

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram
WhatsApp
Email

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email