Um olhar e fazer feminino das mães

Falta olhar feminino nos governos federal, do Amazonas e de Manaus. Menos testosterona de homens, mais carinho e sentimentos maternos.

Conversava outro dia com meu vizinho, dono da panificadora, e ele me falava que seu irmão, com sintomas do covid-19, havia fugido do hospital com medo de morrer.

E ainda tem gente que debocha, preferindo “morrer transando do que tossindo”.

A realidade de nossos hospitais em Manaus, que deveriam ser nosso porto seguro, nos dá medo.  Independente da incapacidade e subnotificação dos casos públicos, as covas coletivas, que vimos em Nova Iorque, estão sendo abertas aqui, diuturnamente. Para piorar, não conseguem confortar as famílias enlutadas diante do colapso previsível do sistema de saúde.

Infelizmente, nossos irmãos e irmãs manauaras já estão morrendo em casa.

Se o distanciamento social não está sendo respeitado, nossas autoridades municipal, estadual e federal parecem mais preocupadas com o oportunismo do pedido de impeachment e das próximas eleições municipais e de 2022 do que com nosso objetivo maior: salvar vidas e vencermos, juntos, a pandemia.

O silêncio da prefeitura municipal, neste momento, chega a molestar.

Caberia à Prefeitura a ordenação maior da cidade e seus cidadãos. Caberia ao prefeito a liderança das discussões do funcionamento e dinâmica da cidade, do pedido mais forte de ajuda ao Governo Federal, afinal, ele administra uma capital-estado.

Chorar não é suficiente e ser arrogante, como seu colega tucano de SP, nos passa a sensação de que, de fato, “nossos heróis morreram de overdose”.

Quando vejo as propagandas vigentes, de milhões de Reais de nosso pobre orçamento público, parecem muito mais prestações de contas institucionais do que orientações quanto à gravidade e letalidade do momento.

Com muita luta, o Brasil, com todas as suas dificuldades ideológicas no poder, conseguiu empurrar o pico da pandemia para o mês dedicado ao trabalho e as mães.

Desde o começo das discussões sobre como enfrentar os desafios econômicos e de saúde, o trabalho, ou a perda dele, foi e é o dilema de nossos representantes políticos.

O Executivo, a quem caberia o protagonismo do momento – com boas exceções, na região Norte, o governador do Acre, no Sudeste, o governador de Minas Gerais -, resiste a atrapalhar mais do que contribuir (afinal, ser egocêntrico e/ou caudilho são características dos que, em missão, não cuidam, ou precisam do espelho, ou de uma lente da câmera para sua satisfação pessoal em detrimento do coletivo).

Se o trabalho é nosso desafio secular, melhor se inspirar no olhar e fazer feminino das mães que nos geram, criam, perdoam, se emocionam e doam suas vidas por nós, sem nada receber, dispostas a se contentar com o sorriso, a saúde e felicidade de seus filhos.

Pródigas são nações como Alemanha, Nova Zelândia, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Islândia, que têm mulheres cuidando e liderando a guerra contra a pandemia.

O Reino Unido teve que viver a doença e sua fatalidade para entender que o brexit não é, e nunca será, uma saída. Precisamos e precisaremos sempre da solidariedade materna entre nações, entre estados e municípios.

Antes do dilúvio, alguns bebiam, dançavam e viviam despreocupados; outros, como Noé, construíam seus sistemas de saúde, educavam suas famílias e acabaram tendo uma arca para navegar em tempos de mar revolto.

Se a presença do vice-presidente em Manaus, colocando na mesma mesa, governador do Amazonas e prefeito municipal, não foi capaz de demonstrar o comportamento parasita de nossos representantes locais, não serão caixões importados que farão a diferença nos momentos de tristeza da batalha perdida da guerra.

Como o diálogo do pai e do filho, abrigados no ginásio, no filme Parasita: “KI-woo, você sabe que tipo de plano nunca falha? […]. Nenhum plano consegue. […]. Se você faz um plano, a vida nunca funciona como você espera, e é por isso que as pessoas não devem fazer planos. Sem plano, nada pode dar errado”.

Se eu fosse o prefeito de Manaus, o governador do Amazonas, ou o presidente da República, reuniria a imprensa para uma coletiva e pediria perdão pela minha postura parasita.

No meu pedido de desculpas, demonstraria aos meus filhos que tenho de cuidar deles – nas ruas, insistindo para que usem máscaras, além de respeitarem um distanciamento físico necessário de outros semelhantes… e imploraria: fiquem em casa, pelo amor de Deus e de suas/nossas vidas… infelizmente fui incapaz de prevenir, e, agora, não tenho mais como remediar.

*Daniel Borges Nava é Geólogo, Analista Ambiental e Professor Doutor em Ciências Ambientais e Sustentabilidade na Amazônia.

Fonte: Daniel Nava

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