Um mundo virtual que é uma brasa, mora

Desde o aparecimento – para nós simples mortais – da internet na década de  90 muita coisa começou a mudar em nossa vida. Termos como descontinuidade,  ruptura, upgrade, versões que se escalavam em crescimento contínuo, da versão  Beta as intermináveis x.0, 1, 2, 3, 4, 5… E assim fomos evoluindo e ampliando seu  uso. O digital substituindo aos poucos o analógico. Para as novas gerações já é  esquisito pensar num jornal impresso com clichês de chumbo e aquele monte de  letrinhas de ferro juntadas em máquinas enormes e super barulhentas. Na sequência veio o Off-Set utilizando filmes, fotolito, e chapas de latão ou alumínio  melhorando a qualidade e permitindo um avanço que os computadores logo  alcançaram. As colunas de texto eram impressas ou fotocopiadas para depois  serem cortadas, coladas numa folha de arte no formato do produto que ia ser  impresso: o paste-up. Colávamos as colunas de texto, os desenhos e as fotos  reticuladas nos espaços definidos para elas na arte final. Aí eram fotografadas,  passavam para uma chapa de metal por processo químico e iam ser impressas no  papel. Pranchetas, canetas de nanquim, réguas, esquadros, compassos, colas.  Parece conversa de maluco hoje, mas era assim na mesma década de 90, quando  já experimentávamos os primeiros computadores pessoais e uma internet de linha  discada que tinha a velocidade de uma lesma com câimbra. E ficava aquele apitinho  rouco piiiii póóóó intermitente mostrando que o arquivo estava passando de um lado  ao outro. O termo World Wide Web tinha chegado e abriu nossa mente. Imaginando  que tipo de telefonia era essa que agora passava um arquivo texto, uma imagem, e  até voz, só que agora digitalizada? Onde iríamos parar? Coisa de doido e a gente  louco pra usar.  

Em apenas trinta e poucos anos a mudança foi brutal. Assisti a muitos  profissionais irem aos poucos sendo desvalorizados até perderem suas funções e  até empregos. Sem conseguir, ou querer, migrar para a nova tecnologia. Fotógrafos,  cinegrafistas foram os próximos. Muita gente não aceitava ou duvidava que os tais  de pixels iriam ter mais qualidade que o seu filme de celulóide. Demorou um pouco  mas os pixels chegaram lá. 

O conceito da Resiliência também começou a aparecer bastante na mesma  época, afinal era preciso ser resiliente para poder tocar a vida pra frente com tanta  mudança. 

Da WWW ao NFT passando pelo Blockchain e dá-lhe carbono Com a criação do sistema Blockchain, nova tecnologia onde blocos de dados  ligados como uma corrente proporcionam muita segurança em plataformas que  evitam fraudes, surgem as moedas digitais. Apesar de nossa grana já estar de  alguma forma virtualizada, aparecendo mais em números nos extratos do que em  cédulas nos nossos bolsos, a moeda digital é ainda um universo meio nebuloso  para a maioria das pessoas. Mas está aí, já tem bolsas especializadas e muitas  moedas além do Bitcoin. E agora apareceram as NFT, (Non Fungible Tokens),  Tokens não Fungíveis na tradução literal. E quem lembra o que é fungível? Vem do  Latin “fungibile” e como adjetivo significa: Que se gasta, Que se consome com o primeiro uso. Juridicamente é usado como bens fungíveis, aqueles bens que são  substituíveis por outros da mesma espécie, qualidade e quantidade. Assim as NFTs  começam a criar sua história. Uma imagem digital, uma colagem, foi vendida como  a primeira obra arte NFT, com um token insubstituível que garante sua  autenticidade, pela bagatela de US$ 70 milhões, o que dá mais de 350 milhões de  reais. Parece meio irreal mas é fato. Tem gente comprando um tweet de outra  pessoa e pagando quinhentos dólares ou mais desde o lançamento do Valuables lançado pelo Tweeter. O Valuables utiliza uma plataforma descentralizada com  tecnologia blockchain, a Ethereum, para executar esses contratos inteligentes.  

O mercado vê com tranquilidade a negociação de bens tangíveis: um imóvel,  um carro, um cachorro-quente; já os fungíveis virtuais estão começando sua estrada  nas nossas vidas. É interessante se aprofundar um pouco mais nesse negócio e  perceber que alguém que compra um item desse, que vai estar apenas lá alocado  numa plataforma protegida e segura e que ele tem a posse desse endereço, o  valoriza, tem interesse pela coisa. É como se fosse uma peça de colecionador, uma  figurinha do Garrincha do álbum da copa de 58, uma bonequinha Barbie da primeira  edição do brinquedo, alguma coisa parecida que às vezes fica lá guardada num  canto por anos. Ele não tem o direito da imagem, não pode reproduzi-la, mas pode  possuí-la. Os NFTs, ou colecionáveis digitáveis cunhados em um Blockchain, além  do mundo das artes já atingiram os esportes, a NBA lançou rolos de destaque  digital, como se fossem as figurinhas antigas de álbum, que já renderam algo como  230 milhões de dólares em venda. Existem muitas pessoas que acreditam que vale  a pena comprar um NFT, mesmo sabendo que é simplesmente uma cópia  autorizada e que muitas vezes a mesma imagem pode ser vista gratuitamente  online por todos. Como se fosse uma figurinha carimbada dos álbuns analógicos.  

É bom lembrar que este universo apesar de virtual gasta muita energia,  consome muito carbono. Uma moeda como o bitcoin consome demais para estar  online 24 horas por dia usando inúmeras máquinas e plataformas. Quanto mais ele  se valoriza mais energia gasta-se pra produzi-lo, garimpá-lo como dizem, e para  mantê-lo. A rede de Bitcoins utiliza hoje mais energia que a Suécia por exemplo. A  China que é responsável por 65% de toda mineração de bitcoins utiliza ainda carvão  como matriz energética, altamente poluente. Mais um grande desafio para a  coleção, nada virtual, de ecologistas e defensores do controle do aquecimento  Global. 

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