Um manifesto em forma de dança

Em “A Projetista”, Dudude Hermann questiona o papel do artista na ‘era dos projetos’

Geísa Fröhlich*
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Qual o verdadeiro papel do artista senão a própria arte? E como fazer arte num momento em que a cultura se transformou em ‘um bom negócio’? Com 47 anos de experiências no mundo da dança, Dudude Hermann questiona e ‘provoca’ o público, com o espetáculo “A Projetista”, apresentado na tarde da última terça-feira (29), no 9° Seminário de Dança, como parte da programação do 33° Festival de Dança de Joinville.
Em “A Projetista”, Dudude utiliza o teatro, a dança, mas principalmente um diálogo que incita os novos artistas a pensar além da ‘era dos projetos’. No palco, a artista, projeta no espaço (que se completam com um cenário formado por uma mesa, muitos papéis e livros que servem de pesquisa para a construção da obra) a vontade e as ideias que brotam numa mente inquieta. No enredo, a intérprete conversa com o público sobre seu próximo trabalho artístico, na vontade de mostrar a arte pela arte, mas se depara com este sistema contemporâneo que mobilizou, desde 1990, a geração criadora a mudar a postura frente ao mercado da dança e das artes –e a lidar com editais, mecanismos vigentes de viabilização para a construção dos espetáculos, e tornando-se reféns do sistema.
“Cadê a alma deste mundo? Onde está a vontade do artista em ir além do papel e das regras impostas por este novo sistema? O artista não estudou para fazer projeto”, revela a artista em entrevista para o Jornal do Commercio.
Com doses de humor, “A Projetista” transita rapidamente para a emoção, e nos faz pensar: “pra que serve a arte, afinal”? “O artista precisa se mexer! Existem, sim, outras possibilidades. Tem sempre uma fresta pra gente adentrar”, desabafa a artista.
Neste ‘desabafo’, quase um manifesto, Dudude analisa cada elemento de um projeto: seus objetivos, justificativa, experiências adquiridas (aquelas exigências que todo projeto obriga, o artista a fazer) –oscilando entre a fala e o que realmente interessa: o movimento, a obra e “a força para continuar existindo”, completa.
Em “Walden ou A Vida nos Bosques”, de Henry David Thoreau -uma das obras que compõe o cenário (Dudude usa livros que a inspiram, e os lê diante da plateia) -ela se utiliza de frases para nos fazer refletir: “Nossa visão não penetra a superfície das coisas. Pensamos que é o que aparenta ser”. A obra que inspirou Gandhi é considerada, uma declaração de independência pessoal, e um manual para a autossuficiência.
“Não podemos apenas suprir as demandas e nos tornarmos reféns disto tudo. E aquele artista inserido no campo da curiosidade e da descoberta? Minha cabeça é mãos e pés (outra citação de “Walden”). O artista é um nada, cheio de coisas”. Acredito que o que falta para muitos irem além, é mais paixão. Falta urgência nesta nova geração”, critica.
Dudude conta que abandonou sua companhia de dança, a Bem Vinda Cia de Dança e seu estúdio de dança –e resolveu apostar em um formato mais livre de trabalho. Hoje, quem faz cultura, precisa estar aberto para esta nova realidade, claro. Mas não podemos achar que esta é a única saída. Afinal, o artista tem que se mexer. Depois de muitos anos, fui aprovada para o edital Klauss Viana. Maravilha! Mas a ideia hoje é criar e depois vender” , comenta.
Na cena final os papéis que fazem parte do cenário são espalhados pelo espaço, numa performance emocionante. Os mesmos papéis são usados desde o início do espetáculo (2011). No final tudo é recolhido para a próxima apresentação. “É minha libertação, é a vontade pulsante de uma mente e corpo inquietos, uma ode à sensibilidade e a esperança de ser e fazer arte, simplesmente pela arte!”.

*A jornalista viajou a convite da organização do evento.

Por Dentro

“A Projetista estreou no Festival 1,2 na Dança em Belo Horizonte, em setembro de 2011, e participou de festivais por várias capitais brasileiras. A concepção é da própria Dudude Hermann e a direção de Cristiane Paoli Quito. O espetáculo foi apresentado em Manaus, no Festival Mova-se, em 2014.
Dudude é fundadora da Bem Vinda Cia de Dança. Atualmente ministra oficinas por todo país, dança, interpreta, escreve e faz a direção de seus trabalhos. Para assistir um trecho da obra, ela está disponível no YouTube. Para conhecer mais sobre a artista acesse: www.dudude.com.br/; coisasdedudude.blogspot.com ou no facebook.
A 33ª edição do Festival de Dança de Joinville encerra neste sábado (1° de agosto), com uma programação que apresenta diversas modalidades, gêneros e artistas de todo país. Os leitores do JC poderão conferir o balanço completo do Festival, nas próximas edições do Estilo de Vida.

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