Um homem que viveu além do seu tempo

A sociedade amazonense atual, que não teve o prazer de conhecer um dos maiores empreendedores da Amazônia, não tem a menor ideia da perda para a nossa região, com a morte do amazonense Nathaniel Lemos Xavier de Albuquerque.
Homem de invejável cultura, notável inteligência e intuição fora de série para criar e inovar as mais diversas atividades humanas, o senhor Nathan, como gostava que o tratassem, trouxe para o Amazonas tudo o que se criou em matéria de comércio e indústria nas décadas de 1950, 1960, 1970 e 1980. A começar pelas lojas de departamentos, com uma cadeia de dezenas de unidades abertas nos mais diversos locais de Manaus, invadindo o interior, o Grupo Moto-Importadora Ltda. sua criação, tornou-se responsável pela venda de todos os tipos de mercadorias de consumo do povo, dando início em Manaus, ao sistema de crediário, com vendas por meio de duplicatas e outros documentos de crédito.
Criou empresas como uma fábrica de gelo cristal no meio do rio Negro, deu início ao sistema de recauchutagem de pneus, com a Hevea da Amazônia Ltda., adquiriu por compra a Fábrica de Guanará Baré, tornando o produto um dos mais saborosos na espécie, ingressou na comercialização de veículos, e fundou a Moto Honda da Amazônia Ltda. hoje, a maior indústria do Polo Industrial de Manaus. Trouxe o Novotel para Manaus, hoje o hotel que mais recebe ocupação de visitantes e empresários.
Os amazonenses devem ao empresário Nathan, uma parte importante da Zona Franca de Manaus, que com sua inteligência e prestígio trouxe a Manaus, grandes figuras importantes do governo. Ele chegava a ser consultado por vários governadores amazonenses, a fim de opinar sobre textos de algumas leis criadas para o comércio e sempre era ouvido. Foi ele o responsável pela chegada em Manaus, de empresas como a Sharp do Brasil, Semp Toshiba, Beta S. A., algumas fábricas de relógios, cerveja antártica, e outras. Quando em Manaus não havia cimento para atender a demanda das construções que mobilizavam a Zona Franca, foi o empresário Nathan que trouxe da Venezuela, o cimento necessário para atender a grande demanda de Manaus. O interior do Estado foi acentuadamente beneficiado pelos motores marítimos que a Moto-Importadora importava e fazia a entrega em domicílio para os caboclos do interior de todo o Amazonas. Atuando com os incentivos da Zona Franca de Manaus foi um dos mais importantes importadores de eletro eletrônicos, relógios de todas as marcas e produtos da melhor qualidade para atender turistas.
Sua vida perdeu o sentido, quando o filho primogênito Nathaniel Lemos Xavier de Albuquerque Filho foi vitimado num trágico acidente de trânsito, que o matou, quando o mesmo se preparava para assumir a direção da Moto-Honda da Amazônia.
A Moto-Honda era em verdade, um sonho do senhor Nathan, pois o mesmo sabia todas as peças que eram necessárias para fabricar uma moto, quando inaugurou sua fábrica. Era um exímio motociclista, desde muito jovem, com a sua Harley-Davidson.
Depois do desaparecimento do filho e por motivos de concorrência desleal, incompreensão de alguns órgãos de fiscalização que perseguiam as lojas da Moto-Importadora, deixando o austero empresário da Zona Franca de Manaus constantemente irritado, o senhor Nathan decidiu vender quase tudo que havia construído no Amazonas e transferir seu domicílio para o Rio de Janeiro, onde passou a fazer empreendimentos imobiliários e financeiros. Chegou ser eleito pela revista Exame, na década de 1980, como um dos sessenta cidadãos brasileiros, entre os mais ricos.
Sua esposa Munditha Xavier de Albuquerque havia morrido há quase 60 dias antes de sua morte, que ocorreu no dia 31 de dezembro de 2012, com 90 anos de idade. A morte da querida mulher que o acompanhava em todas as suas empreitadas, na alegria e na tristeza, causou uma profunda tristeza ao marido, que vivia triste e sem ânimo para continuar sua luta diária. Trabalhou até à véspera de sua morte, no seu belo escritório localizado na rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, onde dava expediente diário.
Nathan Albuquerque exercia atividade agropecuária no interior do Estado do Amazonas, mantendo criação de gado no município de Iranduba, produzindo leite, manteiga e queijo, durante muitos anos. Era um homem amante do interior do Estado, chegando a escrever livros contando causos dos caboclos, de pescadores (era muito habilidoso com o anzol, pois gostava muito de pescar) e era estimado por todos que com ele conviviam.
Homem extremamente reservado, não era afeito a homenagens, não aceitava diplomas de honra, nem participava de festividades em que fosse centro das atenções. Escreveu vários livros, além dos dois que redigiu para homenagear o filho Nathaniel, mas não os lançava. Enviava alguns exemplares, a maioria encadernados, para amigos mais íntimos. Tenho o privilégio de possuir todos ou quase todos em minha biblioteca. Da mesma forma, em sua biblioteca existe quase uma centena de livros de minha lavra, pois sempre foi um dos primeiros amigos a receber um exemplar de tudo o que eu escrevia. E sempre respondia agradecendo e fazendo seus comentários de homem de muita intelectualidade.
Depois da morte do filho ele se aproximou do médium Chico Xavier, porque se sentia aliviado na sua angústia, afirmando que se comunicava com o filho, por meio do famoso espírita.
Para viajar ao interior do Estado, cuidando de alguns negócios, ele mandou construir uma confortável lancha, dentro da qual existia um verdadeiro escritório modelo, de onde num misto de passeio, costumava trabalhar e atualizar informações através do Centro de Computação montado a bordo da mesma. Era assim o grande empresário. Nunca desperdiçava tempo, nem mesmo quando o tempo em alguns momentos não tinha para ele a menor importância. Era um exemplo de vida, de trabalho, um amigo que do alto de sua riqueza, não esnobava, não se ufanava e sua modéstia era maior do que sua fortuna. Depois que adoeceu de forma mais grave, escreveu algumas vezes para mim e dizia que se sentia um indigente do INSS numa fila, à espera da morte, apesar de tudo o que conseguiu ganhar e conquistar. Vivia dentro de uma filosofia de muita realidade, como deve viver todo ser humano.
Fiz-lhe uma carta no dia 23 de dezembro de 2012, uma semana antes de sua morte. Era uma carta em que eu agradecia tudo o que aprendi com sua amizade e trabalhando para suas empresas durante mais de um decênio. Foi uma carta em que eu enaltecia o seu exemplo, pois eu já pressentia o pior, pelo agravamento de sua saúde, mesmo estando o senhor Nathan trabalhando até o dia de sua morte. A sua resposta veio no dia 28, três dias antes do seu passamento, escrita com muita comoção, em que no final se dizia um defunto assinando a mesma. Ao ler, com lágrimas nos olhos, percebi que estava perdendo um de meus melhores amigos e um verdadeiro pai pelo que sentia de sua estima. E essa tristeza se confirmou no último dia do ano de 2012, ou seja, exatamente 7 dias após ele receber minha carta.
Quando falávamos ao telefone, ele repetia sempre que gostava de meus telefonemas, porque eu jamais falava com ele sobre doença, e por isso ele tinha prazer em me atender e algumas vezes me perguntava: por que eu teimava em me lembrar de alguém que estava no final da existência. E eu sempre respondia: porque eu não poderia me esquecer de tanta coisa que ele me ensinou na vida, e que eu devia parte de minha formação profissional a isso.
Os assuntos tratados quando eu o telefonava, versavam sobre o comércio de Manaus, atuação da ACA, FIEAM, FECOMÉRCIO, FAEA, política e sociedade e jamais sobre a sua saúde. Em verdade, não se fala em doença para quem tem uma enfermidade grave, e nem se comenta a tristeza para quem já não sente vontade de rir. Foi assim que o contatei até o último dia de sua vida.
Trabalhei e aprendi muito com o senhor Nathan, na década de 1960, 1970, tendo sido o responsável pela implantação do ICMS quando foi lançado em Manaus, percorrendo as suas 25 lojas na época, orientando funcionários e gerentes, com o meu trabalho de advogado tributarista. Fiz uma amizade tão profunda com o empresário Nathan, que jamais deixei de visitá-lo quando viajava para o Rio de Janeiro, e num período de mais de 20 anos, conseguimos manter uma correspondência que só expirou no dia 28 de dezembro de 2012, quando Nathan redigiu sua última carta a mim dirigida, o que é sem dúvida um prenúncio de morte, onde o grande amigo se despedia, ao dizer no final que era muito mais um defunto assinando uma carta, do que um empresário que tanto criou no Amazonas.
A Nota sobre o seu falecimento no jornal A CRÍTICA de 3 de janeiro de 2013, foi redigida por mim, em contato com o senhor José Roberto Tadros, outro grande amigo de Nathan e meu, que ao tomar conhecimento do triste evento colocou a FECOMÉRCIO para agilizar a nota, com as demais entidades classistas.
Tenho guardadas em meus arquivos, centenas de cartas do Sr. Nathan, que representam um relicário de sabedoria e intelectualidade, com uma linguagem correta e invejável, de um homem que foi um dos mais sábios amazonenses que viveu, venceu, foi feliz e sofreu na região mais ingrata de se viver e ser reconhecido.

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