Um exercício planetário de resiliência (Parte 1)

Há tempo de nascer, e tempo de morrer […]”, palavras atribuídas ao Rei Salomão, transcritas do livro de Eclesiastes (3:2), Velho Testamento da Bíblia Sagrada.

No momento em que passamos de 160 mil vítimas brasileiras da Covid-19, trago algumas reflexões do Prof. Dr. Kenneth Pargment, psicólogo clinico, professor emérito de psicologia na Universidade Estadual de Bowling Green (Ohio, EUA), assistidas em sua videoconferência ocorrida no último dia 20 de outubro de 2020, no Fórum Mundial Espírito e Ciência, da LBV. A edição deste ano do Fórum comemorou 20 anos de trabalho e trouxe por tema “Ciência e Fé promovendo Esperança para vencer a pandemia do novo coronavírus”.

O palestrante iniciou sua fala lembrando o nosso costume comum ao encontrar alguém, onde se pergunta: “como vai você? ” A resposta natural seria: “bem, e você? ”

Hoje, diante da pandemia, o especialista reproduz algumas respostas que tem ouvido: “sinto que estou enlouquecendo ficando de casa”; “não sei o que fazer, eu tenho que trabalhar, mas, não quero mandar meus filhos de volta à escola”; “minha mãe testou positivo para covid”; “estou com raiva do meu governo”…

Assim, ressalta o pesquisador, a Covid-19 nos ameaça e nos vem prejudicando de diversas maneiras: temos medo de contrair o vírus; preocupamo-nos com o bem-estar de nossos familiares; vivemos insegurança profissional e financeira, atual e futura; nos sentimos isolados e desconectados socialmente; temos tido dificuldade de acesso à saúde; temos vivenciado muitas outras perdas, conflitos inadmissíveis, iniquidade e racismo sistêmicos.

Tais ameaças foram percebidas em uma pesquisa realizada entre profissionais de saúde nos EUA, em março de 2020: 90% estavam preocupados com a falta de Equipamentos de Proteção Individual – EPI; 87% temem que as pessoas não tenham acesso a cuidados médicos; e 70% se preocupavam com o risco de pegar o vírus no trabalho.

De certo, reforça o Dr. Pargment, além de mais de 3 milhões de mortes no mundo, muitas pessoas tornaram-se “long haulers”, em função das sequelas e complicações cardíacas, pulmonares, neurológicas e na saúde mental.

Na saúde mental das pessoas, o professor Pargment citou outra pesquisa efetuada entre norte-americanos, em julho de 2020, onde: 53% acreditavam que o vírus afetou negativamente sua saúde mental; 60% esperam que o pior ainda esteja por vir; e 40% da população relataram sintomas de ansiedade e transtornos depressivos. Para o especialista, tais conflitos continuarão a se manifestar por anos, na forma de vícios de longo prazo, ideação suicida, conflitos político-sociais, violência doméstica, entre outros problemas…

E por que o coronavírus tem tanto poder?

“A Covid-19 nos abalou profundamente, afetando nossos níveis mais profundos. Ela nos confronta com preocupações e medos existenciais”, responde o especialista, pontuando: “nos confronta com a realidade da morte; com a liberdade, especialmente, àquela de fazer escolhas difíceis e as responsabilidades que isso acarreta; com as questões de isolamento – quanto conectados, ou isolados estamos do mundo -, se vivemos em um universo que, basicamente, é indiferente a nós; e, nos ampliando os medos advindos da falta de um propósito de vida”.

E como temos lidado com a pandemia?

O psicólogo clínico diagnostica que para afastar essas preocupações, muitas pessoas utilizam-se de estratégias: “há aquelas que negam que a Covid-19 seja uma ameaça significante à saúde; outras, a chamam de fraude; temos pessoas que pensam em soluções mágicas achando que, como um passe de mágica, a pandemia desaparecerá… seria bom que isso fosse verdade, mas, é mágica;  temos líderes religiosos de todas as tradições defendendo um deferimento religioso de controle da Covid-19 nas mãos de Deus; há aqueles que buscam culpar terceiros,  se recusando a assumir a responsabilidade por ações que possam reduzir o impacto da pandemia”, citando um grupo nos EUA que rotulou o coronavírus como “vírus da China”, acreditando que ele foi cultivado e espalhado por um laboratório chinês…

“Ao focar a responsabilidade pela doença nas outras pessoas, a culpa pode ser transferida, assim como a responsabilidade de promovermos mudanças em nós mesmos”, conclui Pargment. Contudo, replica o professor: “tais mecanismos de defesa não serão totalmente eficazes – não importa o quanto tentamos evitar -, a Covid-19 é insistente e as pessoas, provavelmente, irão se deparar com a realidade de contrair o vírus, incluindo familiares, amigos e elas próprias”.

É bom saber que diante de um quadro sombrio e desafiante, o palestrante prescreveu recomendações à nossa resiliência que requererão uma entrega pessoal, individual, solidária à busca do reestabelecimento do espírito humano. (Continua)

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