12 de maio de 2021

‘Ufam precisa resgatar seu protagonismo’ diz Marco Mendonça

Candidato à reitoria da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), o professor Marco Antônio Mendonça ressalta que a instituição precisa resgatar o seu protagonismo como um vetor importante de ensino de excelência, aliado a uma participação efetiva  na produção de conhecimentos, pesquisas, que atendam às necessidades de um mercado cada vez mais competitivo na região.

Mendonça avalia que, hoje, a Ufam está engessada com o excesso de burocratização. E não tem praticamente nenhuma visibilidade ‘trancafiada’ em seus muros.  Os projetos não andam, a comunidade acadêmica tem que enfrentar diretrizes tão anacrônicas que impedem qualquer mobilização para a universidade cumprir o seu principal papel social – promover o desenvolvimento econômico, contribuir para uma sociedade mais justa, igualitária, abrindo caminhos com novas ferramentas tecnológicas que melhorem a qualidade de vida da população.

Graduado em agronomia e com mestrado em ciências de florestas tropicais pelo Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Marco Mendonça é candidato a reitor pela Chapa 21 Ufam+, ao lado do professor Raimundo Ribeiro Passos. E enfrentará concorrentes de peso na disputa como o professor Sylvio Puga, ex-reitor da universidade, e a professor Andrea Wichman, uma defensora ferrenha da proposta de “trazer a Ufam para o século 21”.

Marco Mendonça também é diretor da FCA (Faculdade de Ciências Agrárias) e professor associado da universidade, ministrando as disciplinas topografia e topografia agrícola. E colabora, ainda, com o Inpa na área de ciências agrárias com ênfase em organização social para a produção.

Além do resgate do protagonismo da Ufam, Marco Mendonça defende uma universidade focada em ações  de sustentabilidade, mais democrática e humanizada, do ponto de vista econômico, social e na interlocução com a comunidade acadêmica nos seis campi da universidade – o de Manaus e nos cinco do interior do Estado.

“A Ufam parou no tempo, já não tem a mesma importância de antes, quando se empenhava na promoção de mudanças de que a sociedade precisa. Deve ser mais democrática, mais humana, contribuindo constantemente para ações de pesquisa e extensão que disponibilizem novas ferramentas tecnológicas para o desenvolvimento dessa região tão vasta que é o Amazonas, enfim, toda a Amazônia”, salienta Mendonça. “Está engessada, hoje, com tanta burocracia”, acrescenta.

Segundo Mendonça, a Ufam deve estar preparada para dar a contrapartida à indústria 4.0, uma nova tecnologia que exigirá um pessoal mais qualificado, atendendo às demandas do parque industrial de Manaus.

Para ele, o setor primário também é um vetor importante de desenvolvimento. E questiona os críticos de que a exploração da floresta, dos recursos naturais, só contribui para um processo de ‘desertificação’ da região.

“Temos hoje muitos recursos tecnológicos que podem promover o desenvolvimento mantendo a intocabilidade das florestas, com manejos florestais, pensando nos eixos primordiais – economia, sustentabilidade, geração de emprego, renda, e numa sociedade mais humanizada”, defende.

O professor falou com exclusividade ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – Quem é Marco Mendonça e qual a sua principal proposta para a reitoria da Ufam?

Marco Antônio Mendonça – Fui aluno de agronomia, formei em 1991, ingressando na docência da universidade em 2002. Tive um relacionamento muito profícuo com toda a comunidade universitária. Além da função acadêmica, a gente vive a Ufam, temos uma paixão pela universidade.

Quanto mais a gente vai se envolvendo com ela, vemos o quanto a Ufam é importante, principalmente às pessoas que lá vivem, e coabitam. A Ufam não pode parar, ter que ser mais eficiente, mais humana e mais democrática. Nesse momento, a necessidade é primordial é desburocratizar. A universidade está muito engessada, com excesso de resoluções, portarias, diretrizes, fazendo com que as ações não avancem. 

Então, de início pretendemos juntar um grupo para rediscutir resoluções e chegar à desburocratização que defendemos. Tem que atender à   demanda de nossa comunidade. Nessas condições de pandemia, hoje é inviável qualquer tipo de ação presencial. Mas precisamos retomar as ações com segurança e respeito à vida, principalmente.

As atividades de ensino não precisam ser, inicialmente, de forma presencial, podem ser feitas de forma remota ou híbrida. Se eleitos, nossa proposta é periodizar todos os alunos até janeiro de 2023.  A Ufam precisa voltar a ter o protagonismo que sempre teve. A gente tem sentido uma universidade muito reativa, pouco proativa.

Tem que ser uma instituição de destaque como sempre foi para o Estado e à região. Com certeza, voltando a ter esse protagonismo, ela será muito mais eficiente nas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Toda a comunidade universitária é muito competente, mas precisamos de uma liderança dinâmica que conduza as ações com mais diálogo.

JC – Do ponto de vista econômico, temos um grande desafio de alavancar a nossa vocação com o aproveitamento das potencialidades regionais, que seja um portfólio às atividades da ZFM, hoje muito dependente de Brasília. Como avalia essas questões?

Marco Mendonça – Hoje, a Ufam detém as maiores expetises em todas as áreas do conhecimento. Todo esse arcabouço de conhecimentos deve ser utilizado para o desenvolvimento econômico da região.

Existem várias alternativas que estão sendo pensadas, como, por exemplo, o potencial da mineração, alvo hoje de estudos sobre seus impactos. Fala-se em grandes potenciais. Temos hoje uma área muito ligada a minha formação, que são as jazidas de potássio, que são imensas, abundantes.

A universidade tem que ter um papel fundamental no levantamento dessas potencialidades. Verificando se é possível a exploração, de forma ambientalmente correta e socialmente justa. A instituição tem que buscar também alternativas no terceiro setor, viabilizando seus conhecimentos.

Temos ainda que nos adequar às novas ações por causa dessa pandemia, incentivando o corpo técnico pra produzir, elaborar projetos. Mas nossos principais recursos estão ligados ao MEC. Mas podemos buscar mais investimentos com todo esse capital intelectual pra que todos os benefícios dessa renúncia fiscal possam ser empregados no desenvolvimento regional.

O setor primário é muito importante. Toda vez que se fala em setor primário, pensa-se em desflorestamento. Temos conhecimentos, tecnologias, pra recupera áreas degradas. Para fazer manejos florestais, recuperando o ambiente, equilibrando o ecossistema. Uma  maior integração da academia com o conhecimento popular pode viabilizar alternativas ao desenvolvimento econômico da região.

JC – A interiorização é um desafio muito grande para a Ufam. Qual sua proposta para essa questão?

Marco Mendonça – Já existe uma pró-reitoria na Ufam que cuida da extensão e da interiorização.

Temos a impressão de que a interiorização da universidade aconteceu a partir da implementação dos cinco campi no interior. Mas nada disso aconteceu. Ainda é muito pouco. Está muito longe disso. É necessário um maior aporte de recursos, criar novas infraestruturas. As unidades acadêmicas do interior precisam ter uma autonomia de fato.

A nossa proposta é que esses campi possam ser unidades gestoras, podendo conduzir seus caminhos, suas ações. E também discutir o orçamento, como elas vão se planejar. Pretendemos fortalecer, investir muito na interiorização nessas unidades que poderão ter um maior raio de interlocução com suas microrregiões.

Nesse cenário de pandemia, verificamos a necessidade de virtualização dos processos. Para mais investimentos em pessoal qualificado e  reestruturar melhor as unidades para aquelas possam cumprir seu papel junto à sociedade.

JC – Uma das críticas é que a universidade continua hermética, muito fechada, não abrindo as portas para estabelecer parcerias, possibilitando uma maior capilaridade. Quais suas propostas para mudar essa realidade?

Marco Mendonça – Nosso objetivo é que a Pró-Reitoria de Extensão faça esse papel para fazer chegar à comunidade tudo que a universidade produz. Temos que ter um sistema de comunicação muito mais efetivo. A informação não chega além dos nossos muros. Essas parcerias são necessárias, vão possibilitar que cheguemos mais longe.

Ela pode ser uma matriz de conhecimento, aproximando-se das prefeituras e de outros órgãos, possibilitando uma maior capilaridade. É importante a Ufam desenvolver atividades proativas em todos os 62 municípios do Amazonas, além da capital, fazendo ainda parcerias públicas e privadas. Temos que resgatar esse compromisso que a nossa bancada em Brasília tem com o Estado. Mas isso ficou mais tímido. Pretendemos resgatar essa articulação.

JC – O mercado de trabalho exige, hoje, mais qualificação de mão de obra. Com o avanço tecnológico, como possibilitar que o ensino da Ufam permita a um formando atender ao perfil do profissional que as empresas atualmente demandam?

Marco Mendonça – Essa pandemia tem sido nefasta para nós. Mas ela trouxe a necessidade de atualização das nossas ações. Vamos avançar em mais investimentos para promoção de um pessoal mais qualificado, com uma reciclagem permanente.

Vamos discutir com Pró-Reitoria de Pós-Graduação para adaptar os cursos a essa nova realidade, principalmente agora com a indústria 4.0. Todas as áreas buscam essa atualização. Tem países que já estão na indústria 5.0. Já se fala até em agricultura 4.0. É necessário aperfeiçoar mais os profissionais para absorver esses avanços tecnológicos. Hoje,  é uma necessidade.

JC -O processo de ensino  tem sempre essa defasagem. Além disso, estamos vivendo um cenário diferencial à beira de uma crise social muito grande. Como enxerga isso, principalmente para o jovem recém-saído da universidade?

Marco Mendonça – Temos que avançar em nossos conhecimentos para atender às demandas do mercado de trabalho. Antes, só a universidade servia de chancela para uma vaga no mercado. Hoje, já não é mais assim. Está tudo muito competitivo, exigindo-se mais qualificação a cada dia.

Vamos investir mais em formação para aumentar nosso arcabouço tecnológico. Que os cursos estejam voltados para esse novo mundo que muda a cada dia com o avanço tecnológico em todas as áreas.Faz-se necessária também a reformulação de nossa infraestrutura em termos de laboratórios, mais ferramentas tecnológicas, para desenvolver um ensino com mais qualidade, com maior eficiência.

Nossa proposta é investir no empreendedorismo, queremos que nossos alunos sejam empreendedores, buscando alternativas e soluções paras as mais diversas áreas do conhecimento.

JC – A sustentabilidade é um tema sempre em pauta. Como pretende lidar com essa questão, promovendo novas ações de desenvolvimento?

Marco Mendonça – A sustentabilidade deve ser ecologicamente correta, econômica e socialmente justa. Essas três vertentes precisam coexistir. Propomos a sustentabilidade para sobrevivência do ser humano, com respeito ao meio ambiente. Para que as pessoas possam acessar os produtos e viver com mais qualidade de vida.

Temos que envolver um grupo de trabalho especificamente para essas ações de promoção da sustentabilidade, começando pelo bom planejamento e pela correta empregabilidade dos projetos. Propomos ampliar infraestrutura, melhorar ainda mais os profissionais, nosso capital intelectual.

Usar espaços para a produção de energia limpa, tudo isso aliado a um processo de mais humanização, valorizando as pessoas, para que se possa transformar as ações em processos humanizados.

Nosso compromisso é mudar a universidade, chegar a uma instituição mais eficiente, mais democrática e humanizada.

Foto/Destaque: Divulgação

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