Turbulência adia fusões e aquisições

Na terça-feira, a Inbev anunciou que adiou os planos de captar US$ 9.8 bilhões, por meio de emissão de ações. O dinheiro seria usado na aquisição da cervejaria norte-americana Anheuser-Busch, avaliada em cerca de US$ 52 bilhões.
O motivo foi a “volatilidade sem precedentes” dos mercados. Mesmo assim, a cervejaria pretende completar a compra. “Esperamos concluir a fusão das duas grandes companhias até o fim do ano, para criar a maior cervejaria do mundo”, afirmou o presidente da InBev, Carlos Brito, em comunicado.
A Lojas Renner também informou o adiamento da assembléia na qual decidirá a compra da Leader Ma­gazine. O negócio, de R$ 744 milhões, considerando-se ações e dívida, poderá não acontecer.

Sem acordo

Segundo a Renner, os gestores das duas companhias discutiram nos últimos dias os termos e as condições da compra em função da “significativa deterioração e do agravamento do cenário econômico e financeiro mundial”. A ata da reunião do conselho da Renner informa, no entanto, que “as negociações não chegaram a bom termo” e foi necessário mais tempo para análises, atendendo a pedidos de acionistas.
Duas semanas atrás, as fabricantes de papel e celulose VCP e Aracruz também ­postergaram a fusão que criaria a maior empresa do setor no mundo, em função de renegociações provocadas pelos prejuízos com operações cambiais.
“Os negócios que dependem de grandes financiamentos estão em compasso de espera”, disse Alexandre Bertoldi, sócio-gestor do Pinheiro Neto, maior escritório de advocacia do país em número de fusões e aquisições. “Já os que são baseados em troca de ações também foram suspensos por conta da volatilidade dos mercados.”
No caso das cervejarias, a InBev resolveu recorrer a um empréstimo-ponte que vence seis meses após a aquisição. Além disso, a empresa disse ter um consórcio de 19 bancos garantindo os US$ 45 bilhões restantes necessários à compra. Os maiores investidores institucionais também subscreverão US$ 1.6 bilhão em ações, quando a oferta for reaberta.
Já um possível cancelamento da compra da Leader pela Renner foi bem-visto pelo mercado. “A aquisição, que antes já era cara, com o derretimento do mercado de ações é percebida como excessiva”, disse Renata Coutinho, analista do Santander. “Se houver desistência ou renegociação do preço, será positivo para a Renner.”

Demora prejudica

De acordo com Peter Ping Ho, analista da corretora Planner, na última divulgação dos termos do negócio, a Renner faria a compra com prestações que custavam 105% da taxa DI (taxa usada no mercado financeiro). “Mas certamente a taxa com que estão captando dinheiro agora está muito maior do que essa”, disse Ping Ho.
Para ele, entretanto, a demora no fechamento da operação prejudica as expectativas de aproveitamento de sinergias. Num possível cenário de retração da economia no próximo ano, as margens das empresas poderão ser reduzidas. “Na verdade, com tamanha volatilidade, fica todo mundo com medo de fazer bobagem”, disse Bertoldi. “Mas as empresas que tiverem com bom caixa encontrarão muitas barganhas, inclusive na Bolsa.”
Essa é uma das expectativas da consultoria KPMG, que divulgou também na terça-feira seu ranking de ­fusões e aquisições no ­Brasil. Mesmo com a crise, o número de negócios no terceiro trimestre cresceu 16% em relação aos três meses anteriores. “As negociações que ­estavam para ser fechadas ­foram concluídas”, afirmou Luís Motta, sócio da KPMG responsável pela pesquisa. “Como o preço das aqui­sições é baseado nas expec­tativas futuras das empresas, o preço dos ativos tende a cair e continuar animando o mercado.”, apontou o especialista.

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