Tem faltado oxigênio, prontidão e respeito com o Amazonas

Assim não fosse, o CBA estaria fluindo benefícios e a rodovia BR-319 respeitando direitos e demandas de uma sociedade indignada e de um setor produtivo punido por apenas fazer bem o que lhe compete: gerar emprego, riqueza e oportunidades numa via que deveria por coerência ter duas mãos a serviço da brasilidade.

Por Nelson Azevedo(*)

As desculpas se esfarrapam, a esperança se dissipa e a confiança entra em depressão nesta interlocução frustrante entre a União e a Amazônia Ocidental, com destaque para o Amazonas e Roraima, estados excluídos da conexão rodoviária nacional e da disponibilidade de uma estrutura laboratorial denominada CBA, o mitológico Centro de Biotecnologia da Amazônia, que espera certidão de nascimento empresarial, seu CNPJ, para empinar a Bioeconomia da diversificação produtiva e sustentável na Amazônia.Atolados pela indiferença

Tomemos dois episódios recentes relativos à rodovia BR-319, que dão a exata dimensão da (des)importância que este estado representa para o país. O mais recente é o atoleiro em que ficou retido o contingente militar da Força Nacional, convocado com urgência para ajudar a conter a onda de violência instalada em Manaus pelo crime organizado no penúltimo. Veio pela tal rodovia e ficaram retidos por uma semana na lama de uma via que um dia funcionou satisfatoriamente sem registros da catástrofe anunciada pelos estandartes da ecologia e agonia xiita. O outro exemplo, extremamente emblemático, reteve na mesma lama as carretas que traziam grandes reservas de oxigênio para atender a população asfixiada pela Covid-19 em janeiro último no Amazonas. Somos, pois, 2 estados separados pelo atoleiro do descaso. Atoleiro de uma estrada que, por quase duas décadas, serviu ao povo do Amazonas, uma de 1975 do V BEC, Batalhão de Engenharia e Construção do Exército Brasileiro. Desde o final dos anos 80 está abandonada pelo poder público. O que será que tudo isso significa? Sem oxigênio, nem prontidão e muito menos respeito.Conversas fiadas

Alegar, como foram alegadas outras vezes, riscos de extinção da biodiversidade por causa de uma espécie muito comum na Amazônia, o macaco de cheiro, e de uma gralha que não ocorre somente naquela região? Será o poder público tão incompetente a ponto de não saber assegurar-lhes acomodações adequadas, recomendadas pela Ciência, para garantir preservação? O nome disso é miolo de pote, ou sonífero bovino. Conversas federais para boi dormir acalentado com as desculpas da enganação. “Vao destruir o trecho do meio, o mais rico em biodiversidade da região!”. Tenham santa paciência! Tais arautos do caos sequer conseguem diferenciar carimbó de toada…

O direito suprimido de ir e vir

É justo tratar assim o Amazonas que, apesar de ser um dos mais pobres da Federação, está entre os cinco estados – acredite quem puder – que mais recolhe recursos para a fazenda pública da União? E como fica o direito de ir e vir, que é constitucional, assim como também é constitucional a compensação fiscal de 8% dos tributos federais entre os gastos da Receita com incentivos. Foi essa tímida fatia que atraiu as empresas aqui instaladas a convite de uma política de estado, não do governo A, B ou C. Acreditando na seriedade do convite vieram para esta região remota, sem rodovias, sem ferrovias, com uma comunicação precária e cara, onde inexiste um porto público e se pratica uma logística dos transportes entre as mais caras do país. Ora, em lugar de assumir suas responsabilidades perante a Lei, historicamente, o poder público lava as mãos – como fez Pôncio Pilatos ao condenar um Justo – indiferente ao duopólio na logística dos transportes que impõe às empresas locais tarifas absurdas.

Frustração e revolta

Esse descaso é análogo ao tratamento dado, faz duas décadas, ao Centro de Biotecnologia da Amazônia, uma iniciativa da indústria para diversificar os polos produtivos de nosso parque industrial. Move-nos a disposição de criar novas modulações econômicas além do Polo Industrial de Manaus, como nos é cobrado desde 1967. Por isso repassamos à União mais de US$100 milhões para aquisição dos equipamentos que ainda resistem, muitos deles sem manutenção devida. Falta-lhe, porém, definição de seu perfil jurídico, expresso no CNPJ, prometido desde o começo do milênio. Tanto a estrada como a definição do Centro de Bionegócios, entra governo e sai governo, se transformaram em motivos de frustração e revolta.

Desserviço à brasilidade

Não duvidamos dos atuais gestores federais. Lamentamos apenas que as decisões sejam tomadas alhures, distantes do cotidiano de nossas demandas. Temos, atualmente, um general no comando da Suframa, focado e obstinado pelo dever de promover os interesses locais e trazer para nossa realidade a atuação autônoma e desembaraçada da autarquia que dirige. Lamentavelmente, o timão lhe escapa. Assim não fosse, o CBA estaria fluindo benefícios e a rodovia respeitando direitos e demandas de uma sociedade indignada e de um setor produtivo punido por apenas fazer bem o que lhe compete: gerar emprego, riqueza e oportunidades numa via que deveria por coerência ter duas mãos a serviço da brasilidade. 

(*) Nelson é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materials Elétricos de Manaus, conselheiro do Centro da indústria do estado do Amazonas e vice presidente da Federação das indústrias do estado do Amazonas. 
A coluna Follow-up  sai às quartas quintas e sextas feiras no Jornal do Comércio, sob a responsabilidade do CEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, consultor do CIEAM e editor geral do portal Brasil Amazônia agora.
Foto/Destaque: Divulgação

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