9 de maio de 2021

Sucesso de empreendedores negros no Brasil

Maitê Lourenço se descreve como provocadora, uma empresária que vive em busca de conhecimentos e desafios para desbravar o universo do empreendedorismo. Com o esforço, veio o sucesso —ela é reconhecida como uma das 50 pessoas mais criativas do Brasil, segundo a revista Wired Festival Brasil e Ambev CreativeX —, mas não sem sobressaltos.

Como mulher e moradora do Jardim das Rosas, zona Leste de São Paulo, ela sentiu na pele negra retinta todas as dificuldades que empreendedores com as mesmas características e origem enfrentam ao longo da caminhada. Por isso, decidiu ajudar empreendedores negros a acessar o restrito —e muitas vezes elitista —setor de tecnologia e inovação no Brasil.

Fundou em 2016 a BlackRocks, um hub que conecta empreendedores a investidores, clientes e mentores. O negócio deu tão certo que recentemente a startup fez uma parceria com o banco BTG Pactual. Nos próximos dois anos, a BlackRocks receberá investimento financeiro e terá acesso a conhecimentos, de tal forma que poderá ajudar mais 24 pequenos empreendimentos a crescer. 

O processo de mentoria da BlackRocks começou com 12 startups, mas, no ano passado, outras 10 se juntaram ao portfólio, mesmo em um ano atípico de pandemia.

Aliás, a BlackRocks teve de se adaptar como tantas outras empresas mundo afora. Mas, segundo Lourenço, as mudanças não foram um problema: só anteciparam algo que já teria de ser feito eventualmente.   

Os cursos da Arena BlacksRocks, que até então eram ministrados presencialmente, passaram a ser transmitidos pela internet, o que trouxe benefícios: pela primeira vez, a organização alcançou empreendedores das mais diversas regiões do país. No total, participaram do evento 13 mil pessoas, “mais do que esperávamos”, comemora. 

O próximo passo deve ser ir além das fronteiras. Lourenço afirma que pretende levar a BlackRocks para outros países, de preferência os de língua portuguesa, como alguns países africanos, e para outras localidades da América Latina.  

“É uma forma de valorizar a América do Sul, para que seja reconhecida como uma região de um povo inovador e tecnológico. E como  fator mais importante, pensar em ações para a população negra e indígena da América Latina”, afirma. 

De acordo com dados da empresa de pesquisa Locomotiva, a população afro-brasileira movimenta o equivalente a R$ 1,7 trilhão por ano. Os negros também são a maioria nos pequenos negócios no Brasil: respondem por 38%, enquanto as pessoas brancas são responsáveis por 32,9%, segundo pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada pelo Sebrae em 2017.       

Apesar de maioria numérica, os negros são minoria em termos de oportunidade. Cerca de 32% dos empreendedores pretos e pardos tiveram um ou mais pedidos de crédito negados por seus bancos, sem que fossem esclarecidas as razões, de acordo com pesquisa realizada pela PretaHub, em parceria com Plano CDE e JPMorgan. “Apenas 6% das startups são lideradas por negros no Brasil”, afirma Lourenço.

Foi a partir desse cenário desigual que ela desenhou o objetivo da BlackRocks: facilitar a compreensão de empreendedores (em especial, negros) sobre como construir uma startup. “Desse processo, faz parte, por exemplo, a desconstrução de teorias de que para entrar nesse segmento precisa falar difícil”, diz a empreendedora.

Entre as iniciativas para auxiliar os empreendedores, a companhia promove o Arena BlackRocks, um festival online com mais de 90 horas de conteúdo sobre inovação, tecnologia e negócios digitais. Também  promove o IdeiAção, para auxiliar a tirar ideias do papel, e o Noites de Mentoria, que ajuda a aprimorar e potencializar negócios já existentes.

“Uma das ferramentas mais ricas desse processo é ajudar os interessados por meio de conexões entre empreendedores e mercado. Os candidatos recebem acesso à rede de contatos da BlackRocks, para que assim seja formado um novo ciclo de confecções e novas possibilidades”, explica Lourenço.

O primeiro contato com o mundo do empreendedorismo foi no site de elaboração de currículos e simulação de entrevistas que Lourenço fundou em 2010. Com o Cia de Currículos, ela notou que o ambiente extremamente rico e cheio de oportunidades era voltado unicamente para os homens brancos.

Logo, uma mulher negra na liderança era exceção, uma resistência —que ela quer que vire cada vez mais regra por meio da inclusão. Os benefícios são vários. A diversidade amplia as discussões de trabalho e abrange um público maior.

“A representação vem da base matriarcal da África, matriarcal da população negra e brasileira de que todos nós já somos gestoras. Esse ímpeto vem da nossa mãe, das nossas avós e nossas tias. Perpetuar essa visão é reverberar toda a história nas instituições”, diz.

Lourenço é, de fato, uma provocadora. Uma provocadora de mudanças.

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