Inclinar-se à perspectiva utópica é deixar-se inundar pelo orvalho da esperança que tudo faz renascer e recuperar os sentidos da vida, esmaecidos pela decrepitude do vazio humano. Uma das maiores insígnias da contemporaneidade é o binômio perplexidade/incerteza, que intercruza o caminho da humanidade com grande dinamicidade e vigor. Chegamos a um tempo em que nenhuma perspectiva utópica apresenta-se com credibilidade aos olhos dos indivíduos e das coletividades. Ao contrário do que sugere o pensamento único, este não é o tempo das negatividades e da cortina de fumaça que perdeu o eixo e ficou a ermo no universo. Trata-se de um período histórico rico e de grande abertura para o reconhecimento das ambigüidades, bifurcações e descontinuidades que sempre estiveram presentes na realidade fenomênica sob o signo da condição humana. Num momento de ameaça de guerra e de estupor político frente à hegemonia norte-americana, somente o anseio de paz ressurge ávido de sonho e esperança.

É verdade que de certa forma o pensamento socialista sucumbiu, como também é verdade que o movimento das incertezas deixa os espíritos perturbados, haja vista que as opiniões estão atravessadas pela dúvida e que não há nada de científico nas teorias políticas contemporâneas. Mas também o sujeito social não pode confinar-se ao ceticismo e ao imobilismo do fundo do poço. Edgar Morin, um dos grandes pensadores da atualidade, reconhece que há necessidade de um novo humanismo como única possibilidade de identidade futura. Esse novo humanismo deverá ser o ponto de partida para a política de educação e do Estado. Os sujeitos sociais precisam se libertar dos comandantes, da política miúda e encarar a crueldade do mundo como seres livres. Se é verdade que o ser humano é prenhe de utopia, deve-se reconhecer o aspecto de transcendentalidade que existe nele. Há uma vontade racional de autosuperação das ilusões e frustrações que é sub-reptícia ao desejo de emancipação do ser humano, que busca recriar-se no curso da história e em meio a esperança de novos horizontes. Recriar sonhos é uma qualidade dos humanos, sobretudo daqueles que ainda não foram arrastados pela barbárie, que não foram embrutecidos pela fraqueza da falta de perspectivas.

Agarrar-se à esperança é transcender-se a uma perspectiva de alteridade, recriando laços de solidariedade e confiança no outro. Não numa perspectiva de cegueira que leva à anulação e subserviência do ser a uma perspectiva utópica. Imaginação criadora que supera a si próprio numa abertura para o outro, eis o apanágio da utopia que não existe agora, mas que poderá vir-a-ser. A sociedade precisa de novas utopias uma vez que as antigas sucumbiram no autoritarismo, na opressão e na manipulação dos espíritos idealistas. Francisco de Oliveira, sociólogo e professor da Universidade de São Paulo, aponta para a necessidade de reinvenção da democracia em bases civilizatórias concretas, sendo primordial reintroduzir a noção de coletivo se quisermos restabelecer o papel civilizatório das esquerdas. A libertação pessoal é a utopia e o fim último do homem, o que exige um esforço de superação do próprio ser. Se os ideais democráticos se fizeram acompanhar por ambigüidades e paradoxos, no mínimo quebrou os encantos, mas isto não é nenhum mal ou desdouro para o espírito livre. Estamos condenados ao paradoxo, reitera Morin, mantemos em nós, simultaneamente, a consciência da vacuidade do mundo e da plenitude que nos propicia a vida. Os sonhos e as utopias não se identificam com as estruturas do mundo, mas estão dentro delas por intermédio das pessoas que se recriam nelas como um processo. Não coincidem totalmente com nenhuma alternativa histórica concreta, situam-se para além numa perspectiva de abertura para adiante. Essa perspectiva de vir-a-ser consegue fazer renascer o sujeito social que está sendo sobrepujado pela contigência humana, levando-o a reavivar o desejo e a esperança.

Iraildes Caldas Torres é Professora da- Universidade Fed

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