3 de dezembro de 2021

Quando li a tese de doutorado em economia do professor Roque Lauschner, não entendi um dado, baseado numa pesquisa do estado de Oklahoma do início dos anos 1970 citado na tese. Segundo esta, apenas onze por cento de um produto agrícola industrializado e comprado na prateleira de um supermercado eram valores agregados pelo produtor rural. Vinte e um por cento eram valores de antes do plantio, isto é: fertilizantes, sementes, máquinas agrícolas etc. A maior parte do valor vinha do transporte, armazenamento, industrialização, comercialização, impostos, embalagens etc. Hoje, enquanto nossa tecnologia avança, ainda podemos nos basear naqueles dados que me pareciam estranhos. Para quem encontra a comida pronta, nem se pergunta sobre preparo e correção do solo, escolha da semente, fertizante etc.

Quando o próprio presidente da república falou que está preocupado com a falta de fertilizantes no mundo, liguei para um amigo do ramo e perguntei como estava a venda de adubo. A resposta lacônica “não tem produto” parece fazer eco com a preocupação presidencial. Países do leste europeu e da Ásia, tradicionais fornecedores para o Brasil, fecharam ou reduziram suas exportações. Aliás, alguns países que ainda não praticam a democracia sofrem sanções e também retalham. Teria até havido um calote da Bielo Rússia que vendeu e recebeu pelo produto e não entregou. O NPK (Nitrogênio, Fósforo e Potássio) está difícil ou exageradamente caro para ser conseguido. Outro componente da fertilidade, como a ureia, também está quase ausente. Enfim, os grandes plantadores que têm estoques reguladores, talvez tenham tempo de adquirir o fertilizante antes que estes estoques se esgotem. Os pequenos talvez fiquem sem já nesta safra.

Então os olhos se voltam para Amazônia. “Descobre-se” que há reservas enormes de potássio no subsolo de Itapiranga, Silves, Itacoatiara, Nova Olinda do Norte, Autazes, Nhamundá etc. Quem conhece a enorme área destes municípios sabe que estou falando de uma região do tamanho da metade do estado de Santa Catarina. As reservas estariam a 650 metros de profundidade. A desconhecida Amazônia também tem reservas de calcário que se estendem por uma área de mais de 200 km, capazes de corrigir a acidez do solo brasileiro e, de quebra, fornecer matéria prima para o cimento. O gás natural, abundantíssimo na região, tampouco é usado na produção de ureia, outro fertilizante importado pelo Brasil.

Entende-se porque tantas ONGs internacionais estão “protegendo” a região. Repare que estou falando apenas de produtos que seriam úteis ao plantio. Se a exploração for iniciada, não admiraria que ONGs poderosas transportassem “índios” de helicópteros para os locais, tentando impedir a atividade e assim impedir também a participação dos verdadeiros indígenas no lucro desta. 

No entanto não é esta a questão que está em pauta. O crescimento agrícola, multiplicado por 10 nos últimos 45 anos, provou que a área ocupada apenas duplicou, num avanço tecnológico formidável. Obvio que o rendimento agrícola aumenta com o uso do adubo. Toda a atividade, todos os inventos não surgiram de uma hora para outra. No nascimento do automóvel, há mais de 120 anos, “cientistas” diziam que a velocidade constante acima dos 20km por hora era agressiva ao corpo humano. O veículo teve sua velocidade constante multiplicada por cinco, e o homem está vivendo mais. Outro exemplo prático são os defensivos agrícolas que eram terrivelmente agressivos quando o plantio intensivo começou. Hoje temos defensivos brandos com a produção maior.

Enfim, as previsões quanto ao fornecimento de insumos anteriores ao plantio são lúgubres, mas esperemos que surja alguma solução a curto prazo. O café nunca é tomado na temperatura em que é servido. Esperemos que o socorro chegue a tempo.

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