Sócrates Bomfim é dedicado e muito culto

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Selma Bomfim relata o homem extremamente culto, educado e justo que ele foi.

Poucas pessoas podem falar com tanta propriedade sobre Sócrates Bomfim como Selma Bomfim Silva, sua filha. Selma, além de ter vivido sob o mesmo teto com o pai, até casar, aos 26 anos, ainda trabalhou com ele na Siderama por mais oito anos, de 1961 a 1969. Passados 24 anos da morte do pai, até hoje ela guarda a imagem do homem extremamente culto, educado e justo que ele foi.
“Realmente meu pai era um homem à frente de seu tempo, não só pelas idéias avançadas que tinha para a época como pelo seu comportamento. Numa Manaus bucólica da década de 1950 e 1960, ele trabalhava ininterruptamente. Saía de casa pela manhã, às 8 horas e voltava para o almoço ao meio-dia. Às 13h30 horas seguia para o trabalho e só retornava lá pelas 21 horas, e isso de segunda a segunda-feira, sem falar das longas viagens a trabalho que fazia. Cresci vendo-o nesse ritmo”, lembra Selma.
Em casa, no aconchego com a família, Sócrates Bomfim lia muito, principalmente livros técnicos, sobre geologia e metalurgia. Aprendeu a falar e escrever inglês e francês fluentemente, estudando em casa. Leu dicionários inteiros da língua portuguesa e “devorou” a Enciclopédia Britânica, apenas para citar alguns. Enquanto lia, ouvia músicas clássicas e óperas, primeiro numa vitrola, depois num aparelho mais moderno: uma eletrola.

Educação
exemplar
Selma conta que as raras vezes em que, ainda criança, via o pai era durante o almoço e o jantar. “Só comíamos quando ele chegava e nessas horas eu e meu irmão Frederico, seis anos mais velho do que eu, apenas ouvíamos a conversa dele e de minha mãe Carlota, já que naquela época crianças não falavam à mesa. Não faziam carinhos nos filhos, mas sabiam educar com exemplos e palavras”, recorda.
A colocação em prática da idéia de construir uma siderurgia em Manaus encontrou uma Selma ainda adolescente, mas na hora de começar a trabalhar, o que ela fez, junto com o pai. “A siderúrgica foi seu maior sonho, sem dúvida. Ele queria promover o desenvolvimento da região e a melhoria de vida do povo humilde do interior, do qual fizera parte. Achava que a floresta, cujas terras não serviam para a agricultura, mas eram ricas em minérios, deveria favorecer esse desenvolvimento”, diz.

Pesquisa de
certificação
Profundo conhecedor do solo da região, Sócrates Bomfim ainda pagou pesquisas para se certificar se encontraria o que queria: manganês e ferro, para tornar viável a siderúrgica. “Lembro que na sua estante havia saquinhos com pedras, milhares deles, classificados e com o local onde haviam sido retirados”.

Empreendimento se desfez aos poucos

Quando, depois de vários anos de trabalho para realizar o seu sonho de ter uma siderúrgica no Amazonas, Sócrates viu o empreendimento se desfazendo aos poucos, continuou lutando, como era sua característica. “Ele não tinha mais dinheiro para pagar a energia que mantinha o alto-forno e chegou o aviso para o desligamento. Meu pai disse que se conseguisse fazer mais duas viagens com ferro gusa, exportado para o Japão, conseguiria pagar as dívidas, mas a empresa de eletricidade não quis saber e quando chegou a hora, desligou a energia. Aquele foi o pior dia para o meu pai”, lamenta.

Homem
dedicado
Bastante deprimido, Sócrates Bomfim “jogou a toalha”. Não se sentindo bem de saúde, viajou para o Rio de Janeiro para fazer um check up e lá descobriu que estava com câncer. Ainda ficou nove anos no Rio de Janeiro, tratando-se, até falecer em 4 de outubro de 1984, sendo trazido para o sepultamento em Manaus.
Selma diz que valeu a pena a luta do pai. “Só atinge seus objetivos quem luta por eles. Você pode atingi-los, ou não, mas só saberá se lutar. Meu pai não ficou rico, pois ele não se interessava diretamente pelo dinheiro, mas valeu o esforço despendido para mostrar que a Amazônia é viável economicamente e não precisa depender do resto do Brasil. Infelizmente seu recado não foi entendido”, finalizou.

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