Soberania econômica e identidade cultural

Estudo do Bird (Banco Mundial), denominado “Perspectivas da Economia Mundial 2007: Gerenciando a Próxima Onda da Globalização”, prevê que esta poderá promover expansão mais rápida da renda nos próximos 25 anos do que no período compreendido entre 1980 e 2005. Entretanto, persistem as perspectivas inerentes ao aumento das desigualdades na distribuição das riquezas – entre nações e pessoas – e de exacerbação das pressões ambientais.
O avanço da globalização no próximo quarto de século soa como alerta para nações emergentes que ainda não equacionaram questões estruturais básicas e nem removeram os obstáculos ao crescimento sustentado. Sim, é o caso do Brasil, que precisa reformar a Constituição (em especial no tocante à previdência, legislação trabalhista e sistema tributário), promover choque fiscal, reduzir juros, ajustar o câmbio e prover com qualidade e dignidade as demandas essenciais da saúde e educação. Há, também, a carência em infra-estrutura. Sobre este aspecto, aliás, outro relatório do Bird demonstra que, ante o atual 1% do PIB, o Brasil precisaria investir no mínimo 3,2% até 2010 para atenuar seus gargalos, em especial nas áreas de transportes e energia elétrica.
Como se vê, os desafios são muitos e, conforme se percebe no dia-a-dia de Brasília, as prioridades parecem outras, como a montagem de novos ministérios e os salários dos parlamentares… Caso não se mobilize à altura das circunstâncias, além de continuar emergente ou, pior, cair para a divisão dos subdesenvolvidos na acirrada copa global, o Brasil incorre em outra séria ameaça: perder, paulatinamente, fortes elementos de sua identidade como nação. Este tema, tanto quanto o crescimento econômico e a justiça social, interessa muito ao setor gráfico, considerando o seu relevante papel (e aqui não há intenção de trocadilho…) na cadeia produtiva da comunicação e na indústria cultural.
A globalização, ao abrir fronteiras e estabelecer oportunidades mais amplas ao comércio internacional de produtos e serviços, conspira a favor de uma cultura universal de massa, prevalente aos usos, costumes, folclore, música, artes e tradições de cada povo. Esta é uma preocupação concreta e real, a ponto de suscitar o estabelecimento, em 18 de março último, da Convenção da Diversidade Cultural, ratificada por 50 nações, inclusive a nossa.
Embora quase despercebido da opinião pública, realizou-se, na mesma Brasília dos valores invertidos, interessante seminário sobre o tema. Observem o lúcido alerta feito no evento por Vincent Defourny, representante da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura): “Existe o risco de uniformização das expressões culturais no mundo globalizado; daí a importância de se favorecer e proteger a diversidade nesse campo”.
A análise conjunta do relatório do Banco Mundial e do perigo diagnosticado pela Unesco, contextualizada no cenário de aprofundamento da globalização, evidencia que alguns países, tropeçando em seus próprios equívocos, estão se autocondenando à subserviência econômica e cultural.
O Brasil tem imenso potencial para o desenvolvimento e reafirmação de seus valores e raízes, mas não pode mais postergar o enfrentamento de seus problemas, pois o tribunal da história não costuma absolver o crime da omissão.

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