Chafarizes são elementos arquitetônicos muito bonitos e interessantes numa praça, porém, os colocados em Manaus fizeram sucesso por algum tempo e depois foram relegados ao abandono e descaso como os da praça da Matriz, da praça Heliodoro Balbi, do Monumento à Abertura dos Portos (no Largo de São Sebastião), da praça da Saudade.

Teve um, porém, teve até nome, o Chafariz das Quimeras, que ‘passeou’ pela cidade durante quase 100 anos e a cada mudança de lugar, perdia um pedaço de sua estrutura original até, finalmente, ser colocado num ‘porto seguro’. Desde 2009 o chafariz está posicionado no Parque Jefferson Peres, felizmente totalmente montado.

Quimera é um monstro mitológico alado, com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente. No Chafariz das Quimeras, quatro destes monstros protegem uma deusa que segura uma tocha com a mão direita.

Uma foto, de 1911, mostra a inauguração do Chafariz das Quimeras em seu primeiro lugar na praça 15 de Novembro, próximo a atual rua Visconde de Mauá. Interessante ver ao fundo o Café dos Terríveis, frequentado pela elite política e intelectual da época. Jorge de Morais (1911/1914) era o prefeito de Manaus e, possivelmente, foi o responsável pela ordem para a instalação do chafariz na cidade, muito embora, naquela época, a economia do Estado estivesse indo ‘ladeira abaixo’ pelo fim do monopólio do comércio da borracha pela Amazônia.

Inauguração do Chafariz das Quimeras, em 1911

De acordo com o historiador Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa, o Chafariz das Quimeras foi fabricado pela fundição francesa Val d’Osne, da cidade de Osne-le-Val, que funcionou de 1835 a 1986. Vendido através de catálogo, o mesmo modelo de chafariz é encontrado em outros países europeus.

Ainda segundo Fábio, em 1927, com a inauguração do Jardim Ajuricaba de Menezes, bem em frente à entrada do porto, para lá o Chafariz das Quimeras foi transferido. O prefeito dessa época era José Francisco de Araújo Lima (1926/1929).

Deusa solitária

Bola do Olímpico

Em 1950 Manaus ganhou uma nova praça, no cruzamento da av. Constantino Nery com o incipiente Boulevard Amazonas (atual av. Álvaro Botelho Maia). Pelo formato redondo, logo o espaço ganhou o nome popular de praça da Bola, ou Bola do Olímpico, pela proximidade com o clube homônimo, mas oficialmente era praça Ajuricaba, depois praça João Pessoa. Em 1968, por motivos desconhecidos, o prefeito Paulo Pinto Nery (1965/1972) mandou retirar o Chafariz das Quimeras do Jardim Ajuricaba de Menezes e, no dia 5 de setembro, o monumento foi inaugurado na ‘Bola do Olímpico’ quando sofreu estranhas alterações, com horríveis paredões de pedra sendo construídos por trás das quimeras, ainda assim, a praça se tornou um aprazível lugar da bucólica cidade.

Mas não demorou muito para o Chafariz das Quimeras sofrer aquelas que seriam as suas piores descaracterizações.

Em 1975 era prefeito de Manaus, Jorge Teixeira de Oliveira (1975/1979), o abridor de avenidas, o destruidor de praças, entre elas, 15 de Novembro, Artur Bernardes (atual Ribeiro da Cunha), Jardim Ajuricaba de Menezes, Jardim Jaú, e Ribeiro Júnior.

“Naquele ano, para alargar a Constantino Nery e o Boulevard, ‘Teixeirão’ acabou com a praça João Pessoa e com o chafariz, deixando no local apenas o pedestal com a deusa e sua tocha. As quimeras, e a bacia do chafariz, foram levados para o então Horto Municipal, atual Cidade da Criança”, contou o historiador Ed Lincon Barros.

“Lembro que um dos leões estava com uma das patas quebrada”, recordou.

Solitária, a deusa permaneceu por mais de 20 anos observando o aumentar do movimento nas duas avenidas até que, por causa exatamente do intenso movimento de veículos, naquele espaço foi construído um viaduto, inaugurado em 1998, e nomeado Dom Jackson Damasceno Rodrigues no ano seguinte. A deusa atrapalhava e já havia sido retirada do local em 1997.

De frente para a deusa

Levada para o Horto Municipal, a deusa se juntou às suas quimeras e lá permaneceram esquecidas. Eis que, em 2003, o prefeito Alfredo Nascimento (1997/2001 e 2001/2004) resolveu restaurar a praça, ou Bola do Eldorado, e alguém teve a idéia de remontar o Chafariz das Quimeras que, na nova praça voltou ao auge como chafariz, com toda sua plenitude mas, com um porém: as quimeras foram dispostas de frente para a deusa, numa montagem totalmente diferente das anteriores o que logo chamou a atenção de vários historiadores. “As feras deveriam proteger a deusa e não estar olhando para ela”, falaram. Ainda assim, não foi dada atenção alguma aos reclamos e naquela disposição elas permaneceram por seis anos.

Bola do Eldorado, montado de forma errada

Mais uma vez, sem se saber de quem partiu a idéia, em 2009, resolveu-se retirar o Chafariz das Quimeras da Bola do Eldorado e levá-lo para o recém inaugurado Parque Jefferson Peres onde, montado como em 1911, parece, finalmente, que o belo monumento ganhou um lugar definitivo, junto a um lago artificial. E funcionando tal qual como no dia de sua primeira inauguração.

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