6 de dezembro de 2021

“Só sei que nada sei”

Belmiro Vianez Filho (*) 

Estamos por aqui neste mundão decididamente passando uma chuva. O tempo passa de modo implacável e sábio. E o que é melhor, sutilmente ele obriga a aprender a todo aquele que quiser sobreviver. A frase de Sócrates, que percorre a história há quase 400 bom anos antes de Cristo, sempre me incomodou. Dizia para mim mesmo, é claro que eu sei muitas coisas. Mas os anos e as experiências foram me empurrando a concordar com o pensador e colocar um questionamento até as chamadas cláusulas pétreas, impostas por alguém, num determinado contexto o qual precisa permanentemente ser repensado. 

Afinal, “tudo muda e com toda razão” como diz o cancioneiro popular. E aí cabe indagar: o que temos ainda a dizer sobre coisas, fatos e verdades que outrora considerávamos imutáveis? Ora, se realmente tudo muda, é preciso colocar as barbas de molho para aferir fato por fato, verdade por verdade, para investigar os aspectos que se alteram e os que teimam em permanecer.  Provavelmente por isso, o pai da Filosofia , que só existe nas citações aliás – pois quase nada deixou por escrito – afirmou categoricamente: “só sei que nada sei!” Diz-me a experiência, agora já sei, é mais prudente perguntar do que responder e correr o risco da zombaria ou da insinuação de que ficamos gagá. 

Neste mundo em que temos que recorrer às máquinas para saber se uma mensagem recebida é falsa ou verdadeira, nem ao bispo nos é dado recorrer. Então, é a hora e nossa vês de perguntar. Sem descuidar da humildade de acolher as respostas que recebermos, fiquemos atentos apenas ao que alguém fala ou escreve para evitar enganação. Basta conferir se a narrativa é coerente com as atitudes, trajetória e contribuições do influenciador.  E se ele assinou em algum lugar se optou por deixar o mundo algo melhor do que encontrou. 

É hora de perguntar e refletir sobre alguns acontecimentos que questionam nossa saúde mental. Por exemplo: algum dicionário já cravou o novo conceito do verbo roubar? Lemos nos jornais que ocorreu uma alteração substantiva no ato de roubar e suas novas consequências.

 Alguns legisladores, preocupados em achar saídas para as próprias mazelas, e cansados de ficar quatro anos custeando a peso de ouro sua questionável inocência, resolveram  deixar de lado o pudor e criar um novo sentido para seus hábitos nefastos de desvio dos recursos públicos. A chamada compulsão pelo cofre da União. 

Neste vernáculo todo particular somente serão indiciados os amantes dos cofres públicos que assumirem publicamente que tinham intenção de roubar. Basta jamais ter dito a alguém suas intenções sombrias de não haver a testemunha para implicar sua condenação. E como a Constituição Brasileira concede aos meliantes a alternativa do silêncio para que ninguém produza provas de crime contra si mesmo, foi assim criado o melhor dos mundos para os adeptos da gatunagem. 

E o curioso dessa história é que ela reuniu o consentimento de parlamentares situacionistas e oposicionistas na hora da votação. Naturalmente, que se olharmos com a lupa da moralidade, iremos constatar que os adeptos dessa assustadora montagem do novo código de posturas da malandragem, todos eles, acumulam processos criminais em que são acusados de larápios do erário. 

Na lógica socrático, fico a pensar se não estaria ficando alienado, candidato genuíno a uma vaga no hospício mais próximo, pois tenho clareza sobre a diferença entre roubar e não roubar. E não é que o conceito mudou! Nesse caso, não se trata de verdade ou mentira e sim da mais estarrecedora confirmação dos fatos. Agora é permitido roubar? 

É por isso que os empresários que optaram por investir no modelo ZFM – de tanto reivindicar Segurança Jurídica, aprenderam a trocar pneus da adaptação burocrática a 300km/hora. Sem falar em outras mágicas e muitas maledicências. Faz lembrar outra lição de filosofia, que se refere aos esforços do filósofo chamado René Descartes, que vivia angustiado para provar a existência da razão e, a partir dela, demonstrar a própria existência. Sua conclusão clássica para afirmar o império da razão e da existência se resume a uma frase: penso logo existo! Ou seja, se eu estou pensando isso ou aquilo é porque a minha cabeça, que faz parte do meu corpo, existe. Simples assim. Não se trata de um delírio filosófico. Entre Sócrates e Descartes,  entretanto, e à luz das frenéticas mudanças, me resta adotar outro tipo de resposta para continuar transitando entre os meus semelhantes como um reles  mortal, sem ser apontado como o alienista da Vila Municipal, a saber. Se só sei que nada sei, penso logo desisto. Até mais ver!!!

(*) Belmiro é comerciante

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