18 de maio de 2021

Sinésio avalia que marca Amazônia precisa ser investida

O deputado estadual Sinésio Campos (PT) vê na bioeconomia como a única alternativa para a criação de uma nova matriz econômica capaz de alavancar o desenvolvimento do Amazonas. Essas atividades se somariam à produção das indústrias da ZFM (Zona Franca de Manaus), gerando mais empregos e renda à população.

Segundo o parlamentar, o Estado poderia muito bem explorar a mineração – até em terras indígenas-, desde que seja implementada de forma politicamente correta, respeitando a cultura, os costumes de etnias, sem agressão ao meio ambiente.

“Depois da Coca-Cola, a Amazônia é hoje a marca mais conhecida no mundo”, ressalta Sinésio Campos. “Esse potencial não deve ser apenas contemplado. Precisamos proporcionar benefícios às pessoas que vivem principalmente no interior do Estado, sem empregos e nem assistência do poder público”, acrescenta o deputado.

Segundo ele, o babaçu é abundante no Estado. São pelo menos 500 insumos derivados do fruto que podem ser usados na produção de fármacos, em outras indústrias.

Ele afirma que existem jazidas abundantes de minérios no Amazonas. E aponta que o gás natural tem potencial para a instalação de um polo petroquímico. O deputado avalia que a quebra do monopólio da Cigás (Companhia de Gás do Amazonas) abre oportunidades para atração de investimentos de empresas interessadas no segmento.

Para Sinésio Campos, a maior ameaça à ZFM é o atual ministro da Economia, Paulo Guedes, que quer desmontar o projeto. “É o único modelo que sustenta a economia do Amazonas ao longo de décadas.  Vamos estar sempre vigilantes”, diz.

Campos defende mais investimentos no turismo. E avalia que o segmento não tem a atenção que merece do governo do Amazonas e da própria Embratur (Empresa Brasileira de Turismo), principalmente nesse momento de pandemia. “Poderíamos promover eventos mais populares que atendam a pessoas de menor renda, com roteiros que são verdadeiros paraísos”, propõe.

O deputado também luta para a criação de um centro de atendimento a sequelados pela Covid-19 no Amazonas. “Muitos dizem venci a doença, mas carregam vários tipos de sequelas. E precisam de fisioterapia, cardiologistas, psicólogos, psiquiatras”, afirma.

Sinésio Campos falou com exclusividade ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio -O sr. diz que a Assembleia deve mostrar trabalho. E é contra suspender as atividades……

Sinésio Campos – A sociedade precisa saber qual é o papel, de fato, do Parlamento.

O papel social, econômico e político do poder Legislativo. O Executivo só representa 50% da população.

O Legislativo, não. Representa 100% da sociedade. É local para diálogo, de debate, para o enfretamento de ideias

Na verdade, o parlamento é a voz da sociedade. Quando as pessoas são eleitas, a sociedade tem que ter uma postura criteriosa e ser muito vigilante.

Está dando um cheque em branco pra representá-la. Tem prefeito que mal assume o cargo e faz tudo praticamente ao contrário. Fechar o Parlamento é um acinte à democracia.

JC- A Embrapa fez 48 anos de atividades no Amazonas. O sr. é um entusiasta do desenvolvimento do interior do Estado, com novas oportunidades de negócios – como a mineração. Mas não se vê uma sinergia nesse sentido entre governos e instituições. Com avalia essas questões?

Sinésio Campos – Também sou técnico agropecuário antes de ser filósofo. Quando foi criada a Zona Franca no período militar, o projeto inseriu o distrito agropecuário, onde vivem hoje mais de 15 mil famílias.

Empresas, indústrias, pegaram essas terras e tinham obrigação de investir no setor primário. Mas isso nunca aconteceu.

Resultado – a população ocupou essas áreas. Existe um cinturão verde na área do Puraquequara que abastece os mercados da cidade, como também em Rio Preto da Eva, que se consolidou como indústria agroindustrial.

Só que as pessoas precisam ter os títulos das terras. O Incra tem muitos assentamentos espalhados também em São Gabriel da Cachoeira.

Trabalhamos num projeto de lei para beneficiar as pessoas, para que elas sejam regularizadas e tenham acesso a financiamentos.

Hoje, criamos um grupo de trabalhos sobre a exploração sustentável do babaçu. Só em Barreirinha, existem mais de 10 milhões de pés.

Temos mais babaçu aqui que no Maranhão. Há 30 anos, a Embrapa incrementou o cultivo de dendê para produzir biodiesel. Não deu certo.

Vejo que é importante o Inpa e a Embrapa buscar toda a cadeia produtiva do babaçu. Mas o cidadão sequer é dono da terra.

Eles estão chamando a Embrapa que tem uma expertise muito boa sobre isso. Poderíamos produzir arroz nas áreas de várzea. A política desse governo que tem o Paulo Guedes na Economia quer desmontar a Zona Franca.

Vamos ficar olhando a natureza, só contemplando a paisagem? Esse debate se faz necessário.

JC – O sr. está propondo a criação de um centro para atender pessoas sequeladas pela Covid-19…..?

Sinésio Campos – As pessoas saem do hospital e dizem ‘eu venci a Covid’. E as sequelas?

Depois da doença, elas precisam de fonoaudiólogos, de terapeutas, cardiologistas.

Então, estou propondo um centro de recuperação de sequelados de Covid no Amazonas.

Tem pessoas que estão morrendo de depressão. Vejo que é o momento, o País e o Estado precisam se debruçar sobre essas questões.

Já encaminhei a proposta para o governo do Amazonas e ao secretário de Saúde. Pra que esses serviços existam nas unidades da rede básica de atendimento púbico.

JC -Deputado, fala-se muito sobre a importância do turismo que é um dos segmentos mais afetados pela pandemia. Quais as saídas para essa cadeia tão gigantesca?

Sinésio Campos – A Amazonastur e outras instituições deveriam estar focadas nas famílias pessoas que fizeram de tudo para dinamizar o turismo no Amazonas.

Mas o Estado virou as costas pra elas. Temos um cartão de visita fantástico. Depois da Coca-Cola, a Amazônia é a marca mais conhecida do planeta.

Por que não se avança no turismo, um setor muito importante para a economia de nossa região?

Temos um governo federal que, na verdade, desmonta qualquer tipo de prevenção à Covid. Os hotéis de selva vivem do turismo internacional.

Existem poucos voltados para o turismo local. A Amazonastur não investe na divulgação de roteiros locais que poderiam ser focados na população de menor renda.

Essas pessoas vão pra outros Estados. Poucos são os que conhecem a Amazônia.

A Amazonastur e a Embratur têm que  divulgar o turismo não só para estrangeiros, brasileiros de outros Estados, mas também para a população local.

Pra cada turista que chega, são gerados nove empregos diretos e indiretos nas comunidades.

JC – Babaçu, mineração e polo naval são alternativas econômicas. Como avalia a lei do  gás, já que os números são muito alvissareiros, principalmente após a quebra do monopólio no setor?

Sinésio Campos – Essa pauta estava travada, acompanhei quando foi instalado o  gasoduto em Manaus.

Em Manacapuru e Iranduba, deveria haver uma indústria petroquímica. Poderíamos ter um porcelanato, fábricas de azulejo. E só tinha uma forma de viabilizar – como a do gás natural, que politicamente correta, e limpa.

A Cigás só ganhou e não investir em nada. No Nova Cidade, tem linhas de canalização de gás, mas não chegou pra ninguém.

A partir do momento que quebramos o monopólio, agora novas empresas estarão se instalando, abrindo oportunidades para as pessoas terem energia mais barata.

Vai gerar muitos empregos, já está gerando em Itapiranga.  Antes, tudo que se produzia ia pra outras Estados porque não se poderia comercializar aqui. Um absurdo a botija de gás custar 100 reais no interior.

Quem viesse pra cá produzir, tinha que vender pra outros Estados. Com a quebra do monopólio, a Cigás tem que baratear o gás.

JC  – As cheias são rotineiras no Amazonas. Acontecem a cada ano. O Estado conseguiu aperfeiçoar o atendimento às pessoas vitimadas pelas enchentes, em especial sobre o socorro econômico e social, como nas áreas de várzea?

Sinésio Campos – Se não fosse trágico, seria bom. Convocamos inclusive o secretário executivo da Defesa Civil pra dizer o programa preventivo que o Estado tem sobre essas questões.

Observando financiamentos, perdas dos cidadãos…Não vejo um planejamento a médio prazo.

Por exemplo, em Islândia, uma cidade peruana ao lado de Benjamin Constant, construíram uma cidade suspensa, com flutuantes.

Enquanto aqui, todo ano tem que gastar tábuas de azimbre, e não resolve.

Todo ano é enxugando gelo, gastando com algo recorrente. As pessoas da várzea deveriam ter casas flutuantes.

Este ano,  teremos uma das maiores cheias. Os rios não sobem de uma vez toda. Tem como fazer um planejamento. Eu fiz isso, cobrei o apoio às vítimas, que não seja somente com cestas básicas, mas também com orientação de técnicos de extensão rural pra gente produzir.

JC – Não está na hora de fazer um estudo para mudar a sede desses municípios mais afetados pelas cheias…..?

Sinésio Campos – Conheço todos os municípios desse Estado. As pessoas querem se deslocar?

É uma questão cultural, afetiva. Colocam aqui um caso em Boca do Acre, no  Piquiá, a sede administrativa que fica em  área de várzea.

A grande maioria sofre com a cheia, mas não sai.  Não adianta construir uma feira bonita, o povo não vai.

Transferiram a feira do Coroado para a estrada do Aleixo, ficou lindo, mas quase ninguém vai lá fazer compras. A sociedade tem sentimentos.

Nós nascemos nas margens dos rios. Estamos batalhando agora pra fazer o polo naval,  tirar os estaleiros dessas áreas.

Mas tem pessoas que vivem ainda em flutuantes. É uma questão muito complexa.

JC – Temos o grande desafio de criar alternativas econômicas que gerem empregos e renda no interior do Estado. Com a pandemia, muitos deixaram de empreender e migraram para a informalidade. Como vê essa situação?

Sinésio Campos – Não vejo alternativa que não seja a bioeconomia. Temos  mais de 500 produtos que derivam do babaçu. É só botar o cidadão pra produzir.

A indústria de fármacos pode aproveitar os vastos conhecimentos sobre as plantas medicinais.

O próprio Polo industrial de Manaus poderia utilizar os nossos recursos naturais.

Como não produzimos aqui cerâmica e azulejo? Temos caulim em grande quantidade.

Poderíamos focar na indústria de alimentos, petroquímica, fármacos. O gás vai atrair empresas interessadas na indústria petroquímica.

Podemos alavancar uma indústria de mineração. Em Presidente Figueiredo, temos toda uma cadeia periódica de minerais.

Temos biojoias. Eu defendo a mineração em terras ambientalmente correta e economicamente viável, respeitando as populações tradicionais, em terras indígenas.

Às vezes, as pessoas interpretam com outro sentido. É oferecer a índios a oportunidade de ter novos benefícios com atividades sustentáveis.

Há 250 milhões de anos, existia entre Borba e Nhamundá um mar. Tem muito sal. É uma área de 400 km de sal de potássio.

Hoje, o Brasil compra o minério da Rússia. Por que não comprar daqui?

Temos insumos pra produzir fertilizantes. Nitrogênio, fósforo, em Apuí. Poderíamos ter aqui uma indústria de fertilizantes pra atender o Brasil.

Temos, sim, todo um potencial. Quando falam que a Amazonia é um fardo, eu digo que o Brasil começa no Norte e não no Sul.

Estão próximos do Caribe, dos Estados Unidos. Faltou alavancar o outro lado da ZFM,  o polo naval e o agroindustrial. Mas continuamos só com esse  modelo que sustenta o nosso Estado E vamos continuar lutando por ele.

JC – O PT tem uma divisão grande. Quais suas expectativas com a possiblidade de o ex-presidente Lula ser de novo candidato?

Sinésio Campos – Canja de galinha não faz mal ninguém. Estou no sétimo mandato. Minhas pautas são sempre de interesse da população.

O governo Lula  e o  da Dilma fizeram muito bem ao Amazonas. O Lula Esteve 13 vezes aqui e não veio somente pra inaugurar puxadinhos, como o do Centro Vasco Vasques (rssss), como aconteceu recentemente.

Promoveu a prorrogação da Zona  Franca, liberou investimentos para a Ponte Rio Negro, para a Arena da Amazônia.

Antes, os Ifams (institutos federais) só tinha aqui em Manaus. Agora  estão em vários municípios do interior. A educação melhorou. O salário mínimo bateu todos os recordes.

O atual presidente é um genocida. O ex-ministro dele, o Eduardo Pazuello, estava no shopping Manauara sem máscara.

Então,  ‘bob pai, bob filho’ (rsss). O Trump não vacinou quase ninguém. O  Biden chegou e já vacinou muita gente.

Então, o dr. cloroquina (Bolsonaro) não fez nada. Só uma política equivocada na saúde.

Uma política errada pode causar mortes. Nesse momento, o PT não tem nenhum debate sobre candidaturas próprias ou alianças com outros partidos.

O que quero é que o Amazonas e o País saiam desse marasmo que já resulta em quase meio milhão de pessoas mortas por Covid.

Também perdi um irmão pela doença. Saúde não tem preço. Qualquer governo que se preze, tem que investir pesado na vida das pessoas.

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