Setor de serviços no Amazonas buscam alternativas

Trabalhadores do segmento de barbearias, cabeleireiros, estética e de beleza em geral sentem o peso da paralisação das atividades em Manaus por conta da pandemia de coronavírus. Mesmo com o decreto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que considera a categoria como serviços essenciais, o governo do Amazonas decidiu esperar até 31 de maio para avaliar se libera ou não a classe para voltar a atuar. 

Comércio e escolas estão fechados desde 15 de março no Amazonas. É uma estratégia do Executivo em parceria com as autoridades de saúde para conter o avanço da pandemia de Covid-19 que, até esta terça-feira (19), contabilizava mais de 20 mil casos confirmados e pelo menos 1,5 mil mortos em todo o Estado, segundo estimativas das estatísticas oficiais. 

O decreto foi baixado em edição extra pelo Planalto, mas os Estados têm autonomia de aderir ou não à liberação do funcionamento de salões e academias. O Amazonas optou, porém, por esticar mais o isolamento social, preferindo examinar a questão com mais cautela, mais cuidado, antes de decidir reabrir os serviços.

Na esteira do segmento de beleza, as academias de ginástica também sofrem no bolso a grave crise econômica causada pela Covid-19 no Amazonas. Empresas do porte como a Companhia Atala e Fitness foram obrigadas a fechar as portas pela falta de clientes em decorrência da suspensão dos serviços. 

Até bem pouco tempo, a frequência a esses dois principais estabelecimentos de educação física, ginásticas, lutas e esportes em Manaus sinalizava alto poder aquisitivo, glamour, contemplando só um nicho da população que tem condições de pagar por um serviço mais especializado, com profissionais de primeira linha, segundo especialistas do setor.

Agora, a situação se inverteu. Os bens equipados e ostentosos prédios das duas grandes academias da capital dão lugar hoje a um cenário sombrio, vazio, de muita solidão. Todos esses equipamentos têm um alto impacto na conta das empresas, além do pagamento de salários dos profissionais que sobrevivem dessas atividades. E não deu outra: as portas fecharam e não há expectativas de quando realmente vão reabrir.  

Lamentando muito, a direção da Atala, uma das academias mais tradicionais de Manaus, informou pelas redes sociais que não aguentou o ‘baque’ com a suspensão dos serviços em função da pandemia do novo coronavírus. “Todo grande sonho chega ao fim. E hoje declaramos oficialmente que a empresa não conseguirá reabrir suas portas devido aos altos custos operacionais, encerrando assim suas atividades”, anunciou Natacha Atala, diretora do empreendimento empresarial.

‘Extrema penúria’

No segmento de barbearia, cabeleireiros, estética e beleza, a situação só não está pior porque os dois sindicatos que representam a categoria (o patronal e o de trabalhadores) se uniram na promoção de rifas para distribuir cestas básicas aos profissionais parados. Além da falta de alimentos, se acumulam as contas com aluguel, água, luz, entre outras despesas básicas, causando muito desespero na classe.

“É de extrema penúria o que se vê hoje com os serviços parados. Gente passando fome, sem recursos, sem nenhuma opção para sobreviver, para levar alimentos aos seus familiares. Estamos engessados, sem poder recorrer a praticamente ninguém”, diz a presidente do Sisbisim (Sindicato dos Salões, Barbeiros, Cabeleireiros, Instituto de Beleza e Similares de Manaus), Antônia Moura de Souza.

Segundo a sindicalista, os dois sindicatos (o patronal e o de trabalhadores) decidiram se unir e levaram uma proposta ao governo do Amazonas para reabertura dos serviços até 31 de maio, mas até agora a categoria não teve um ‘feedback’ das reivindicações.

O pedido consiste em propor ao Estado a liberação das atividades para os estabelecimentos que seguem à risca as recomendações da saúde. Esses cuidados se traduzem em não aglomerações, uso efetivo de EPIs, máscara, desinfecção de instrumentos, cadeiras, com álcool gel e outros produtos que combatem fungos, vírus e bactérias. 

“Nossa expectativa é que o governador (Wilson Lima) avalie com carinho e se sensibilize com nossa proposta. Temos que voltar a trabalhar porque a situação está gravíssima. Já são praticamente quatro meses de paralisação dos serviços”, acrescenta Antônia Moura.

Ela disse que os proprietários de salões continuam pagando aluguel, água e luz, mesmo sem trabalhar. “A maioria dos donos desses estabelecimentos explora o negócio com imóveis alugados. Então, como podemos sobreviver dessa maneira? É muito difícil.”, questiona.

Justiça

No último dia 16, a empresária Mishelly Carrate Cunha teve o seu salão fechado ao ser flagrado por fiscais se preparando para reabrir o estabelecimento. Ela é proprietária do Sempre Bella Centro de Beleza Eireli, localizado na rua Rio Mar, no bairro Nossa Senhora das Graças.

Mishelly é filha da vereadora Glória Carrate (PL). Ela conta que decidiu reabrir o salão com base no decreto presidencial que autoriza a retomada dos serviços do segmento em todo o País. 

Segundo a empresária, fiscais ignoraram a decisão presidencial, seguindo o decreto municipal que proíbe o funcionamento de salões até 31 de maio em Manaus por conta  das medidas de prevenção ao novo coronavírus.

A empresária recorreu. Uma liminar judicial autorizou posteriormente, no dia 19 de maio, a reabertura do seu salão, contrariando as medidas do governo Jair Bolsonaro (sem partido).

Auxílio emergencial suspenso traz mais prejuízo

O presidente do Sinetheam (Sindicato dos Empregados em Turismo e Hospitalidade do Estado do Amazonas), Sebastião Deive Couto Braga, avalia que o decreto presidencial agravou ainda mais a situação ao excluir a categoria da segunda parcela do auxílio emergencial do governo federal, prevendo que as atividades do segmento fossem normalizadas em todo o País.

“O governo do Amazonas deveria ter assumido o pagamento desse auxílio após decidir em manter paralisados os serviços no setor, que esperamos que sejam retomados a partir de 1º de junho”, questionou. “Ninguém se preocupou (os dois governos) com a situação dos profissionais com o fim dessa ajuda, já que achavam que todos os Estados iriam aderir ao decreto”, acrescenta. 

Couto ressalta que o segmento movimenta muito dinheiro em Manaus e no Amazonas como um todo. “Os governos deveriam se preocupar mais com a beleza e a estética, afinal, é um setor que contribui muito para a economia”, afirma.

Ele questiona ainda os critérios que consideram o setor como um dos grandes riscos à população em termos de contágio. Para o sindicalista, as pessoas têm mais possibilidades de se contaminar em supermercados, farmácias, lojas e outros centros de compra, considerados como serviços essenciais. E que continuam operando.

“Nos supermercados, as pessoas pegam em tudo, muitos não usam máscara, negligenciando esses cuidados básicos contra o coronavírus. Nos salões de beleza, não. Podemos agendar o atendimento e fazer a desinfecção do local e dos instrumentos antes mesmo dos clientes chegarem”, diz.  

Força de trabalho 

Segundo números do Sisbisim, o segmento reúne hoje pelo menos 6,3 mil salões cadastrados em todo o Amazonas, sem contar os que operam na clandestinidade. Levando-se em conta que cada salão cumpre a exigência oficial de operar com, no mínimo, cinco profissionais, o total de trabalhadores supera em até três vezes ou mais os estabelecimentos patronais.

Recentemente, uma lei criou o profissional parceiro que trabalha como MEI (microempreendedor individual). Esse tipo de trabalhador pode exercer atividades dentro de salões e também em domicílios, prática que começou a ser mais adotada principalmente neste momento de pandemia do novo coronavírus. 

De acordo com Antônia Moura, o trabalho em domicílio feito pelos MEIs está causando conflito, acirrando os ânimos, em prejuízo da maioria dos trabalhadores da categoria. “Devemos levar em consideração que nem todo profissional está habilitado para trabalhar dessa maneira”, acrescenta. “É uma desvantagem para muitos que estão impedidos de trabalhar”.

Couto Braga não compartilha, porém, dessa mesma impressão. Para ele, um profissional do segmento com MEI tem liberdade para trabalhar como um enfermeiro, por exemplo, que prefere prestar serviço só em domicílios. “É muito opcional. É uma preferência de cada trabalhador, indistintamente”, afirma.

Em geral, os profissionais parceiros (com MEIs) costumam dividir custos de insumos e recebem comissões, que são negociadas com os patrões.

Nessa época de crise, alguns empresários também estão prestando serviços para bancar despesas básicas com salões fechados, inoperantes. “É uma forma de ganhar dinheiro para cumprir nossos compromissos durante essa época de pandemia”, diz Antônia Moura.

Fonte: Marcelo Peres

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