Serviços no Amazonas fecha 2023 com desempenho compatível com anos de pandemia de Covid-19 

Motor do PIB brasileiro, o setor de serviços fechou 2023 praticamente estagnado no Amazonas. O crescimento não passou de 1,1% em âmbito estadual, sendo esse o resultado mais baixo desde 2020 (+0,6%) –o primeiro ano da pandemia. O desempenho correspondeu também a menos da metade da taxa de expansão atingida pela média nacional, que se beneficiou das altas de quatro de seus segmentos, com destaque para os serviços prestados às famílias. Ainda assim, esse também foi o quinto ano consecutivo para o Estado, que conseguiu avançar mesmo nos anos iniciais da crise sanitária, um feito não atingido pelo restante do país.

Os serviços do Amazonas deram uma arrancada em dezembro, após dois meses consecutivos de quedas. A atividade avançou 2% em relação ao mês anterior, que teve um dia útil a menos, mas em ritmo insuficiente para suplantar as perdas acumuladas em novembro (-2,2%) e outubro (-2,3%). O confronto com o mesmo mês de 2022, contudo, indicou retração de 3,8%, o segundo maior tombo do ano, logo após outubro (-4,3%). Na média brasileira, o setor cresceu 0,3% e encolheu 0,2%, respectivamente. Em ambos os casos, foi favorecido principalmente pelos serviços de alimentação e hospedagem, em detrimento do transporte aéreo.

Os dados são da PMS (Pesquisa Mensal de Serviços), e foram divulgados pelo IBGE, nesta sexta (9). Em comunicado à imprensa, a CNC frisou que o setor foi beneficiado “pela desaceleração dos preços livres”, e acrescenta que a chegada da alta temporada para o turismo contribui para a revitalização da atividade. A estimativa é que o turismo deve faturar R$ 169 bilhões entre novembro de 2023 e fevereiro de 2024, com alta real de 11%. As projeções da entidade para os serviços em geral, e para o turismo em particular, são de altas respectivas de 2,1% e 1,8%, em 2024.

Estados e atividades

O IPCA menos ameno de dezembro (+0,56%) não foi suficiente para tirar as vendas do vermelho, e o descolamento da receita nominal se manteve em relação ao volume de serviços. A variação mensal do faturamento a preços correntes avançou 2,7% e suplantou a perda do mês anterior (-1,2%). Já a comparação com dezembro de 2022 foi no sentido inverso ao resultado efetivo das vendas e avançou 3,8%. O acumulado do ano (+5,3%) também veio bem mais robusto. O Estado ficou atrás da média nacional (0%, +2,8 e +6,4%) em quase todas as comparações.

Com a alta de 2% perante novembro, o Amazonas disparou da 24ª para a oitava posição do ranking, em meio a oito resultados negativos. A lista foi liderada por Sergipe (+9,8%) e Acre (+5,7%), enquanto os piores resultados ficaram em Tocantins (-6,4%) e Mato Grosso do Sul (-4,1%). Em relação ao mesmo mês de 2022, o Estado (-3,8%) despencou para a 25ª colocação, em um rol encabeçado por Piauí (15,6%) e encerrado por Roraima (-9,7%). No ranking do acumulado do ano (+1,4%), só foi melhor do que São Paulo (-1,8%) e Amapá (-2,2%) –em um rol liderado pelo Mato Grosso (+16,4%).

O IBGE-AM reforça que, em virtude do tamanho da amostragem, a pesquisa no Amazonas ainda não apresenta os dados desagregados por segmentos. No âmbito nacional, o progresso anual veio de quatro das cinco atividades. Os ganhos vieram dos serviços prestados às famílias (+4,7%); serviços profissionais, administrativos e complementares (+3,7%); informação e comunicação (+3,4%); e transportes (+1,5%). O dado negativo veio dos “outros serviços” (-1,8%). Correndo por fora, as atividades turísticas escalaram 6,9%.

“Ano difícil”

O chefe de disseminação de informações do IBGE-AM, Luan da Silva Rezende, reforça que 2023 foi um “ano difícil” para os serviços do Amazonas, embora o dado de dezembro tenha fechado um pouco mais satisfatório. “Depois de fechar 2022 com alta de 8,9%, a atividade alcançou apenas 1,1% de crescimento. Embora o baixo desempenho da atividade em 2023 tenha ocorrido em todo país, o impacto foi maior no Amazonas.

O pesquisador ressalta que, no curto prazo, as notícias tendem a não ser positivas para o setor. “A média móvel trimestral apurada em dezembro está negativa em quase 1%, demonstrando que a atividade vem mantendo vendas em faixa negativa nos últimos meses. Isso deixa pouca expectativa de crescimento para a próxima divulgação”, avisou.

Em texto postado no site da Agência de Notícias IBGE, o gerente da pesquisa, Rodrigo Lobo, assinalou que a última vez em que os serviços haviam crescido por três anos consecutivos em todo o país foi no período de 2012 a 2014. E acrescenta que, entre 2021 a 2023, o setor alcançou expansão de 22,9%, embora a alta de 2023 (+2,3%) tenha sido a menor. “Em 2021 e 2022, houve uma construção de elevada base de comparação, explicada pela retomada do setor após o isolamento da pandemia, mas sobretudo pelos ganhos extraordinários oriundos dos segmentos de serviços de tecnologia da informação e transporte de cargas. Dessa forma, apresentar expansão sobre dois anos que cresceram substancialmente é algo relevante”, amenizou.

Fator crédito

O presidente em exercício da Fecomércio-AM, Aderson Frota, reforça que o setor de serviços é o que vem apresentando melhores resultados em empregos e vendas. Mas, ressalva que 2022 foi um ano “muito conturbado” e que o esboço de recuperação em 2023 não deixou de ser impactado por diversos obstáculos, com destaque para a vazante recorde e seus efeitos sobre preços de fretes e prazos de chegada de mercadorias em Manaus.

“Tivemos alguns setores completamente desabastecidos de peças e ferramentas especiais, entre outros itens. Os prazos quintuplicaram. Antigamente, tínhamos um excedente de mercadorias com 30, 35 dias, mas passamos a operar com 120, 150 dias. Isso repercute no emprego e no desempenho do setor. E o consumidor estava combalido pelos juros, negativado e desmotivado. Agora, o setor de serviços ainda mostra um vigor respeitável, e tem potencial muito grande. A economia está em mudança acelerada”, ponderou. 

Já a ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, considera que o resultado do setor de serviços do Amazonas em 2023 mostra a dificuldade da retomada do crescimento econômico sustentado. “No cenário estadual, o resultado reflete um impacto direto da estiagem severa enfrentada pelo Amazonas. Outras variáveis relevantes que contribuíram para este resultado são a informalidade persistente, o desemprego estrutural, e a inadimplência elevada, bem como a renda média baixa paga pelo trabalho no âmbito estadual”, avaliou.

A economista ressalta que o setor, que representa um dos maiores quantitativos de emprego e renda no Estado, sendo responsável por fomentar a circulação de moeda no Estado, tende a mostrar números melhores em 2024. “Para os próximos meses a expectativa é de um cenário de recuperação mediante datas comemorativas e festas populares, mas tal resultado depende da recuperação macroeconômica e da retomada da confiança do consumidor”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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