27 de maio de 2022

Série sobre Celso Daniel mira isenção impossível

Logo no preâmbulo de seu primeiro episódio, a série documental “O Caso Celso Daniel” traz uma fala do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Toda vez que vai chegando perto de um ano eleitoral, esse caso volta à tona”, diz o petista, a esta altura da corrida eleitoral de 2022 favorito para retomar a cadeira que ocupou de 2003 a 2010.

Se não foi intencional, acabou soando com um “hedge” da produção da Globoplay que estreia seus dois primeiros episódios nesta semana, com outras três levas iguais nas semanas seguintes.

Então prefeito de Santo André, no ABC paulista, Celso Daniel era estrela em ascensão do PT e coordenava o programa de governo da campanha vitoriosa de Lula ao Alvorada em 2002. Em 18 de janeiro daquele ano, contudo, foi sequestrado.

Seu corpo crivado de balas foi encontrado dois dias depois, mas o cadáver político permanece insepulto até hoje. Não de forma casual, o presidente Jair Bolsonaro, do PL, sempre que pode lembra as circunstâncias nebulosas do caso.

De acordo com o PT, seguindo o que decidiu a Justiça a partir da conclusão policial, Daniel morreu porque os sequestradores se apavoraram ao descobrir o quilate da vítima. Para adversários do partido, baseados nas suspeitas do Ministério Público, foi uma queima de arquivo para encobrir corrupção.

O problema para os produtores da minuciosa produção, que entrevistou mais de 30 figuras-chave do caso, é que o “hedge” é faca de dois gumes. É inescapável o questionamento que será feito acerca do “timing” do lançamento, até porque nenhuma tentativa de reabrir o caso levou a mudança nas conclusões judiciais.

De forma interessante, “Caso Celso Daniel” remete à polarização da nossa era das redes sociais. Mesmo sem o WhatsApp, circulavam teorias de todos os tipos. O próprio PT não era inocente, politizando ao máximo o crime para fustigar o então governador de São Paulo –o partido havia perdido há pouco outro expoente no estado assassinado, o prefeito Toninho do PT, de Campinas.

Aí vai uma ironia. Ele era um jovem Geraldo Alckmin, hoje o preferido de Lula para ocupar o lugar de vice em sua chapa. A série recupera o então tucano trocando farpas pesadas com figuras como José Dirceu, o então todo-poderoso presidente do PT e hoje condenado por corrupção. O próprio Lula diz que “falta comando” ao estado.

Quando a apuração adernou para suspeitas de corrupção pelo Ministério Público, num embate com polícias que se viu repetido várias vezes desde então, o PT passou a defender a ideia de crime comum. Essa contradição é explorada na obra, que mostra trapalhadas e fake news, à época conhecidas apenas como mentiras.

Dessa forma, é o fato de ser um ano eleitoral que justifica a revisão do episódio em seu 20º aniversário. Afinal de contas, a morte de Daniel esteve na fundação do edifício de governo erigido pelo PT sob Lula, no mínimo como um lembrete das vicissitudes do poder.

Não se trata de dizer que ele foi morto para evitar que os “três mosqueteiros”, seus aliados na gestão de Santo André, tivessem um esquema de cobrança de propina de donos de empresas de ônibus revelado. Mas a lembrança do esquema em si, que levou inclusive à condenação dos envolvidos.

Por tudo já apurado, não é teoria conspiratória ver um fio condutor entre as práticas incipientes nas prefeituras petistas paulistas e o que se veria depois -mensalão em 2005, petrolão em 2014.

Este repórter pôde assistir a cinco dos oito episódios, ainda em finalização. Neles, as falas realmente centrais são de Gilberto Carvalho, que foi secretário de Daniel e depois um dos mais influentes nomes da cozinha do Planalto de Lula, onde foi secretário-geral da Presidência.

Não há novidade nas acusações a ele e na sua defesa, mas a candura com que ele admite que “possivelmente tinha prática de caixa dois” no caso e a usual explicação petista que, se o desvio for para o partido, é parte do jogo político encerra boa parte do incômodo que o PT sente até hoje.

Claro, a culpa vai para um dos oito personagens da história que morreram depois do assassinato, mais um elemento que faz a festa dos conspiratórios. No caso, Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, que era o faz-tudo de Daniel, apontado como operador do esquema de corrupção.

Ele chegou a ser preso como mandante do crime, mas nunca foi julgado por isso, apesar de haver estranhezas acerca de seu comportamento na fatídica noite. Foi condenado por corrupção em 2015, morrendo de câncer no ano seguinte.

A série aborda a insinuação de que ele era amante de Daniel de forma equivocada, com uma cena de gosto duvidoso na qual o jantar que antecedeu o sequestro ocorre ao som de uma trilha romântica.

Do ponto de vista técnico, lacunas narrativas são resolvidas com atores ou com trechos de animação, com efeito regular. Problema maior é Daniel em si ser objeto de hagiografia, inocente dos malfeitos à sua volta.

Mas a série brilha na reconstituição de arquivos de imagens e na abordagem de diversos ângulos do caso. No geral, os argumentos feitos de lado a lado pesam mais favoravelmente àqueles que veem um crime comum.

Mas isso, ao fim, não quer dizer nada na dita guerra política, seja em 2002, seja 20 anos depois.

O CASO CELSO DANIEL

Quando: Estreia nesta quinta (27)

Onde: Globoplay

Produção: Brasil, 2022

Direção: Marcos Jorge

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