Sem referências. Até quando?

Com a saída do novo ex-ministro da Saúde, no caos da pandemia, que não conseguiu convencer o presidente Jair Bolsonaro da necessária prudência científica para lidar com o inimigo invisível; considerando o colapso no Amazonas do precário sistema público de saúde, arrasado, há décadas, por maus caminhos e por gestores descompromissados com nosso povo, RESOLVI, sem referências nacional, estadual e municipal, atender o pedido de minha mãe Abigail, que me pegava nas mãos, com força, para atravessar a rua: “filho, mais vale perder um minuto da sua vida, do que perder a sua vida em um minuto.”

Nunca as palavras sábias de minha mãe foram tão importantes ao contexto do momento.

Do site opportunityinsights.org, recebi uma mensagem do amigo Ronaldo Santos, que acompanha a pandemia nos Estados Unidos da América, contendo dados sobre a economia de dois Estados daquele país: Minnesota, que aderiu ao lockdown; e Dakota do Sul, onde o governador reverberava “eu acredito em nossas liberdades”.

O quadro comparativo apresentava o comportamento dos gastos dos consumidores americanos entre março e abril de 2020. Enquanto naquele país, a queda média do consumo foi de menos 20,7%; em Minnesota, menos 19,9%; e, em Dakota do Sul, menos 23,8%.

Concordo em grau, número e gênero com o comentário feito pelo pesquisador amigo: “o gasto dos consumidores caiu quase a mesma coisa em ambos os estados. Não adianta abrir a economia com vírus em alta: as pessoas terão medo de sair e gastar. ”

Me assombrou o gesto da Assembleia Legislativa do Amazonas que aprovou a reabertura dos templos e igrejas. Sob quais dados científicos basearam suas escolhas? A quem estão representando?

Me desaponta, mais uma vez, o comportamento do presidente da República, paladino da medicina, ao confrontar especialistas e a lógica dos números, cada vez mais densos com a indiferença de parte de seu governo.

Como brincou um amigo nas redes sociais, o ministro não ficou, sequer, para receber o salário devido pelo primeiro mês de trabalho.

Tenho que fazer meu mea culpa: ajudei a eleger Bolsonaro que não assumiu o papel de presidente. Sua ‘administração’ chega ao fundo do poço em menos de 18 meses.

E leva consigo, seus pares governamentais, nosso patrimônio – as forças armadas – que, além das funções da defesa do país, hoje, administram o passivo da seguridade social nacional, da segurança pública, da política ambiental… entre outros espaços do serviço público, antes, partidarizados, hoje, militarizados.

Até quando?

Não há espaço para estado de exceção.

Mas, há para o Brasil continental, democrático de direito, uma república que tem estados e municípios que vêm sobrevivendo ao pacto federativo com as atenções voltadas para a pandemia.

Infelizmente, enquanto milhões de brasileiros ainda aguardam ‘a análise’ do Governo Federal do seu pedido de R$600,00 para sobreviver, ainda esperamos propagandas públicas da União demonstrando a gravidade do momento, ainda mais quando, em São Paulo, epicentro nacional da pandemia, dados das autoridades locais dão conta que 95% dos leitos paulistas privados já se encontram ocupados. Imagine os resultados catastróficos se houver o colapso na região mais populosa do Brasil. Faltam respiradores comprados, importados e não entregues.

Aos administradores públicos locais aconselho o acompanhamento de um projeto de excelência em desenvolvimento por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas – UFAM, coordenado pelo Prof. Dr. Henrique Pereira: Atlas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Amazonas (www.atlasodsamazonas.ufam.edu.br).

Acompanhei a apresentação, no último dia 13 de maio de 2020, da live com os resultados do Boletim Especial Covid-19 nº05 do referido projeto em funcionamento no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Sustentabilidade na Amazônia – PPG-CASA desde 2019.

Duas de suas conclusões me chamaram a atenção:

Não há correlação entre as condições socioeconômicas e o agravamento da pandemia em municípios do Amazonas. Ou seja, estão morrendo ricos e pobres de covid-19; a doença não está restrita aos nossos bolsões de pobreza locais e regionais.

Há uma forte correlação entre a gravidade da situação de municípios e a geografia política no interior do Amazonas.

Para além da compreensão epidemiológica da pandemia, os pesquisadores concluem, e os dados acreditam, que o Covid-19 é também uma doença comportamental, uma doença social.

Na estatística das informações estudadas, os pesquisadores da UFAM constatam maior impacto da pandemia em municípios que apresentaram maiores quantidades de votos nulos, brancos e abstenções, considerando os resultados da última eleição presidencial de 2018.

Tal ‘alheamento eleitoral’, entendido por Paola Ramos como ‘o comportamento de distanciamento da legitimidade do sistema representativo’ na teoria política contemporânea, estaria influenciando o padrão de dispersão da doença nos municípios do interior do Amazonas.

Ao perdermos, mais uma vez, nossas referências de autoridade de saúde federal, e, “sendo a dispersão e intensidade da pandemia COVID-19 dependentes do comportamento dos indivíduos e dos grupos de indivíduos em sociedade”, conforme concluiu o Prof. Dr. Henrique Pereira, acreditar no gestor, no sistema e nas instituições faz e fará toda a diferença, ou nossa indiferença.

O presidente Bolsonaro parece continuar governando indiferente. Até quando? 

*Daniel Borges Nava é geólogo, analista ambiental e professor doutor em Ciências Ambientais e Sustentabilidade na Amazônia

Fonte: Daniel Nava

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