Seleção ou desperdício?

Quantas vezes já vimos reportagens sobre o desperdício de grãos na hora da colheita? Nos últimos 20 anos deve ter sido feita uma a cada três anos por emissora de televisão.
“Com as frutas que apodrecem nas matas da Amazônia, poderíamos saciar a fome do”. Também já ouvimos por ai.
Quantas vezes ouvimos falar em desperdício nos restaurantes? Nas feiras? Nos supermercados? Como lamentamos quando vemos alimentos se deteriorando, por falta de consumo, ou falhas na conservação.
Antigos funcionários da já extinta revista Manchete contam que o senhor Adolfo Bloch, proprietário do grupo, por vezes passava pelo restaurante da empresa e determinava: “Não há limite na comida, mas não se permite desperdício”.
São exemplos que mostram que, quando o assunto é alimento, todo cuidado é pouco. Todo desperdício dói na alma, quando não no bolso, porque lá no fundo se sabe que alguém teria consumido aquilo com a avidez ditada pela fome.
Na seleção de alimentos in natura feitos nas feiras e supermercados, um percentual vai para o lixo. Outro tanto seguem o mesmo destino na revisão dos produtos expostos para venda, perecíveis, no final do dia ou no início da manhã. A dona de casa, ao preparar um almoço ou jantar, faz nova seleção e muita coisa vai novamente pro lixo. Quem paga tudo isso?
Há restaurantes que fazem um cálculo apurado para ver se conseguem diminuir o desperdício e assim aumentar os ganhos ou transferir para o cliente a economia alcançada. O desperdício no preparo, o desperdício das sobras que não podem mais ser consumidas.

Há restaurantes que preparam peixe que afirmam mandar pra mesa um pouco mais de um terço do que compram. O nobre tambaqui rende menos que a metade em peso, quando tem um tamanho em torno de dez quilos ou mais. Quando ele é menor que isso a perda é ainda maior.
Realmente podemos chamar essas “quebras” de desperdício? Seria justo submeter um cliente a um risco porque a seleção do alimento não ter sido perfeita? Alguém iria a um restaurante pedir uma caldeirada de cabeça de tambaqui a não ser que o preço fosse irrisório?
Os frigoríficos que abatem bois, suínos ou aves estão engajados na luta pelo aproveitamento 100% dos animais. Mesmo sabendo que é praticamente impossível, não deixam de perseguir essa meta. Lembram quando a gente só conseguia comprar galinha inteira? Quando se escolhia o açougue pela habilidade de seu retaliador de carne? Quanta discussão pelo tamanho exato da picanha? Hoje as carnes viajam o Brasil todo, e às vezes vem da Argentina já totalmente fracionadas, acondicionadas individualmente, congeladas ou resfriadas com toda segurança. A venda de frango inteiro ainda resiste. Até quando, não se sabe.
E as sobras? O desperdício? A carne que fica nos ossos porque, na desossa, não se consegue limpar perfeitamente? As peles que dividem os músculos? E o próprio osso?
Os embutidos (salsichas, lingüiças, mortadelas e salames) são produzidos em sua maioria com a chamada CMS, ou Carne Mecanicamente Separada, que, embora no ato da produção tenha uma aparência pouco convidativa, se torna um alimento saudável e gostoso quando pronto. Com isso atingimos o milagre de comprar embutidos por preços inferiores ao da carne da qual são feitas. Os ossos são moídos e voltam a compor a ração que engordará outros animais.
Voltaremos, em outra oportunidade para falar de outros desperdícios.

Luiz Lauschner é escritor e empresário.
E-mail: [email protected]
www.luizlauschner.prosaeverso.net

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