Saída de Sergio Moro deixa bancada dividida sobre impactos

A saída repentina e tempestuosa do ministro da Justiça, Sergio Moro, oficializada nesta sexta (24), abriu mais uma crise política em Brasília. Especialmente porque o ex-juiz desceu da rampa do Planalto atirando, no mesmo dia em que o decreto de exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, foi publicado no Diário Oficial da União.

Em seu pronunciamento, o ex-juiz e ex-ministro apontou condutas do presidente que, caso comprovadas, podem configurar crimes comuns ou de responsabilidade, segundo juristas. A OAB considerou as revelações “muito graves” e solicitou análise da Comissão de Estudos Constitucionais da entidade para apurar prática de crimes de responsabilidade. Horas depois, o próprio presidente fez um pronunciamento público apresentando seu ponto de vista da questão.  

Parlamentares da bancada amazonense no Congresso ouvidos pelo Jornal do Commercio se dividem quanto aos rumos da política, a partir da saída tão ruidosa de um ministro popular quanto Moro, que trazia algum apoio de segmentos importantes do eleitorado nacional. Mais ainda, pelo fato de o discurso de Moro ter sido tão duro. A maioria, contudo, é cautelosa em relação a possibilidades de afastamento ou quebras institucionais.

“O presidente Bolsonaro, com certeza, deve ter concluído que está forte o suficiente para fazer hoje o que pensava fazer amanhã. Torço para que ele tenha firmeza suficiente para comandar o barco nessa travessia sob tempestade”, declarou o senador Plínio Valério (PSDB-AM), em resposta ao Jornal do Commercio.

O político concorda a saída de Moro faz parte de um processo de quebra do núcleo duro do governo, precedido pela demissão do ministro da Saúde, Henrique Mandetta, do “escanteio” do ministro da Economia, Paulo Guedes – ambos com larga aprovação em setores estratégicos da sociedade brasileira. Mas, disse que não vê no paralelo aumento de militares na Esplanada dos Ministérios, um motivo de preocupações.   

“Não vislumbro clima para golpe militar. A comunidade internacional não aceitaria. E os próprios militares em sua grande maioria não querem isso. Vejo sim, motivos consistentes para um pedido de impeachment, mas não vejo como isso poderia ser agora, durante a pandemia. Até porque essa saída do ministro Moro só teve seu primeiro capítulo”, opinou.

“Motivos fortes”

Já o deputado federal José Ricardo (PT-AM) disse que o governo Bolsonaro “está desmoronando e derretendo”, dada a saída de ministros alinhados com a classe média brasileira, como Mandetta e o próprio Moro, embora avalie que o ex-ministro da Justiça “pouco entendia de segurança pública” e saliente seu silêncio em relação a outras questões importantes da alçada da pasta, a exemplo das recentes ameaças ao STF e ao Congresso.   

Em relação a um eventual impeachment, o parlamentar considera que a presença do presidente da República no comício antidemocrático realizado neste domingo (19) já seria um motivo forte, e que as denúncias do ex-ministro reforçam essa tese. Justamente no momento em que o presidente se aproxima de políticos do chamado “Centrão” brasileiro. 

“Lembro que o presidente Bolsonaro, quando assumiu o cargo em que está, disse que não faria negociações políticas de troca de cargos por apoio do seu governo. Parece que mudou de ideia, lembrando que tem denúncia de que ele comprou os votos para aprovar a reforma da previdência. O partido vai debater essa questão do impeachment, mas já há elementos para essa propositura”, adiantou. 

Hora errada

Já o deputado federal Sidney Leite (PSD-AM), salientou ao Jornal do Commercio que as denúncias apresentadas pelo agora ex-ministro Sérgio Moro são “muito graves” e precisam ser devidamente apuradas pelo Congresso, para que um eventual pedido de afastamento do presidente, caso necessário, possa ser embasado juridicamente – e não apenas politicamente. Mas, não deixou de reforçar que esta nova crise vem em hora errada. 

“Antes de qualquer pedido de impeachment é preciso apurar o que foi falado pelo ex-ministro da justiça. Agora, lamento profundamente essa situação, porque é tudo o que o Brasil não precisa. Estamos enfrentando uma crise na saúde e na economia por conta desta pandemia, e enfrentar agora uma crise no governo, é algo bem complicado para o momento”, lamentou.

O deputado lembra que a democracia, com a escolha direta dos representantes nas instâncias do poder, é um exercício novo pós-Ditadura Militar, e entende que as instituições políticas do país estão fortalecidas e não oferecem motivo para temor. 

“É óbvio que a saída do ministro causa um político grande, na esfera da gestão o país. Ele sai fazendo acusações graves e estava no comando do Ministério da Justiça, que tem as informações sobre a Polícia Federal, órgão que foi o pivô de seu pedido de exoneração. Isso é muito grave e sério e, com certeza, mexe com a estabilidade política do país”, destacou.     

“Verdadeiro maestro”

Procurado pelo Jornal do Commercio para falar sobre os motivos da saída do ministro Moro e os eventuais desdobramentos da crise política aberta por ela, o deputado federal Delegado Pablo (PSL-AM) não respondeu, até o fechamento desta matéria. Em vídeo distribuído por sua assessoria de imprensa, o parlamentar apenas lamentou o fato.

“Deixo consignado o meu lamento pela saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça. Como um verdadeiro maestro, combateu a criminalidade e a corrupção no Brasil. Mantenho o meu compromisso com a autonomia e a independência da Polícia Federal nas investigações que resgataram o orgulho dos brasileiros”, finalizou.

Fonte: Marco Dassori

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