9 de maio de 2021

A rua Rui Barbosa, de apenas 2 quarteirões e uma das mais antigas de Manaus, tem início na Avenida Sete de Setembro, do lado do Colégio Amazonense Dom Pedro II, atravessando a rua Henrique Martins e terminando na rua Saldanha Marinho. Até ser conhecida pelo nome atual, teve outros cinco.

Seu primeiro nome foi rua do Curral ou do Curral das Éguas, nomenclatura de origem popular que “lhe adveio da concentração de mulheres erradas (que se prostituíam)” (JORNAL DO COMÉRCIO, 17/06/1976) naquela parte da cidade conhecida como bairro da República, fronteiro ao bairro do Espírito Santo, desde os primeiros tempos da Província. Nela ficava, na esquina com a rua da Palma (Saldanha Marinho), a tipografia do jornal Amazonas; o já desaparecido casarão de Pedro Henriques Cordeiro; as tabernas de Joaquim das Neves Garcia, Sergio Rodrigues Pessoa e Antônio Sarmento Pereira (AMAZONAS, 27/07/1881); os alugadores de carroça José Castor Juanati e Manuel Gonçalves da Costa; e a Torrefação de Café de José Ferreira da Silva (ALMANACH DE 1884). Por proposta do vereador Antônio Davi de Vasconcelos Canavarro, a Câmara Municipal, em 31 de julho de 1867, mudou seu nome para Rua da União.

Ela conservou esse nome até 1890. Em 11 de novembro daquele ano, o Superintendente Municipal Silva Teles oficializou o projeto que a batizava com o nome de rua Campos Sales. Tratava-se de uma homenagem ao político paulista Manuel Ferraz de Campos Sales (1841-1913), futuro Presidente da República (1898-1902) e, na época, Ministro da Justiça. Seis anos depois, em 1896, nova nomenclatura lhe é dada. A via passa a se chamar rua Afonso de Carvalho, em referência ao Coronel da Guarda Nacional e político Raimundo Afonso de Carvalho (1860-?), que em 1907, após a renúncia de Constantino Nery, assumiu o Governo do Estado. Sua antiga residência, construída entre 1907 e 1908, entre as ruas Ramos Ferreira e Ferreira Pena, existe até os dias de hoje. Já nesse período, seus principais estabelecimentos eram o Colégio Santa Rita, os hotéis Faneca e dos Artistas e a Mercearia Vinagre.

Por volta de 1910, nova denominação, dessa vez lembrando um amazonense. Jorge de Moraes (1878-1947) nasceu em Manaus, indo jovem para a Bahia, onde cursou Medicina. Posteriormente, na França, aprofundou seus estudos, especializando-se como clínico geral e médico cirurgião. De volta a Manaus, atuou como cirurgião da Santa Casa de Misericórdia e da Beneficente Portuguesa, médico do Instituto Benjamin Constant, membro da Comissão de Saneamento e médico legista. Oferecia em jornais os serviços de “curativos para moléstias do útero, operações, partos e syphilis” (JORNAL DO COMÉRCIO, 19/01/1910). Entra na política em 1905, sendo eleito Deputado Federal. Em 1909 é eleito Senador pelo Amazonas, renunciando em 1911 para assumir a Prefeitura de Manaus, posto em que ficou até 1913, sendo o primeiro Prefeito eleito da capital. Anteriormente, em 1910, foi o responsável por fazer os agradecimentos ao Presidente do Conselho de Ministros da França George Clemenceau, em visita a capital federal. Em 1927 é mais uma vez eleito Deputado Federal, ficando no cargo até 1930, quando teve o mandato interrompido pela Revolução de 1930. Jorge de Moraes assumiu a Prefeitura em um período marcado pela crise econômica. O geógrafo, professor e historiador Agnello Bittencourt assim descreve sua administração:

O ex-senador apenas pode realizar pequenos empreendimentos, arrancados ao magro orçamento do município. Terminada sua gestão, o prefeito estava cansado e irritado, coisa costumeira na sua psicologia. […] Quem quiser melhor conhecer as realizações municipais do triênio administrativo do Dr. Jorge de Moraes, procure o excelente “Anuário de Manaus para 1913-1914”, organizado por Heitor de Figueiredo – 1913 – Lisboa” (BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias: Vultos do Passado. Rio de Janeiro: Conquista, 1973, p. 293).

Jorge de Moraes morava nessa rua, ao que se sabe, desde os tempos em que era chamada Afonso de Carvalho. Seu palacete, com um belo monograma, localizado no n° 177, quase no fim da rua, resiste às mudanças do entorno, puramente comercial e quase destituído de seu patrimônio histórico edificado, cujos últimos exemplares, em sua maioria, foram transformados em óticas, algumas com várias décadas de atividades naquela artéria.

Em 1930, essa rua deixava de se chamar Jorge de Moraes para, até os dias de hoje, ser conhecida como Rui Barbosa (1849-1923), uma homenagem ao famoso jurista, escritor e político soteropolitano. Tal mudança não foi aceita de imediato, ecoando insatisfações décadas mais tarde. O escritor João Chrysostomo de Oliveira, em artigo publicado no Jornal do Comércio, escreveu que “a homenagem ao ilustre estadista baiano é muito justa mas injustíssima a substituição do nome de Jorge de Moraes pelo da “Águia de Aya”. Ele chegou a pedir que a Câmara Municipal de Manaus restaurasse “[…] o nome de Jorge de Moraes para a rua da sua antiga residência”, batizando com o nome Rui Barbosa a Avenida Tarumã ou “[…] outra via mais conveniente” (JORNAL DO COMÉRCIO, 08/08/1993). De acordo com o historiador Mário Ypiranga Monteiro, em seu Roteiro Histórico de Manaus, a rua Rui Barbosa “foi das poucas ruas que findaram em ser beneficiadas com asfalto, ainda podendo ver-se as paralelas de aço dos trilhos de bondes” (MONTEIRO, Mário Ypiranga. Roteiro Histórico de Manaus. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1998, p. 615).

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