Quando tudo voltar ao normal, vale conhecer a Rota das Missões, no Rio Grande do Sul, algo muito especial e importante para quem quer descortinar as raízes da formação da América. São mais de dois mil anos da presença dos Guarani e quatrocentos anos da entrada dos jesuítas, que vieram da Europa rumo ao desconhecido para levar a fé cristã aos nativos daquelas terras, a chamada conquista espiritual.

Mergulhar no mundo missioneiro é poder andar por três países, Brasil, Argentina e Paraguai, nas fronteiras do Mercosul, visitando entre outros, sete Patrimônios Culturais da Humanidade.

A Região das Missões é fundamental para compreender as raízes do sul do Brasil e da América Latina, se transformando numa verdadeira viagem no tempo. É conhecer uma região cheia de elementos singulares, que devem ser vivenciados em toda sua simplicidade e intensidade, passando pelos sabores e aromas, além da arte e do artesanato que valorizam a história.

E um dos principais triunfos da humanidade ocorreu entre os anos 1609 e 1768, quando foram criadas as Missões Jesuíticas Guaranis. Esta república modelo foi exaltada na Europa por Voltaire e Montesquieu, filósofos do Iluminismo, como a realização da utopia do Cristianismo – A Terra sem Males.

Tendo a religião como a razão para a fundação das chamadas reduções e com a intenção de catequizar os índios, os jesuítas ofereceram ensinamentos diversos voltados à cristianização e sobrevivência – como plantação, manejo de animais e muito mais – criaram uma comunidade que conheceu a organização, o sentimento de união, o compromisso de aperfeiçoamento, a ideia de coletividade que tornava tudo comum e abundante, chegando mesmo a conquistar excedentes que eram vendidos em outras regiões da América e na Europa.

Pelo Tratado de Tordesilhas, de 1494, todas as terras da então chamada Província Jesuítica pertenciam à coroa espanhola. Lá conviveram 30 povos, por 160 anos, chegando a agrupar até 100 mil indígenas em torno de uma sociedade altamente desenvolvida – uma experiência única no mundo até então e, provavelmente até hoje.

Em 1750, porém, com o Tratado de Madri, para a fixação da fronteira entre as terras de Portugal e Espanha, fica decidida a troca do território dos sete Povos das Missões pela Colônia de Sacramento, passando a pertencer a Portugal, devendo os índios aldeados abandonar as reduções. Esse fato desencadeou a Guerra Guaranítica, e pela imensa diferença de armamento, os índios foram derrotados.

O golpe final que levou o projeto ao extermínio foi a expulsão dos jesuítas das terras de domínio espanhol, em 1768, passando os povos a serem governados pela administração colonial espanhola e, a partir de 1801, pela administração portuguesa, iniciando-se a decadência dos aldeamentos.

Hoje, o povo missioneiro é representado por uma mistura de raças, permitindo uma riqueza de aspectos em todas as manifestações culturais e, na cidade de São Miguel, ainda resiste diariamente, ao entardecer, o imperdível espetáculo Som e Luz, contando a saga dos padres jesuítas e índios Guarani, onde se pode entender o nascimento, o desenvolvimento e a destruição de um povo – mais que isso, de um sonho.

*Augusto Bernardo Cecílio é auditor fiscal e professor

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