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Em meados da década de 1990, um novo projeto intelectual foi iniciado no Brasil

Há tempos, o Brasil carrega uma sina: a de ser um país intelectualmente atrasado. Não se trata de birra, síndrome de vira-lata ou coisa assim, mas de uma evidência já amplamente registrada na literatura nacional. Machado de Assis explicou magistralmente a boçalidade dos medalhões. Depois, Lima Barreto identificou as mazelas patológicas da República dos Bacharéis. Em tempos recentes, Nelson Rodrigues lançou toda a sua fúria contra a cultura da esperteza e ignorância. É de sua pena a frase tragicômica: “subdesenvolvimento não se improvisa: é uma obra de séculos”.

As denúncias sobre o atraso intelectual do brasileiro não param por aí. Ivan Lessa, Paulo Francis, Bruno Tolentino, Roberto Campos etc. viveram e morreram profundamente amargurados com o nosso destino. Não, o Brasil, na lente dessa turma, definitivamente não é o país do futuro…

Em meados da década de 1990, um novo projeto intelectual foi iniciado no Brasil. O jornalista e filósofo Olavo de Carvalho lança a sua polêmica trilogia e causa um verdadeiro estardalhaço no status quo dominado pela intelligentsia de esquerda. Em “A Nova Era e a Revolução Cultural”, “O Jardim das Aflições” e “O Imbecil Coletivo”, Olavo de Carvalho quixotescamente promove uma abertura cultural inimaginável. Não se tratou apenas de uma crítica contundente à hegemonia cultural de esquerda – algo que muitos já faziam em suas respectivas áreas –, mas de um árduo trabalho de educação para a formação de uma nova elite intelectual, uma intelligentsia conservadora preparada para a guerra cultural.

A invasão conservadora e liberal superou todas as expectativas iniciais. Autores, outrora totalmente desconhecidos do grande público, passaram a enfeitar as prateleiras das livrarias. E de todos os autores, Roger Scruton foi certamente um dos mais celebrados pela crítica.

Um filósofo pop star, especialista em estética e mundialmente conhecido, Scruton era até então um ilustre desconhecido no Brasil. Pois bem, a situação começou a mudar quando a atmosfera política do país assumiu um direcionamento mais à direita. Os protestos de rua e a nova intelectualidade emergente careciam de fontes nacionais e internacionais. Scruton preencheu exatamente esta lacuna.

A pena de Scruton é leve, didática e acessível. Ele escreve para o leitor comum. Qualquer pessoa consegue ler e compreender perfeitamente a sua obra. Aliás, como um bom conservador, Scruton pouco se preocupou com elucubrações teóricas – talento este deixado para os franceses asfixiados pelo pós-modernismo; ou norte-americanos devotos de uma metalinguagem. A sua preocupação principal era tentar entender a estrutura da realidade, ou seja, as questões concretas de nosso tempo. Deus e a Fé, relativismo moral, arte moderna, corrupção da linguagem, politicamente correto, globalização, meio ambiente etc. foram temas analisados por Scruton em sua ampla produção bibliográficas.

No entanto, a lacuna preenchida por Scruton, no caso brasileiro, foi fundamentalmente conceitual: dizer para o brasileiro comum o que é e o que não é conservadorismo. No imaginário local, muitas vezes apreendido nos bancos das escolas e faculdades, o conservador era retratado como um retrógado, um atávico, um reacionário. Em termos ideológicos, o conservador era claramente rotulado como um autoritário de plantão pronto para defender qualquer regime de força, que poderia ser um regime militar ou um Estado fascista. Nesse sentido, a imagem pintada pela ideologia do status quo foi duradora.

A obra de Scruton descortina esta percepção falseada a respeito do conservadorismo. O conceito de conservadorismo está muito bem explicado em dois trabalhos: “O Que é Conservadorismo” e “Como Ser um Conservador”. Para o filósofo britânico, conservadorismo consiste em herdar algo de bom, conservar a ordem e corrigir aquilo que é ruim. Vale dizer, somos herdeiros da civilização e temos por dever moral transmitir algo de bom para as gerações futuras. É a conservação dos valores que assegura a continuação da ordem social. Nesse sentido, o conservadorismo é, ainda nas palavras de Scruton, uma “atitude perante a vida”. 

Na sua essência, o século XX deu vida à era dos extremos e aos radicalismos ideológicos. Foi, antes de tudo, um século anticonservador. Ou seja, foi o século dos mais radicais experimentos ideológicos já vistos na historia do homem. Do comunismo ao nazismo, da eugenia ao abortismo, da degradação ambiental ao ambientalismo ortodoxo, da luta de classes ao identitarismo, dos campos de concentração aos campos de extermínio, de Auschwitz ao arquipélago Gulag. Um século que tentou recriar uma nova sociedade e um novo homem: enfim, quis tomar o céu de assalto.

Roger Scruton, Russell Kirk, Eric Voegelin, Michael Oakeshott foram os profetas do conservadorismo daquele século. Pregaram no deserto contra o vendaval das revoluções que atormentaram o mundo inteiro. Coincidência ou não, hoje são best-sellers no Brasil que, no início do século XXI, redescobriu as virtudes do conservadorismo como um eficaz remédio contra as tentações autoritárias. Scruton foi o último elo da tradição conservadora a ver e viver o impacto de sua obra em nosso país. Partiu sabendo que o seu legado chegara até os trópicos. Talvez esta seja a única vantagem de ser um país intelectualmente atrasado.

*Breno Rodrigo de Messias Leite é cientista político

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