Anuário Estatístico Aquaviário de 2014 e dependência do Estado para as suas hidrovias

Mais de 90% de toda a economia do Amazonas dependem hoje dos rios do Estado. A estimativa é do doutor em logística e coordenador nacional do PBLog (Plano Brasil de Infraestrutura Logística), Jorge Campos, também pesquisador da Ufam (Universidade Federal do Amazonas).
Na avaliação dele, a dependência é muito grande uma vez que tudo o que o Amazonas compra desembarca no Estado por via rodo-fluvial. Vindos do Sul ou do Centro-Oeste brasileiro, esses produtos chegam até Belém por terra e, a partir de Belém, vêm de balsas. A rota por Porto Velho (RO) é o mesmo sistema de transporte até chegar a Manaus.
Ele explica ainda que o que chega em Manaus são produtos com pouco valor agregado como alimentos e matérias-primas, vindas especialmente da Ásia, via Canal do Panamá, entra no Amapá pelo distrito de Fazendinha até chegar a Manaus, pelo rio Amazonas.
“Não temos este número com precisão, mas pela análise que estamos fazendo, podemos afirmar, em uma estimativa, que pouco mais de 90%, dos produtos que entram e saem do Amazonas dependem dos rios. Além dos alimentos e matérias-primas para a indústria, toda a matéria-prima da área da construção civil e materiais pesados também chegam ao Amazonas via navios de cabotagem, que é o transporte feito entre portos de um mesmo país. Por tudo isso é fácil perceber que dependemos muito dos nossos rios”, enumerou.
Jorge Campos lembra ainda que grande parte dos produtos fabricados no PIM (Polo Industrial de Manaus), como por exemplo no polo de duas rodas, sai de Manaus via fluvial até Belém, de onde são distribuídos para o resto do país por via terrestre.
“Então tanto a matéria-prima como nossa produção dependem dos rios. Mais uma vez estamos dependentes de nossas hidrovias, principalmente a do rio Amazonas”, disse
Ainda segundo o professor, o que está fora desse padrão são os CDs, DVDs e alguns modelos de televisores, cujas matérias-primas chegam via aérea.

Números
O Anuário Estatístico Aquaviário de 2014, produzido pela Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) ilustra essa dependência. De acordo com o documento, no ano passado o total de cargas movimentadas pelos rios do Estado superou a marca de 23,08 mil toneladas, número que representa um incremento de 6,77% em relação a 2013.
Deste montante, a maior parte (10,95 mil t) corresponde a navegação interior, ou seja, que é realizada em hidrovias interiores, em percurso nacional ou internacional.
Em segundo lugar na movimentação de produtos em 2014 no Amazonas, a navegação de longo curso -que corresponde ao transporte de pessoas ou bens entre portos de diferentes nações -movimentou 6,09 mil t de cargas, entre itens importados e exportados. As exportações foram 48,22% deste total (2,93 mil t), o que representou um acréscimo de 4,99% em relação a 2013. Já os importados, com 3,15 mil t transportadas, responderam por 51,8% da navegação de longo curso – um recuo de 14,13% na mesma comparação, segundo os dados da Antaq.
Ainda segundo o anuário, a cabotagem, realizada entre portos ou pontos do território brasileiro, movimentou 6,04 mil t de cargas em 2014, enquanto a navegação de apoio portuário, realizada exclusivamente nos portos e terminais aquaviários, para atendimento a embarcações e instalações portuárias do Estado, transportou 480t de cargas no Amazonas.
Entre os produtos mais transportados no ano passado nos rios amazonenses aparecem combustíveis e óleos minerais, contêineres, soja, produtos químicos e orgânicos, semi-reboque baú, milho, veículos terrestres e suas partes e acessórios, farelo de soja, entre outros.

Hidrovias
Com relação à infraestrutura das hidrovias do Estado, Jorge Campos faz duras críticas. Na avaliação dele, pela falta de sinalização, segurança e profissionalismo, o Amazonas não conta com hidrovias propriamente ditas. O que se tem, nas palavras dele, são apenas “rios navegáveis”. Na opinião do professor, sem a profissionalização das hidrovias e dos profissionais que nela atuam, o Amazonas perde competitividade.
“A natureza já nos deu um grande presente, que é a hidrovia Solimões-Amazonas navegável o ano inteiro. O que falta agora é trabalharmos a profissionalização dela. Falta trabalhar a segurança nos rios e a formação técnica de nosso pessoal. Nossos práticos e outros profissionais que trabalham com transporte precisam receber um treinamento e uma educação profissional muito melhor, tanto no sentido de entender a importância do que eles estão transportando como entender a importância da competitividade, ou seja, transportar com um grau de profissionalismo que dê aos nossos produtos uma maior competitividade, reduzindo custos e assegurando os padrões de qualidade”, avalia.
Além disso, ainda Campos avalia que, em muitos casos, o transporte fluvial de cargas é feito de forma amadora, sem uma tabela de preços, inclusive transportamos todo o tipo de carga misturado com os passageiros.
“(O preço cobrado) vai muito pelo feeling dos comandantes das embarcações, sem agregar valor ao nosso transporte regional”, criticou.

Transporte de passageiros
Outro aspecto da navegação amazonense que, na opinião de Campos, também precisa de melhorias é o transporte fluvial de passageiros. Na visão do especialista, apesar de alguns avanços, assim como o transporte de cargas, a locomoção de pessoas pelos rios do Estado ainda é feita de forma amadora, oferecendo inclusive riscos à segurança e à saúde dos passageiros.
“Inegavelmente nós já melhoramos, com nossas lanchas fazendo transporte tanto para, por exemplo, Coari, Tefé e Parintins. Mas quando analisamos a questão do nosso transporte de passageiros em nossos barcos, percebemos que precisamos profissionalizar muito, desde o acesso às instalações, que muitas vezes ainda usam pranchas improvisadas, como dentro dos barcos, com a questão da acomodação dos passageiros, já que, em muitos casos a viagem pode demorar até mais de 10 dias, como no caso do percurso Manaus-São Gabriel da Cachoeira”, avalia.

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