Restrição para BR-319 é rejeitada por lideranças

A proposta aventada pelo governo federal de limitar o uso da BR-319 ao trânsito de automóveis de passeio gerou protestos no comércio, na indústria e no governo estadual. Lideranças ouvidas pelo Jornal do Commercio são praticamente unânimes em apontar a importância da revitalização da rodovia Manaus – Porto Velho e de seu uso pleno para destravar o desenvolvimento regional.

A sugestão federal é que o transporte de mercadorias da região seja restrito à hidrovia do Rio Madeira. A ideia foi lançada pelo vice-presidente da República, Hamilton Mourão, durante audiência pública realizada no Senado, nesta terça-feira (14). Pressionado pelo imbróglio ambiental no qual o Brasil está metido, o general compareceu à casa legislativa para falar sobre a polêmica em torno dos fundos financeiros destinados à Amazônia, mas acabou ressuscitando um projeto já encampado anteriormente pelo governo Dilma.

O comércio não gostou da novidade e prometeu reação. “A BR-319 tem que ser restaurada como uma rodovia normal. Por qual motivo temos que nos ater a trânsito de carros de passeio somente? Os nossos parlamentares serão acionados para rever essa discriminatória opção em relação a nossa rodovia. Carecemos de um modal rodoviário sem desprezar a possibilidade de utilização da hidrovia como uma alternativa”, destacou o presidente em exercício da Fecomércio AM, Aderson Frota.

“Não creio que essa sugestão seja levada a sério. Sem o transporte de carga, essa estrada serve pouco e não tem viabilidade. Se estivesse em boas condições, com certeza iria reduzir o custo das cargas. Quanto mais tempo demorar essa indefinição em torno do ‘trecho do meio’, pior”, emendou o presidente da FCDL-AM, Ezra Azury.

Lobby e frete

O presidente da CDL-Manaus, Ralph Assayag, destaca que todos os brasileiros têm o direito de ir e vir, mas considera que o vice-presidente está blefando. O dirigente lembra que, quando o Rio Madeira baixa demais, o percurso entre Porto Velho e Manaus pode levar de sete a oito dias. Pela BR-319, por outro lado, o mesmo percurso levaria pouco mais de 12 horas. 

“Não tem como fazer isso. Tem que arranjar maneiras ecológicas, mas não nos tirar o direito de sair daqui até o Rio Grande do Sul. O Brasil todo se comunica e não vamos ser os únicos a não fazer isso. O dano ambiental já aconteceu quando se abriu a estrada. Agora, é só asfaltar de novo. Acho que isso acontece muito mais por lobby de navegadores para não perder faturamento, do que por questões ecológicas”, opinou.  

Outra liderança que vê na proposta governamental a força de um lobby é o presidente da ACA, Jorge Souza Lima. O dirigente também estima que o tempo de chegada por terra seria muito menor e beneficiaria o setor, mas avalia que a liberação para o transporte de cargas pode acabar sendo liberado para a BR-319, em um momento posterior.

“A importância da rodovia para o comércio é grande. Hoje, o aumento do preço das mercadorias acontece em virtude de as transportadoras voltarem com os caminhões vazios, em vez de retornar com produtos da Zona Franca. Isso seria possível se esse trecho do meio fosse liberado para carretas. O frete cairia um pouco e o preço do que vem para cá diminuiria”, acrescentou.

Papel de fiscalização

A indústria é majoritariamente contra a ideia. O presidente do Cieam, Wilson Périco, diz que a proposta é um contrassenso, pois o custo para pavimentar a estrada para cargas mais pesadas não é tão grande e o problema ambiental deveria ser resolvido com mais fiscalização. Para ele, o Estado deveria cumprir seu papel de polícia combatendo o desmatamento, no lugar de coibir o direito da região se conectar com o resto do país.

“Mas, conhecendo o general Mourão, acho que ele estava fazendo um teste. Se vier para fazer, tenho certeza que vai realizar uma obra bem feita para poder transitar não só passageiros, mas também caminhões e mais. É importante ter essa opção adicional, com tempo rodoviário e custo menores, tanto para a remessa dos nossos produtos, quanto para o ingresso de insumos vindos do restante do país”, afiançou.

Estratégia de desenvolvimento

Em sintonia, o presidente da Fieam, Antonio Silva, diz ser contra qualquer proposta que vise eternizar a dependência econômica do Estado e avalia que a estratégia de desenvolvimento do Estado depende da estrada, a única via de acesso terrestre ao Sul do Brasil para Amazonas e Roraima. Sua revitalização, prossegue o dirigente, ampliaria a cobertura geográfica da infraestrutura de transportes da Amazônia Ocidental, minimizando custos e criando maior competitividade produtiva e dinamismo na região. 

“A BR-319, como parte do Vetor Amazônico, terá ligações intermodais com a hidrovia do Rio Amazonas. Outra ligação da BR-319 é com a BR-174, do Amazonas ao Caribe, inserindo-se assim no Vetor Arco Norte, o qual é parte dos vetores estratégicos de integração com à América do Sul. Acho que devemos continuar lutando para conseguirmos mais uma opção de transporte e escoamento da produção da nossa isolada região”, garantiu.

Perecíveis e pesagem

Já o presidente da Eletros, Jose Jorge do Nascimento Junior, tem visão diferente. O executivo destacou que quase todos os projetos para a BR-319 vinha na linha de restringir ao translado de passageiros e observa que uma rodovia voltada para o transporte de cargas pesadas deveria contar com uma estrutura mais complexa e reforços nas pontes. 

“Acho que a BR-319 deveria ser, não exclusivamente, mas prioritariamente para passageiros, com balanças para limitar o peso das carretas. Acredito que alguns produtos, como perecíveis, poderiam passar pela rodovia. Para o transporte de insumos e bens acabados do PIM, é difícil competir com o transporte fluvial, que é bem mais econômico. Lógico que, no caso de insumos com necessidade de emergência, a prioridade seria a estrada. Mas, acho que não vai mudar muito a realidade que temos hoje”, ponderou.

Vigilância aérea

O titular da Sedecti, Jório Veiga, concorda que a BR-319 é importante para o Estado como via de acesso e escoamento da produção, sendo um meio de “libertação em relação ao transporte”. Para o secretário estadual, a rodovia funciona ainda como fator de regulação de preços do transporte aquaviário, ao conceder mais opções aos transportadores, em função de preço e tempo.

“Não podemos ficar restritos apenas a carros de passeio. É injusto com quem mora aqui e produz ao longo da rodovia. O que precisamos é um bom programa de monitoramento, bancado por um fundo, com vigilância aérea não tripulada em pelo menos três pontos. Isso nos daria a possibilidade de estar rapidamente em qualquer situação e tomar ações imediatas no combate à qualquer ilegalidade”, encerrou. 

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