Restaurantes flutuantes na pressão

Há flutuantes e flutuantes nos rios das imediações de Manaus. Há aqueles que são alugados somente para famílias, há os que aglomeram pessoas que vão para ouvir música ao vivo ou se banhar sob o chuveiro ou nas águas do rio, e há os restaurantes flutuantes. O decreto governamental colocou todos dentro do mesmo saco e os fechou.

Iolene Barreto é a proprietária do flutuante da Tia, um dos mais antigos restaurantes flutuantes de Manaus, que já ocupou quatro áreas no rio Tarumã.

Iolene Barreto, do Flutuante da Tia, ri para não chorar

“Eu o comprei em 1999, e ele já tinha este nome. Por isso mantive. Documentos mostram que em 1986 o flutuante já existia, e possivelmente bem antes disso”, contou.

Nesses 21 anos com Iolene, o flutuante da Tia nunca ficou fechado por tanto tempo, e a empreendedora não consegue entender como alguém pode ser impedido de trabalhar e ganhar o seu sustento.

“Funcionamos de quinta-feira a domingo e quando foi no dia 19 de março, uma quinta-feira, o primeiro decreto do governo nos obrigou a fechar. Até aí tudo bem. A pandemia assustava todo mundo. Ao reabrimos em junho, depois de três meses fechados, nosso movimento normalizou e assim foi até o dia 26 de setembro, quando novamente fomos obrigados a fechar. Quando já íamos reabrir, no dia 26 de outubro, lá vem a continuidade do decreto de fechamento”, lamentou.

Iolene lembrou que o flutuante da Tia é um restaurante flutuante.

“Não temos música ao vivo. Às pessoas vêm aqui somente para almoçar e estávamos respeitando os protocolos de segurança, com distanciamento entre as mesas e disponibilização de álcool em gel”, explicou.

Agora vem a vazante, fenômeno da natureza que obriga o flutuante da Tia a ficar sem atividades por quase dois meses e com as chuvas do início do ano, os clientes são poucos, ou seja, de março a outubro, quando o movimento é intenso, o espaço ficou mais tempo fechado.

“Damos trabalho pra cinco a oito pessoas, dependendo do movimento. Esse pessoal ficou em casa, recebendo o auxílio do Governo Federal, e quando retornamos, foi a maior dificuldade fazê-los voltar a trabalhar”, falou.

Acesso só por água

Ana Scognamiglio é a proprietária do restaurante flutuante mais tradicional do Amazonas, com 32 anos de existência, o Peixe Boi, localizado sempre no mesmo espaço, uma área de preservação ambiental no rio Tarumã.

Acostumada às vazantes e enchentes do rio, quando precisa transportar seu flutuante para local onde reste alguma lâmina d’água, Ana lamenta ter tido que fechar seu empreendimento justamente nos meses de efervescência do movimento e mais ainda pelo fato de ser um restaurante flutuante e não causar aglomeração de pessoas. Assim como na Tia, a música no Peixe Boi é ambiente.

“Como temos que fechar o flutuante por conta da vazante e depois, na época das fortes chuvas, temos que amargar dias com poucos clientes, os restaurantes flutuantes só tem alguns meses durante o ano em que o movimento é pleno, exatamente os meses em que fomos obrigados a fechar este ano, menos julho a setembro, então nos preparamos nesses meses trabalhados para compensar os meses parados. Este ano, então, só tivemos prejuízos, e vamos recorrer a quem para nos ajudar?”, reclamou.

O Peixe Boi também funciona de quinta-feira a domingo, somente para almoço e, na alta temporada, chega a ter de 18 a 20 funcionários.

“O Peixe Boi, apesar de ser um restaurante, ainda têm mais um porém: o acesso até aqui é só por água, então, não podemos fazer delivery, pois ficamos distantes de tudo e de todos”, revelou.

Sem esperança de voltar a reabrir este ano, Ana, como acontece há mais de 30 anos, providencia a mudança do Peixe Boi para um local onde a água não desapareça por completo.

“Quando esse novo decreto deixar de vigorar, em 26 de novembro, não tem mais como as embarcações chegarem até o flutuante”, informou.

Constam como peixaria 

Flutuante da Doró, por enquanto só fiscais

O flutuante da Doró já tem 28 anos de existência, no rio Tarumã e, assim como os flutuantes da Tia e Peixe Boi se enquadra na categoria restaurante. Por esse motivo, após o decreto para fechar a partir de 26 de setembro, continuaram abertos. Foram visitados pelos órgãos de fiscalização.

“No nosso CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) constamos como peixaria, mas os fiscais não quiseram saber, nos orientaram, notificaram, e pediram que os clientes se retirassem do estabelecimento. Pelo menos não nos multaram (como foi veiculado na mídia) porque já estamos todos esses meses sem faturamento”, lembrou Thiago Mota.

Thiago é filho de Dorotéia da Silva, a Doró, proprietária que dá nome ao flutuante e até hoje trabalha no local junto com os filhos. O flutuante da Doró funciona de terça-feira a domingo servindo almoço, e nos finais de semana, almoço e jantar.

“Temos mais de 20 funcionários no flutuante, 20 famílias que estão sem receber o seu sustento tirado daqui. É lamentável isso”, disse.

O flutuante da Doró ainda tem uma vantagem em relação ao da Tia e Peixe Boi. A vazante não chega tão forte na região onde ele está, por isso não precisa mudar de local e o acesso por água e por terra não cessa.

“Estamos fazendo delivery aqui por perto apenas para não pararmos totalmente, mas nem se compara ao nosso movimento normal da semana”, concluiu Thiago.

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