A primeira aquisição após a oferta de ações de quase R$ 4 bilhões do final de abril e também a primeira compra em um período de cerca de 10 anos traz importantes sinalizações para os investidores sobre a Lojas Renner (LREN3), em um momento em que os temas de M&A (fusões e aquisições) vêm ganhando cada vez mais destaque também no setor de varejo de moda. Ao mesmo tempo, mostram o objetivo da companhia de consolidar as suas operações online e se tornar um ecossistema de moda e lifestyle.

Na última semana, a Renner anunciou a compra do brechó online Repassa, com atuação em todo o Brasil.  Embora a empresa não tenha divulgado o valor pago, a avaliação é de que ele não é tão representativo para a varejista. O pagamento será feito 100% em dinheiro, sendo que a equipe da empresa (junto com seu fundador) irá permanecer na operação, com uma estrutura de earn-out (pagamento adicional vinculado ao atingimento de algumas metas pré-estabelecidas) de 3 a 5 anos. A compra ainda está em fase de diligência e sua conclusão deve levar entre 30 e 40 dias.

Ao InfoMoney, Fabio Faccio, CEO da Renner, destacou que após essa aquisição, a intenção é de seguir desenvolvendo novas operações voltadas para os pilares de desenvolvimento do ecossistema da varejista, que são: inovação, digitalização e sustentabilidade.

“O Repassa conversa com todos os pilares, é uma startup nativa digital, tem todo um viés de digitalização e de inovação em um mercado crescente e que endereça as demandas do consumidor. Ele vê cada vez mais valor nesse tipo de negócio extremamente voltado para a sustentabilidade, de prolongar o uso de cada peça e dar um novo destino para ela através da revenda”, avalia Faccio.

Isso em um ambiente bastante promissor, uma vez que, de acordo com o executivo, o crescimento do mercado de roupas de segunda mão deve superar o de vestuário tradicional, com um GMV (Volume Bruto de Mercadorias) potencial de cerca de R$ 31 bilhões até 2025 (mercado total). Isso se compara com um GMV do segmento entre R$ 6 bilhões e R$ 7 bilhões atualmente.

A Repassa foi fundada por Tadeu Almeida, que viu uma oportunidade de reduzir o impacto ambiental da indústria do vestuário através da expansão da vida útil dos produtos por meio da economia circular. A startup nasceu como uma plataforma online de produtos de segunda mão, calçados e acessórios. Ela teve uma rodada de capitalização feita em 2020 (de R$ 7,5 milhões) para expandir sua atuação e atender à crescente demanda desse mercado.

A empresa aposta no modelo de marketplace gerenciado. Ou seja, ela é a responsável por todo o processo desde a (i) coleta dos produtos nas casas dos clientes, que são colocados dentro da chamada Sacola do Bem, (ii) curadoria dos itens, selecionando aqueles que são adequados para serem comercializados na plataforma; e (iii) venda e entrega desses itens ao cliente final. A taxa de comissão (take rate) da empresa é de aproximadamente 50%, com o vendedor tendo a opção de usar o saldo da venda na própria plataforma da Repassa, com um desconto de 10%.

A Lojas Renner anunciou no final de 2020 uma parceria, em que a Sacola do Bem da Repassa era utilizada para a arrecadação de itens usados. “Iniciamos a parceria em duas lojas, depois ampliamos para 15 lojas e os clientes elogiaram bastante. Percebemos que esse mercado não está crescendo à toa”, destaca Faccio, que complementa: “esse é um segmento que nasceu recentemente de forma digital, está crescendo muito rapidamente e entendemos que podemos ajudar a conveniência e escala da Repassa, que é um ótimo negócio”.

Em relatório, a XP aponta ver uma grande oportunidade de alavancar a capilaridade da operação, pois as lojas físicas da Renner podem futuramente se tornar pontos de entrega/retirada. “Vemos a transação como positiva, uma vez que está alinhada com a estratégia da companhia de fortalecer as iniciativas digitais e agenda ESG, embora seja imaterial em termos de impactos financeiros, o que pode ter decepcionado os investidores quando comparado ao tamanho da oferta concluída em abril”, apontaram os analistas Danniela Eiger, Gustavo Senday, Thiago Suedt e Marcella Ungaretti.

Muitas especulações vêm ganhando espaço no mercado com o ritmo de fusões e aquisições das varejistas de moda nos últimos meses. A Arezzo (ARZZ3) tem feito diversas compras, como Reserva, My Shoes e Baw Clothing, além de ter feito uma oferta pela Cia. Hering (HGTX3). Mas, nesse último caso, quem levou a companhia foi o grupo Soma (SOMA3), ao fazer uma proposta no final de abril, mesmo momento em que houve a captação bilionária da Renner, gerando especulações até de compras de grandes ativos, como a Dafiti.

A avaliação da XP é de que a aquisição da Repassa, apesar de positiva uma vez que está alinhada com a estratégia da companhia de fortalecer as iniciativas digitais e agenda ESG, é imaterial em termos de impactos financeiros, o que pode ter decepcionado os investidores quando comparado ao tamanho da oferta concluída em abril.

Mas os analistas apontam que ainda há mais por vir. “Esperamos que a empresa continue ativa em operações de M&A e busque outras oportunidades que complementem e fortaleçam seu ecossistema. Apesar de vermos a transação anunciada como positiva, ela não justifica a necessidade de captação feita de R$ 4 bilhões em abril, enquanto também não muda o jogo em termos de perspectivas de crescimento para a Renner”, ressaltam.

Guilherme Reichmann, diretor de estratégia e novos negócios da Renner, afirmou ao InfoMoney que a missão da companhia é ser uma grande consolidadora de lifestyle e moda no Brasil e, nesse sentido, há vários caminhos possíveis.

“Há um bloco de valor que prezamos bastante para sermos relevantes em termos de serviços e produtos para os nossos clientes e também marcas que se comunicam com os nossos consumidores, além de investimentos em tecnologia em dados, logística e marketing digital. O que fizer sentido para alcançarmos essa estratégia da maneira mais robusta e rápida possível [será feito], pode ser um caminho inorgânico, de M&A. Esperamos sim que esse não seja o primeiro e único movimento, é uma possibilidade de que existam outros movimentos sequencialmente a este primeiro”, apontou, ressaltando que a captação recente no mercado de capitais será usada para que a Renner se consolide como o grande player de moda e lifestyle no Brasil e na América Latina.

Concorrentes na Bolsa

A Levante Ideias de Investimentos afirma que, com a aquisição, a Renner coloca os dois pés no desenvolvimento de uma plataforma integrada multicanal para sua rede, incorporando capital humano e intelectual importante (uma vez que os fundadores da Repassa continuarão na gestão do dia a dia), além de potenciais sinergias com as lojas físicas e plataforma virtual da companhia.

“Atualmente só há a Enjoei (ENJU3) como representante desta categoria com presença em bolsa, com valor de mercado próximo a R$ 2 bilhões”, apontam os analistas.

A XP também avalia que o mercado de segunda mão está bem posicionado para crescer em meio ao aumento da consciência do consumidor e de sua aderência à agenda ESG, com as gerações mais jovens se tornando consumidores mais conscientes, o que favorece a moda circular.

Já o grande diferencial da Repassa é a jornada do usuário vendedor na plataforma, mais completa que a da concorrente Enjoei, uma vez que a primeira utiliza o modelo gerenciado que cuida de todo o processo de venda.

A XP também destaca ainda outras companhias respeitadas no segmento como Mercado Livre (MELI34) e OLX, mas que elas também diferem da proposta de valor da Repassa. Enquanto que, na Enjoei, o vasto sortimento e a experiência de mídia social são os principais pilares por trás da experiência do consumidor, o foco das outras duas empresas é em escala e produtos mais básicos/commoditizados.

De qualquer forma, avaliam que este segmento deve ser monitorado mais de perto, já que a TROC foi recentemente comprada pela Arezzo e a Enjoei está bem à frente em termos de escala (de acordo com o SimilarWeb, a Enjoei teve 10,5 milhões de visitas mensais nos últimos doze meses, mais de 22 vezes a Repassa e perto de 140 vezes a TROC).

“No entanto, acreditamos que a aquisição da Repassa pela Lojas Renner deve permitir que ela ganhe escala com relativa rapidez principalmente por vermos muito espaço para o crescimento do mercado de segunda mão como um todo”, apontam.

Cabe destacar que, nesta semana, a Renner fechou contrato com a Enel para compra de energia eólica para 170 lojas. Faccio aponta que o acordo ajudará a varejista a encerrar o ano com 80% do seu consumo corporativo vindo de fontes renováveis, ante 65% no fim do ano passado.

A XP vê a Renner como bem posicionada com as melhores práticas de ESG, com robustas políticas de gestão da cadeia de suprimentos (pilar S), aliadas à ótima governança e cultura (G). Porém, segue com recomendação neutra para a ação e preço-alvo de R$ 50 por ativo (ou potencial de valorização de 11% frente o fechamento de quinta), “dada a baixa visibilidade sobre os potenciais alvos de M&A assim como dos resultados dos investimentos da empresa na construção de seu ecossistema”.

De acordo com compilação feita pela Refinitiv, de 14 casas que cobrem o papel, 8 possuem recomendação de compra, enquanto 6 possuem recomendação equivalente à neutra, com preço-alvo médio de R$ 50,58 para os ativos, ou potencial de alta de 12,5% frente ao fechamento da véspera.

Foto/Destaque: Divulgação

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