Reitor da UEA, Cleinaldo Costa, vê mundo melhor pós-pandemia

A UEA (Universidade do Estado do Amazonas) reforça as medidas de combate à Covid-19 no esforço conjunto das instituições públicas feito em parceria com a iniciativa privada para conter o avanço da doença na região. Com um sistema praticamente em colapso, o governo estadual tem recebido apoio de universidades, de empresas dos mais diversos segmentos e até de voluntários independentes para vencer a guerra contra a pandemia, que vitima milhares de pessoas a cada dia. 

E nesse contexto se insere a UEA que, com apenas 19 anos de existência, desenvolveu uma sólida e ampla infraestrutura para atender não só a população em geral, mas também os profissionais de saúde, que são os mais vulneráveis em contrair a doença por falta de material adequado de proteção, segundo o reitor da UEA, o médico Cleinaldo Costa. 

Com grande atuação, experiência, em casos de urgência e emergência, o reitor ressalta que muito antes da pandemia já previa que os EPIs (Equipamentos de Proteção Individua) disponibilizados na rede pública não seriam tão eficazes para enfrentar situações como o flagelo provocado hoje pelo novo coronavírus, que causa a Covid-19. 

“Pensando nisso, nossa equipe acadêmica desenvolveu um material mais adequado que garante maior segurança a médicos, enfermeiras e auxiliares de enfermagem”, ressalta ele. “Produzimos um escudo facial e um avental que dão mais proteção por serem confeccionados sob medida e com material mais resistente”, acrescenta.

Cleinaldo Costa conta que médicos, enfermeiros e o setor de engenharia da UEA reuniram esforços e conseguiram desenhar em dois dias os novos equipamentos. Os materiais já são produzidos e distribuídos em Manaus e no interior do Estado através da Cema (Central de Medicamentos do Amazonas). E ainda faz testagem para coronavírus em profissionais de saúde em parceria com a FVS (Fundação de Vigilância em Saúde). Os testes são feitos pelo sistema drive-thru (dentro do carro). A universidade tem hoje uma comunidade acadêmica de 25 mil pessoas, incluindo estudantes, professores, técnicos e pessoal administrativo.

Um projeto de desenvolvimento de um respirador artificial está em andamento pela equipe de especialistas da UEA. E só não será utilizado caso não seja viabilizado ainda neste momento de pandemia, informou o reitor. “Mas o equipamento poderá suprir as necessidades de hospitais no futuro, com a vantagem de ser produzido aqui mesmo, e muito mais acessível”, salienta.   

O reitor Cleinaldo Costa foi entrevistado no programa JC às 15h do Jornal do Commercio. Ele falou também sobre a previsão da retomada das aulas na UEA, paralisadas por causa das medidas de isolamento social, além de suas impressões em relação a aspectos econômicos. E abordou ainda o papel da universidade junto à sociedade. 

Jornal do Commercio – Existe hoje um esforço conjunto de governos e da própria iniciativa privada na luta para conter o avanço da Covid-19 no Amazonas. O que a UEA tem feito nesse sentido? 

Cleinaldo Costa – Estamos imersos nessa situação extremamente avassaladora. E, coincidentemente num momento histórico, a UEA tem um médico em sua gestão. Lobo percebemos que teríamos problemas com EPIs, pois os que eram disponibilizados não dão praticamente nenhuma proteção aos profissionais. Por isso, muita gente se infectou e acabou morrendo. Esses aventais confeccionados tipo com ‘papelzinho’ não protegem. Então, o que fizemos, desenhamos um avental com uma gramatura diferente de 60 a 80 gramas por metro quadrado de polietileno. O que é vendido no mercado só tem 40 gramas de revestimento, altamente ineficaz para o qual se propõe. Médicos, enfermeiros e o setor de engenharia da universidade elaboraram esse projeto em apenas dois dias, num esforço conjunto para atender às necessidades de hospitais e de outros setores da saúde. 

JC – Como a UEA conseguiu produzir e reforçar esses novos materiais….?

CC – Optamos por desenvolver um avental mais denso porque o risco de contaminação é ínfimo, praticamente zero, desde que seja descartado devidamente. O macacão, que é muito empregado em transporte aéreo e terrestre, não é recomendado porque precisa da ajuda de outra pessoa para descartá-lo, com maior possibilidade de contaminação. Também desenvolvemos um protetor facial, que dá mais proteção aos médicos, enfermeiras e auxiliares de enfermagem, além de outras pessoas que atuam nas unidades de atendimento. Confeccionamos um capuz que protege rosto, pescoço, dorso e vai até o joelho.

JC – Esses materiais já estão disponíveis?

CC – Sim, estamos distribuindo os novos materiais através da Cema para unidades na capital e no interior do Estado. Já foram distribuídas 30 mil unidades de escudo facial e e outras 15 mil de outros EPIs. Ainda estamos fazendo testagem de profissionais de saúde em parceria com a FVS. Basta fazer um cadastro eletrônico, agendar, para realizar o teste.  Já foram testados pelo sistema drive-thru 1.500 profissionais e 700 deles testaram positivo para coronavírus, que chega a um percentual de 40% desse total. Portanto, é uma população altamente vulnerável. O País já conta com 13 mil profissionais mortos pela Covid-19. É um número altíssimo. Tudo isso requer uma preocupação de todos nós, do governo do Amazonas, das entidades de saúde, da iniciativa privada, e a UEA não pode estar fora desse esforço. 

JC – Como está sendo feito esse atendimento durante a pandemia?

CC – Cenário econômico adverso podemos vencer com inteligência embarcada, que é o papel da universidade. Não pode ser um esforço aleatório, tem que ser planejado. O que temos de mais útil é o capital intelectual. Sempre tenho dito que educação não é custo, é investimento. Com apenas 19 anos de existência, a UEA já fez mais de 50 mil atendimentos psicológicos por chatbot (mídias sociais), 10 mil por Telesaúde e já ultrapassa a marca da produção de 36 mil unidades de EPIs. Levamos também alegria através de nosso núcleo de ‘Live Music 2020’ em casa. Às vezes, a gente não sabe que a população só ouve música ruim porque não foi acostumada a ouvir música de boa qualidade. São opções para adultos, mix lúdicos, infantis. É o momento de levar a universidade para dentro de nossas casas, que já faz parte vida diária de nossa população. 

JC – A UEA interrompeu em março as aulas por conta das medidas de isolamento social em função do coronavírus. As atividades estão mesmo programadas para serem retomadas em agosto?

CC – Estamos trabalhando com inteligência artificial, que faz projeções sobre o curso da pandemia. Nosso objetivo é reiniciar as aulas em primeiro de agosto, com o término do semestre mais ou menos em outubro. O segundo seria retomado em dezembro e iria até março, sem prejuízo do calendário e da comunidade acadêmica. E iniciaria o novo letivo a partir daí. Mas poderemos rever esse período, caso não haja o arrefecimento da doença. E readequaremos o calendário. Estamos trabalhando com um ciclo de paralisação de 138 dias. Na história da humanidade, as pandemias sempre tiveram uma vida curta – começo, meio e fim, em mais ou menos três meses. Elas começam a arrefecer quando atingem o maior pico. E esperamos que essa tendência seja mantida.  Nesse período sem aulas, orientamos que todos os nossos docentes fizessem um curso de formação, sem obrigatoriedade, lançando mão das plataformas virtuais disponíveis.

JC – O Amazonas é um estado gigantesco, continental. Essa previsão também vale para os polos da UEA no interior….?

CC – Certamente. Nós estendemos de 100 para 138 dias essa paralisação prevendo a finalização desse ciclo da pandemia a partir de agosto. Como disse, historicamente as epidemias sempre têm esse desenho curto. A UEA jamais começará suas atividades se não houver a segurança para todos. O conceito de vida está em primeiro lugar. Temos como prioridade esse esforço conjunto para ajudar não só na educação, mas auxiliando também na parte econômica, reconstruindo o Estado, e ainda  naquilo que a universidade tem de mais precioso, que é repassar o conhecimento intelectual para a população. 

JC – Prevemos que a humanidade nunca mais será a mesma depois da pandemia. Vemos agora as pessoas mais unidas, mais solidárias, preocupadas com todos, indistintamente. Como os sr. avalia essa questão?

CC – Não sabemos ainda quando retornaremos à normalidade, mas com certeza sairemos mais fortes, mais fortalecidos. Importante lembrar o papel das empresas privadas nesse sentido e seria injusto se não pudesse citar todas elas, que estão apoiando todos os esforços do governo do Amazonas. E ainda do trabalho de pessoas voluntárias. Uma palavra que aprendi nessa pandemia é a ‘solidariedade’, que para mim resume toda essa mobilização da humanidade na luta contra o coronavírus. Conheci no Japão uma comunidade que já vive no século 22 e que chegou a um nível de desenvolvimento humano sem similar.  O país está mergulhado na coletividade. A pessoa já aprende tudo isso desde cedo, na barriga da mãe. O ano de 2020 significa o ‘ano da solidariedade’.

JC – Quais serão os principais legados?

CC – Precisamos ter uma visão de uma sociedade mais justa, que se preocupe com a sobrevivência dos mais pobres, dos mais desvalidos.  A classe média convive com todo esse arcabouço social. Então, é preciso dar mais condições a eles para também não sermos surpreendidos com essa crise. Por exemplo, nos Estados Unidos, com o crash da bolsa de valores de Nova York, o governo foi obrigado a prover a população com pleno emprego. Foram dez anos de auxílio – de 1929 a 1939 – para as pessoas saírem da pobreza. Necessitamos pensar nas pessoas mais pobres, pois são vasos comunicantes. A pandemia iguala a todos nesse cenário – tanto pobres quanto ricos sofrem as consequências. Então, é a oportunidade para mudarmos essas desigualdades.

JC – O que mais lhe impressionou neste momento de pandemia?

CC – Outro dia, vi uma pessoa na portaria do meu prédio, muito simples, gente humilde, falando da necessidade de nós agradecermos todos os dias pela graça de ter saúde e não termos morrido hoje, como também os nossos familiares. O Amazonas é o quinto Estado em Covid-19 e o primeiro em proporcionalidade da doença no País. Muitas famílias estão enlutadas. É muito importante perceber-se com saúde e agradecer pela vida. 

Fonte: Marcelo Peres

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