Recuperação econômica no Brasil será lenta, afirmam especialistas

A retomada escalonada das atividades não essenciais ainda imprime um cenário incerto sobre os rumos da economia brasileira. O desemprego alinhado ao endividamento, fechamento de empresas, perdas de receitas, estão entre os saldos pós-pandemia. A conclusão está alinhada entre economistas consultados pelo Jornal do Commercio. 

Mourão Júnior, presidente do Corecon/AM (Conselho Regional de Economia do Amazonas), afirma que os maiores desafios vão ser primeiramente recompor o negócio e reorganizar o capital de giro, buscar financiamento apesar de toda dificuldade burocrática e das questões que exigem uma garantia para poder pegar o empréstimo, e o principal, conseguir se recompor no mercado. “Muita coisa vai mudar. As formas de trabalho, especialmente dos colaboradores. O home office, já é uma realidade e veio para ficar”. 

A própria economia vai passar por muitas mudanças. Ele acredita que um novo sistema de uma tendência protecionista para se tornar menos dependente da China, por exemplo, mas diante de duas vertentes. “Tem um lado bom, porque a economia vai estar gerando empregos e renda. E o lado ruim que, infelizmente, isso causa uma elevação dos preços”. 

Marcel Balassiano, economista da FGV, também concorda que em algum momento teria que ocorrer essa retomada. E avalia que a intensidade da crise é bem pior que todas as outras. “O setor de serviços representa quase 70% do PIB brasileiro e foi duramente afetado.  Vai engrenar, mas a passos lentos”. 

Outro ponto relevante citado por ele é o comportamento das pessoas em relação ao consumo. “Muitas não estarão dispostas a gastar. A gente tem muita dúvida sobre essa crise, muitas incertezas. A  única certeza é que muita gente vai sair dela mais pobre do que entrou. E quando eu falo todo mundo eu falo do  trabalhador informal que em média ganha R$ 1000 a R$1.500 reais. Com o auxílio emergencial está ganhando R$ 600 o que explica  uma redução de renda. Na iniciativa privada, muitos tiveram redução de jornada e redução de salário, ou seja, mais perda de renda. Muitos empresários tiveram as suas receitas com quedas mais fortes e alguns com receitas zeradas”. 

Segundo o economista, o próprio estoque de riqueza das pessoas diminuiu. E lembra que que o Brasil vem desde 2016 com as taxas de juros mais baixas. Desde então, houve uma migração muito grande no aumento das pessoas físicas investindo na bolsa.

“Passou de 800 mil pessoas para mais de um milhão. Os índices da bolsa comprovam isso.  De 121 mil pontos caiu para 60 mil. Com essa retomada, rompe 90 mil pontos, o que significa dizer que houve uma redução de riqueza”. 

Assim, ele afirma o dado de que todo mundo vai estar mais pobre ou com uma expectativa não muito boa futura em termos financeiros. “Essa retomada tem que ser avaliada com um pouco mais de cuidado e, possa ser que as pessoas não consumam mais fortemente como no período anterior. Mas guardadas as questões de saúde e segurança sanitária essa retomada assim como na maior parte do mundo em algum momento teria que ocorrer”, 

Em consenso, o economista Marcus Evangelista, defende também que com retomada gradual a economia pode aquecer, mas é preciso ter os cuidados não apenas com a questão da saúde em si nos estabelecimentos, mas  também ter o pé no chão que o fato de estar retornando não é sinónimo que o empresário vai ter movimento esperado na pré-pandemia mesmo porque, apesar de estarem com as portas abertas ainda existe o receio e o cuidado. “As pessoas vão pensar duas vezes em ir visitar determinado estabelecimento. Eu acredito que paralelo ao fato de reabrir não deve ser desprezado a venda online ou delivery, essas duas atividades vieram para ficar e podem garantir boas vendas nessas modalidades, não deve ser colocado de lado”.

Evangelista diz também que a economia vai ter um tempo de ajuste porque está completamente afetada e sensível. E a pandemia continua avançando. “Isso deixa o consumidor ressabiado. Vai levar um tempo para economia se ajustar. Portanto, o empresário deve estar preparado para isso não pode gerar expectativas. “É um processo de maturação que vai ocorrer. Todos os indicadores despencaram. Vai normalizar ? Sim, mas médio e longo prazo”, projeta.

Prognóstico nada otimista

Para o especialista em finanças e comércio exterior,  Marcos Antônio, os indicadores econômicos do mercado brasileiro apresentaram sinais muito negativos nas últimas semanas. O cenário atual é muito incerto, isto dificulta a realização de projeções para estimar tamanho da contração do PIB brasileiro no exercício de 2020.

“A curva de contaminação do coronavírus no Brasil não apresenta sinais de efetivo declínio, isso gera baixa perspectiva para movimentos de reabertura gradual da economia. Esse cenário indica que o socorro emergencial de recursos públicos deve ser estendido e até mesmo ampliado, com objetivo de evitar colapso no sistema econômico brasileiro, esses movimentos sinalizam que o PIB brasileiro em 2020 pode encolher mais que 4,0%.”

Conforme o especialista, o tamanho da contração do PIB deste ano ainda é muito incerto, enquanto não tiver dados efetivos sobre extensão da crise na saúde pública, a definição de um medicamento eficaz, como será o relaxamento da quarentena ou, ainda, como aconteceu em alguns países, uma segunda onda de contaminação, será muito difícil prever o PIB do ano.

‘Temos que considerar que o governo deve estender e até mesmo ampliar medidas fiscais e monetárias com objetivo de evitar um colapso do sistema econômico e de pagamentos”. 

Nesse radar, as consequências dessa queda significativa no PIB devem impactar diretamente as taxas de desemprego, chegando ao nível de 15% até o final do ano. Com isso a média salarial deve contrair em torno de 10%, com impacto direto nos empregos formais. 

Ainda de acordo com ele, esses indicadores devem refletir de forma significativa no consumo onde a queda deve chegar a 8,5%, isto se considerarmos retomada da economia a partir do terceiro trimestre de 2020. Os especialistas projetam que os setores que mais devem sofrer com a recessão econômica são: serviços (25 p.p.), comércio (11,2 p.p.) e indústria (9,1 p.p.), a somatória desses setores deve ser equivalente a cerca de 45% do PIB.

“As linhas de crédito do setor público e privado têm papel crucial para minimizar os impactos da recessão tanto nas empresas como nas famílias, por esse motivo, os governos devem promover diversas ações para financiar setores e até mesmo atividades da economia informal durante o período de contração da economia e início da reativação das atividades”, ressalta ele. 

Para aliviar essa sequência de indicadores negativos, o mercado tem  expectativa de inflação “oficial” para 2020 em torno de 2,00% e a taxa de juros “Selic”, não deve ser superior a 2,50% aa.

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