Recuperação de investimentos fica para 2010

Os investimentos no Brasil estão se recuperando antes do esperado pela maioria dos economistas, acadêmicos e analistas de mercado. A alta de 5,8% da produção de bens de capital em setembro ante agosto, anunciada ontem pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), indica que vários setores empresariais, boa parte voltada para o mercado interno, começam a ampliar a FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo), motivados especialmente pela recuperação do consumo das famílias e perspectiva favorável para o nível de atividade para 2010 e 2011. Para os especialistas, o cenário mais provável é que a FBCF continuará avançando nos próximos meses, mas só deverá atingir no último trimestre de 2010 a velocidade de expansão anterior à piora da crise internacional, registrada em setembro de 2008.
Um dos fatores que não permitem empolgação excessiva por parte dos agentes econômicos com a tendência dos investimentos para o médio prazo é que o Nuci (nível de utilização da capacidade instalada) ainda tem muito a crescer em vários segmentos. No caso dos fabricantes de máquinas e equipamentos utilizados para a produção de outras mercadorias, o Nuci apurado pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) atingiu 77,4% em outubro, 10,4 pontos percentuais abaixo dos 87,8% registrados no mesmo mês do ano passado.
Em 2008, a taxa média do Nuci pesquisado pela FGV junto às indústrias de transformação atingiu 85,2%, segundo o economista-chefe da LCA, Braulio Borges, para quem o indicador deve cair para 80,2% neste ano e subir para 84,6% em 2010. “O nível de utilização (do setor manufatureiro) não subirá no próximo ano para os patamares registrados em 2008 porque as exportações ainda devem demorar para crescer com intensidade devido à lenta recuperação da economia mundial”, comentou. Segundo ele, as vendas externas de produtos industrializados respondem entre 20% e 25% da fabricação de manufaturados do país e de 15% do PIB (Produto Interno Bruto). A consultoria projeta uma retração de 6,3% do comércio internacional em 2009, mas a expansão em 2010 não conseguirá reverter o recuo, pois deve apresentar uma alta de 5,5%.
Os especialistas destacam que os investimentos estão subindo, mas ainda estão bem distantes do ritmo apurado no final do terceiro trimestre de 2008. A produção de bens de capital no Brasil subiu 14,8% de março a setembro deste ano, mas caiu 30,8% do nono mês do ano passado até o terceiro deste ano, ressalta Borges. Evolução semelhante ocorreu com as importações de máquinas e equipamentos, pois subiram 2,2% de março a setembro deste ano, mas apresentaram uma retração de 20,7% entre setembro de 2008 e março de 2008.
Na avaliação do gerente da área de pesquisas econômicas do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Marcelo Nascimento, um movimento de expansão mais significativa dos investimentos deve ser constatada no segundo semestre de 2010, embora na primeira metade do ano poderão ser registrados aumentos ao redor de 10%. O executivo ressalta que os avanços recentes dos investimentos estão relacionados basicamente a setores voltados para o mercado interno, como fabricantes de eletroeletrônicos, alimentos, automóveis e companhias do setor de construção civil. “O avanço dos empregos industriais em setembro está relacionado com a expansão dos investimentos, um prenúncio de que é espetacular a previsão de vendas das empresas no final de ano”, comentou. O banco oficial liberou de julho a setembro deste ano R$ 6,11 bilhões para investimentos de empresas em bens de capital, montante 6,63% superior aos R$ 5,73 bilhões contabilizados no primeiro trimestre de 2009.

Medidas anticíclicas foram importantes para recuperação

As ações anticíclicas implementadas pelo governo para diminuir o impacto da recessão no Brasil causada pela crise internacional foram importantes para acelerar a recuperação dos investimentos, ponderaram os especialistas. Para o economista-chefe do HSBC, André Lóes, as medidas adotadas pelo Poder Executivo para estimular o consumo interno, como a redução de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para a compra de carros novos e produtos da linha branca, além da redução de tributos para a venda de materiais de construção, foram eficientes para limitar a retração do PIB ao período registrado entre outubro de 2008 a março deste ano. De acordo com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a renúncia fiscal do Executivo federal com tais medidas deve atingir R$ 34 bilhões neste ano. Contudo, segundo Mantega, os recursos evitarão que o PIB apresente resultado negativo em 2,5 pontos percentuais em relação à marca atingida neste ano. Isto significa que, caso o país cresça 0,5% em 2009, sem as medidas federais implementadas ocorreria uma retração de 2%. “As decisões do governo foram importantes e permitiram que o consumo das famílias não registrasse retração expressiva, o que evitou uma elevação forte do desemprego”, disse.
Lóes estima que a FBCF deve cair 10% neste ano, mas avançará pelo menos 15% em 2010. Braulio Borges faz uma estimativa semelhante para o indicador, pois prevê queda de 10,7% em 2009 e expansão de 16,6% no ano que vem. Mesmo com tal avanço, o economista-chefe da LCA projeta que a taxa de investimentos como proporção do PIB deve chegar a 17,7% em 2010, superior aos 16,2% que devem ser registrados em 2009, mas atrás dos 19% apurados em 2008. Segundo ele, o patamar de investimentos atingido no ano passado deverá ser registrado somente em 2011.
O professor da FGV-RJ, Rogério Sobreira, chama a atenção que a evolução dos investimentos no curto prazo dependem em parte da condução das políticas fiscal e monetárias no curto prazo, especialmente para 2010. Ele ressalta que a magnitude da elevação dos juros no próximo ano será pautada de forma relevante pelo ímpeto do governo em elevar os gastos públicos. “Um avanço expressivo das despesas oficiais pode estimular de modo excessivo a demanda agregada, o que levaria o BC a elevar os juros com vigor”, comentou. E aumentos significativos da Selic vão contra a rota de crescimento dos investimentos, ressalta o acadêmico.

“Ritmo de expansão”

Para Sobreira, como a evolução do nível de atividade mostra que a economia do país está retomando ritmo de expansão, o governo deveria reduzir gradualmente as desonerações tributárias que concedeu neste ano para evitar que o país atingisse recessão profunda. Ele baseia sua avaliação em estimativas oficiais sobre o desempenho da economia para 2010. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, prevê alta de 5% do PIB e elevação de 10% dos investimentos para 2010.
Na avaliação do professor da FGV-RJ, seria importante que o governo retomasse com mais vigor a política de ajuste fiscal, que seria caracterizada no próximo ano com a retomada do superávit primário de 3,3% do PIB. Mas como em 2010 ocorrerão eleições gerais, ele disse não acreditar que o Poder Executivo reduzirá o “ativismo fiscal” de forma marcante.

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