Nada é mais humano do que as falhas. Falhar é a materialização, a concreticidade do que os filósofos chamam de imperfeição. Ser imperfeito é falhar. Quem é perfeito, como Deus, não falha. Se algum Deus falhar, não é perfeito e, portanto, não é Deus. A falha mostra para todo ser humano que ele não é Deus. Nas instituições de ciência e tecnologia, que abrigam os maiores cérebros de suas localidades, ainda que a boca negue, muitas vezes as atitudes parecem falar o contrário, em atitudes que, além de falta de humildade, são verdadeiras heresias no sentido teológico. É por isso que foi criado o termo PhDeus para se referir não a esses indivíduos, mas a suas atitudes infelizes. É por essa razão que o ponto central de todo o processo de execução é a busca da perfeição para evitar ao máximo a ocorrências de falhas. Mas, como é impossível que falhas não existam, as que devem ser evitadas são aquelas que comprometem a eficiência, eficácia e demais atributos operacionais da inovação, objetivo deste ensaio.

Gostaríamos de chamar a atenção, aqui, para os três tipos básicos de falhas que ocorrem no processo de gestão da inovação. A primeira é decorrente das ações humanas, a segunda é consequência dos artefatos utilizados pelos seres humanos e a terceira é incapacidade dos indivíduos de detectar todas as falhas de seu processo de produção ou operacionalização. Como se pode ver, todas as falhas são humanas. Não há falhas fora do âmbito hominal, humano. A natureza, por exemplo, é perfeita. Ela só erra no espaço em que sofre as consequências da ação do homem (e da mulher, evidentemente).

As falhas humanas são decorrentes de suas limitações cognitivas e compreensivas. A primeira diz respeito à capacidade de processamento do cérebro e do corpo mental em dar conta de todas as informações e dados necessárias para gerar a compreensão dos fatos e fenômenos do mundo e seu comportamento. A compreensão é o entendimento da lógica que esses fatos e fenômenos têm e que precisam ser conhecidos, coisa que é feita através das faculdades cognitivas. Uma coisa é o processo, o manuseio de dados e informações, feito pelo cérebro e pela mente (que não está localizada no cérebro) para gerar o entendimento, que é o resultado do processamento, que é armazenado tanto no cérebro quando na mente.

O desconhecimento sobre como o cérebro opera acentua a capacidade de erros. Por exemplo, depois de alguns minutos de processamento de alguma lógica de cognição e algumas horas de execução dessa lógica, é necessário dormir. É através do sono que aquilo que foi processado é transportado para o seu local definitivo de armazenamento, tanto no cérebro quanto na mente. Devido à ignorância de grande parte dos cientistas desse esquema cognitivo, ao sobrecarregar o hipocampo, amídala e outros órgãos cerebrais está-se, de fato, gerando possibilidades de falhas de cognição. Cognição falha, por sua vez, leva a armazenamento falho, conhecimento falso ou incompleto, acentuando as chances de falhas.

O segundo grupo é decorrente das falhas nos instrumentais utilizados pelos homens para gerar a inovação. Esses instrumentais também são artefatos tecnológicos, foram gerados pelos seres humanos. E como tudo feito por eles, também têm seus funcionamentos falhos em algum grau, conhecido ou desconhecido. A imperfeição do indivíduo é transpassada para o que ele faz, para seus artefatos, ainda que não possa localizá-la. Ainda que se considere “falha técnica” ou “não humana” quando esses equipamentos não funcionam direito, não funcionam direito porque estão embutidos com a imperfeição humana. Se os homens fossem perfeitos fariam coisas perfeitas e os artefatos jamais falhariam. É preciso estar ciente disso: não há equipamentos perfeitos. Todos um dia falharão, desde que não lhes sejam dadas as atenções devidas de manutenção, aperfeiçoamentos e melhorias contínuas.

O terceiro grupo é um olhar mais profundo sobre a própria capacidade humana de fazer coisas. Quem vê um vidro bonito, lisinho e brilhante está, de fato, vendo apenas uma parte da realidade. Se olhar mais de perto, em termos de moléculas, verá que aquela lisura e boniteza é mera ilusão. Seus olhos poderão perceber ranhuras, fissuras, falhas, enfim, em toda a extensão do vidro que, no plano macroscópico, parecia perfeito. Assim é em tudo o que o ser humano faz. Em algum nível microscópico as falhas podem ser visíveis. O problema é que esse nível é difícil de ser definido a priori, antes que a falha, que está ali, mostre sua presença a partir de anormalidades no produto ou seu funcionamento. Queremos com isso dizer que é praticamente impossível detectar todas as falhas de uma inovação e também de tudo o que já existe e que é utilizado há centenas de anos.

Por essa razão, as falhas podem ser agrupadas em pelo menos dois níveis decisórios. O primeiro diz respeito àquelas que podem comprometer a efetividade da inovação, entendida essa como o funcionamento adequado do artefato para que produz os resultados que dele são esperados; o segundo diz respeito a todas as demais falhas que, ainda que sejam visíveis, não comprometem o funcionamento da inovação e nem lhes reduza o valor. Isso significa, portanto, que todo artefato tecnológico é dado como pronto, mas não como perfeito. Noutras palavras, o produto pronto é aquele que cumpre a sua função, definida a partir de determinados atributos. Produto pronto, portanto, é produto em conformidade com seus atributos.

À medida que a capacidade cognitiva e o entendimento humano vão se ampliando, as falhas, por sua vez, vão sendo mais visíveis. Esse aumento de visibilidade é o que tem permitido que as inovações pareçam cada vez mais perfeitas. Só que não o são, efetivamente. As probabilidades de falhas estão ali, muitas até matematicamente definidas. Veja o caso dos medicamentos. Suas falhas estão no grau de eficácia (o quanto curam de determinada doença) e os efeitos colaterais que geram (são as falhas previstas que não se consegue eliminar). Apesar de todas essas falhas, os resultados pretendidos justificam a liberação do produto para uso. Novos processos cognitivos e conhecimentos poderão aumentar a eficácia e a redução dos efeitos colaterais, em novo ciclo inovativo.

*Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, professor e pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

Fonte: Daniel Nascimento

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