27 de janeiro de 2022

‘Mantemos um otimismo moderado’, diz Paulo Takeuchi, da Abraciclo

O setor de duas rodas é o que mais se identifica com a ZFM (Zona Franca de Manaus). Mesmo com a pandemia, o segmento não sentiu tanto o baque da crise sanitária, ao contrário de outros setores da indústria.

Vai fechar o ano com uma produção de pelo menos 1.220 mil motocicletas e outras 730 mil bicicletas, um bom desempenho que não se via nos últimos dois anos, considerado um dos períodos de maior arrocho enfrentado pelas atividades industriais no País.

O uso de motocicletas e bicicletas foi fundamental na crise, impulsionado por maior mobilidade urbana e ainda pelos serviços de entrega, o delivery, que se expandiram durante a fase mais aguda de contágio pela Covid-19.

“Este ano, a demanda só tende a crescer no setor. E as perspectivas de novos negócios são muito positivas”, diz o diretor-executivo da Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), Paulo Takeuchi. Tanto procede essa previsão que a Sense Bike decidiu inaugurar uma nova unidade no PIM (Polo Industrial de Manaus).

Segundo Takeuchi, a alta do preço da gasolina também é outro fator que fomenta a opção pelo uso da motocicleta. Além de ter menor consumo, o veículo permite maior praticidade e deslocamento com mais rapidez nas áreas urbanas.  

“Na pandemia, a bicicleta e a motocicleta tiveram um papel muito importante, seja no transporte individual para fugir dos coletivos, seja na questão de entregas, principalmente”, acrescenta o executivo. “E a gente vê ainda a questão dos combustíveis que estão ultrapassando uma alta muito significativa”, ressalta ele.

Para Takeuchi, as motos elétricas vão demorar ainda um bom tempo para se consolidar no mercado. Mas já é possível incorporar a tecnologia flex nesses veículos, como nos carros, dando opção para uso de gasolina ou de etanol, um know how que hoje só o Brasil detém.

“Até lá, o processo vai acontecer gradativamente, até se decidir pela substituição dos combustíveis fósseis”, afirma.

Paulo Takeuchi participou da live ‘JC às 15h’, comandada pelos jornalistas Caubi Cerquinho e Fred Novaes, diretor de redação do Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – Nesse clima de pandemia, os números da Abraciclo estão apontando para um desempenho mais positivo. Antes, as coisas eram mais temerárias…

Paulo Takeuchi – É verdade. Aliás, só para registrar, a Abraciclo faz 45 anos aqui no Polo Industrial de Manaus, onde tivemos a primeira associada em 1976. A primeira delas foi a Caloi.

JC – Pensávamos que era a Honda….

Paulo Takeuchi – Depois, vieram a Honda e as outras. Na verdade, aqui no Distrito, quando formamos a Abraciclo, a Honda também veio junto. Nesses 45 anos, vemos muitos altos e baixos e agora, este ano, estamos realmente retomando a indústria, tanto de motocicletas quanto de bicicletas. E esperamos, realmente, fechar o ano positivamente.

JC – O setor de duas é um dos que mais emprega. E o que tem mais identidade com a região, a ZFM. Sabemos que o resultado é positivo. Até outubro, tivemos crescimento na produção de motocicletas, bicicletas, mas vivemos ainda uma situação de pandemia, adversa, afetando muitas atividades. Vimos a falta de matéria-prima, insumos, que prejudicou a produção. De alguma forma, isso já foi regulado, vivenciamos um momento melhor?

Paulo Takeuchi – É verdade. Se compararmos o início do ano em que tivemos uma crise muito profunda na pandemia, o nosso processo produtivo ainda está com os mesmos cuidados, mas já podemos dizer que estamos num ambiente mais tranquilo.

Agora, a falta de suprimentos, principalmente componentes importados, afetou muito a indústria de bicicletas porque a atividade depende muito dos fornecedores lá da Ásia, mas foi um problema global.

Felizmente, no segundo semestre conseguimos recuperar. Para se ter uma ideia, a produção de motocicletas vai fechar o ano com a fabricação de mais de 1.220 mil unidades, um número que a gente não atingia desde 2015.

E também com uma produção de pelo menos 730 mil bicicletas, que é bem superior à registrada no ano passado, chegando a um crescimento em torno de 28%, porém um pouco abaixo de 2019 por conta da falta de insumos.

Acredito que agora vamos ter um pouco mais de tranquilidade, exceto se não houver mais novidades com essas novas variantes que estão preocupando o mundo todo.

JC – Essas perspectivas fazem com que o mercado se consolide. O cenário é positivo para 2022?

Paulo Takeuchi – Sim. Com um pouco de cautela, a gente acredita que a demanda continue a crescer. Na pandemia, a bicicleta e a motocicleta tiveram um papel muito importante, seja no transporte individual para fugir dos coletivos, seja na questão de entregas, principalmente.

E a gente vê ainda a questão dos combustíveis que estão ultrapassando uma alta muito significativa. E a economia que se obtém do consumo da motocicleta e da bicicleta, pedalando que é melhor ainda para a saúde (rsss).

São alguns fatores que nos levam a acreditar que a demanda vai continuar aquecida. Só esperamos que não venha outro problema maior com a questão da saúde ou da própria economia. Por enquanto, estamos com um otimismo moderado.

JC – Percebemos que há um ambiente de recuperação econômica. De uma maneira geral, há diversificação e a entrada do portfólio de novas empresas relacionadas ao setor no PIMl.  Pode falar dessas novidades que estão se agregando ao setor de duas rodas? Há ainda uma preocupação com o fim dos combustíveis fósseis, fomentando a produção de veículos elétricos. Isso vem acontecendo?

Paulo Takeuchi – O que vimos, recentemente, são movimentos de oportunidades. A própria pandemia trouxe uma nova realidade sobre a mobilidade. E nessa mobilidade não se fala mais de carro ou moto.

Temos uma área também que chamamos de micromobilidade com transporte de bicicleta elétrica, patinete elétrico, que podem ser usados em pequenos trajetos nas áreas urbanas. E acho que vai ser uma tendência cada vez maior nos grandes centros urbanos.

Será uma mobilidade muito específica. De uma forma geral, hoje a mobilidade, principalmente no Brasil, que é um país imenso, você precisa ter um veículo que tenha mais economia.

Temos um problema tecnológico com baterias que não têm autonomia. Precisa ainda ter uma infraestrutura muito grande para abastecer. Acredito que essa questão das duas rodas para energia elétrica vai ser uma transição muito longa e também não resolverá 100%.

Então, vai ser uma realidade que será específica para alguns centros urbanos. E a parte dos combustíveis vai ser essencial, mas acho com uma novidade, com a motocicleta trazendo a tecnologia flex. E o uso do etanol, ao contrário do combustível fóssil, é um combustível que, em termos de meio ambiente, é muito melhor.

Primeiro porque o ciclo da produção, começando pela cana de açúcar e depois o etanol, o total de emissões é muito menor do que a gasolina. Acho que vai ser uma  alternativa muito interessante para o País.

O Brasil é o único país que detém essa tecnologia flex. Então, ainda vai ter um bom período para concretizar o ciclo elétrico.

JC – Além dessa questão da mobilidade para o trabalho, temos também a parte esportiva com a bicicleta. Há mais novidades sobre essa opção?

Paulo Takeuchi – Isso é o que as pessoas mais procuram. Mas sem sombra de dúvidas, a nossa produção está bem atualizada.

Temos dois nichos que estão crescendo muito – a motobike, motocicleta que enfrenta qualquer buraco, e essa parte da competição. além da questão voltada para o lazer, essa parte esportiva é uma modalidade que vem crescendo. E as ofertas de produtos estão sendo muito maiores. Acho que temos muito campo nessa modalidade esportiva.

JC – Aos domingos, Manaus faz uma parada na Ponta Negra, chamada faixa liberada.  Essa parte esportiva tende a crescer….

Paulo Takeuchi – Tanto a Caloi como as outras associadas estão empenhadas numa parceria com a prefeitura para tentar expandir essa parte que a gente chama de ciclovias.

E eles estão, realmente, fazendo, projeto. E quem sabe a gente possa anunciar essas iniciativas. A Caloi está fazendo uma parceria interessante com a prefeitura, uma espécie de escola para o pessoal andar de bicicleta.

Tem algumas técnicas, regras básicas, que algumas vezes as pessoas não têm oportunidade de conhecer. Então, estamos tentando fazer uma escolinha através da Caloi para poder formar as crianças e dar treinamentos mais seguros.

JC – É interessante esse anúncio….

Paulo Takeuchi – É verdade, é de primeira mão, um projeto que estamos desenvolvendo juntos e esperamos que em breve possa estar aí beneficiando principalmente os ciclistas de Manaus.

JC – Aprendemos a andar de bicicleta e nunca esquecemos. Mas há alguns conhecimentos técnicos que precisamos adquirir. Se fizer errado, vai continuar errando….

Paulo Takeuchi – É verdade.

JC –Durante algum tempo, a questão do crédito de financiamentos para produtos de maior valor agregado foi bastante reivindicada. Hoje, vemos um crescimento da inadimplência por causa da pandemia. Como está o cenário para a aquisição de motocicletas?

Paulo Takeuchi – Realmente, isso prejudica. Os juros aumentam, e questiona-se se alguns vão conseguir pagar a prestação. Porque grande parte dessas vendas é para o pessoal de poder aquisitivo mais baixo e que depende muito dos financiamentos.

Porém, a gente teve uma grande crise. Mas os bancos e toda a rede conseguiram aprender de uma maneira muito positiva. Mesmo com essa incerteza em relação aos juros, os bancos conseguiram montar uma estrutura muito forte de continuar, mesmo assim, com um plano muito interessante de financiamento.

Este ano, tivemos uma alavancagem muito grande nas vendas porque eles conseguiram avançar nessa questão online, conseguindo reunir muitas informações.

Hoje, eles podem cruzar uma série de informações. Mesmo com essa questão da inadimplência, eles estão conseguindo renovar muitos contratos. Então, a gente espera que isso continue.

Porque, assim como temos a grande empresa, temos também os novos entrantes. E isso acaba compensando. Ainda temos uma modalidade interessante que é o consórcio. O famoso consórcio que muita gente esqueceu.

JC – O valor do consórcio é realmente mais atraente…

Paulo Takeuchi – Essa perspectiva continua positiva porque se consegue achar um consórcio que cabe no bolso.

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