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As fronteiras do conhecimento científico atuais parecem sugerir que tudo o que existe compõe uma teia de realidade. O infinitamente grande, por exemplo, mostra representações onde aglomerados de matérias visíveis estão cercados de aglomerados de matérias e energias invisíveis (escuras) e conformam uma espécie de estrutura cerebral ou neuronal. Pelo menos é essa a primeira imagem que vem à mente quando essas representações são visualizadas. O mesmo parece acontecer no infinitamente pequeno e, no entremeio, as coisas que fazem parte do nosso dia a dia. Quando olhadas as coisas em si, um ventilador, por exemplo, pode-se ver uma espécie de sustentáculo, que poderíamos dizer que é o pé do objeto, um suporte de elevação, que parece ser uma perna única, as palhetas protegidas por uma forma de gradil e o cabo de força. Essa descrição nada mais é do que uma maneira diferente de constatar a mesma coisa: tudo parece estar em relação. As questões relacionais de pesquisas visam a justamente detectar esses esquemas de vinculações.

Em matemática, relação é sinônima de correspondência. Isso quer dizer que um elemento de um conjunto A está ligado a um elemento de outro conjunto, que podemos chamar de B. Em relacionamento afetivo, um indivíduo Y está vinculado a outro indivíduo X. Esses dois exemplos mostram que as relações são ligações que existem entre os fatos e fenômenos do mundo. O pé do ventilador está ligado à perna dele. E quem faz essa ligadura é um acoplamento, um encaixe, onde um parafuso grande e grosso não deixa que eles se separem. Isso quer dizer que o parafuso faz a ligadura, provoca o vínculo entre essas duas partes do equipamento. Outro parafuso também conecta a perna ao gradil, onde estão as palhetas. É desses detalhes minuciosos que as questões relacionais de perguntas tecnológicas cuidam. Elas pretendem explicar de que maneira as partes identificadas nas questões estruturais se mantêm unidas, o que provoca o acoplamento delas e faz com que, unidas, promovam determinado resultado ou funcionamento.

Uma mesa, por exemplo, que tenha as pernas, suporte para o tampo e o tampo, pode ter seus componentes unidos por pregos, parafusos ou cola. Mas e no caso dos aplicativos de celulares e softwares empresariais, como os Enterprise Resources Planning (ERP)? O que os mantêm unidos e provocam os seus funcionamentos sincronizados? Um massive online opened course (MOOC) também é um produto tecnológico. De que maneira suas partes se relacionam? Como perceber e aferir esses relacionamentos? Em serviços, por exemplo, as questões relacionais são essenciais. Um tratamento médico e uma formação profissional são produtos (chamados processos) cujas partes são difíceis de determinar e mais desafiador é o esforço de especificação das relações entre elas. Mas o cientista tecnológico precisa dar conta disso.

Uma olhada por dentro ajudará bastante a esclarecer essas questões. A primeira é pensar em fenômenos simples, compostos apenas por partes, como as mesas. E a questão que emerge para identificar as relações é simples: “Quais as relações da parte A com a parte B?”. Utilizando questões de engenharia, fica: “De que formas A se liga com B?”. Mas pode acontecer de as partes dos fenômenos terem subdivisões, serem feitas de partes menores. Nesses casos, as partes são chamadas de componentes. No caso do ventilador, o pé é uma peça única, é uma parte; mas a peça onde está a palheta não, assim como o mecanismo de controle da velocidade, que são compostas por várias peças. Então têm-se relações simples, entre peças, e relações complexas, que são aquelas em que cada parte provoca impacto sobre o componente que, por sua vez, como parte do fenômeno, vai provocar impacto em outras partes ou componentes. Há relações internas, entre as peças de um componente, e relações externas, entre os componentes do fenômeno ou produto. Atente para isso.

Certa vez um grupo de colegas se colocou o desafio de criar um MOOC. Planejaram adequadamente o conceito do produto, assim como o conceito de cada componente. O produto teria 5 partes. Previram o vínculo de um com o outro através de um teste parcial de conhecimentos do módulo atual, cujo resultado daria acesso automático ao módulo posterior, caso fosse alcançada uma pontuação mínima. Quando os usuários faziam o teste, quase sempre tiravam nota máxima, o que encheu os colegas de satisfação. Mas logo viram um problema: quase ninguém conseguia entender o conteúdo do módulo seguinte. O segundo módulo falava de coisas que mesmo com as explicações e exemplos gerava muitas dúvidas nos estudantes. E o resultado era pífio. A nota máxima que alguém conseguia era acertar três questões de dez.

Voltaram à literatura científica com as questões relacionais, que as tinham esquecido. E descobriram pelo menos 14 vínculos esquecidos, em média, de um módulo para o outro. Esses vínculos, depois de incorporados, permitiram que os estudantes compreendessem com mais adequação não apenas o conteúdo de um módulo, mas essencialmente os demais. Quando entravam em um novo módulo, depois das alterações, tudo o que lá estava lhes era familiar, menos, naturalmente, o acréscimo que o módulo proporcionar. Fizeram os vínculos em camadas, à imagem de uma cebola. Utilizaram para isso figuras, como modelos mentais e diagramas de fluxos. O MOOC foi um sucesso.

Os desafios do conhecimento científico pode ser visto de forma progressiva através das grandes questões que os cientistas se colocam. As primeiras são as exploratórias, cuja finalidade é demarcar a extensão conceitual dos fatos e fenômenos do mundo e mapear seus componentes. As segundas são as associativas, feitas geralmente quando o mapa de variáveis já tem alguma robustez. E as terceiras são as relacionais, que permitem agir, porque já denotam esquema de causa-efeito. Nas pesquisas tecnológicas, como acabamos de ver, são elas que conectam as partes e componentes tecnológicos.

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