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Duas coisas são necessárias para o entendimento da ciência como fornecedora dos insumos que serão utilizados na produção das tecnologia. A primeira é a compreensão do desafio natural dos empreendimentos científicos; a segunda é a composição estrutural do que chamamos conhecimento científico. A primeira é de ordem teleológica, o que significa uma vinculação com sua natureza finalística, ou razão de existência; a segunda está vinculada aos procedimentos necessários para a sua produção, o chamado método científico. O desconhecimento da sua natureza teleológica tende a fazer os esforços de produção de ciência adentrarem os campos da filosofia, de maneira que o resultado não pode ser considerado conhecimento científico. Não são diferentes os resultados do desconhecimento dos procedimentos de produção que a ciência utiliza. Como não são conhecimentos científicos, sua utilização pelo método científico-tecnológico fica impossibilitada.

O grande desafio da ciência é explicar os fatos e fenômenos do mundo. Seu esforço, portanto, é tornar amistosas as coisas que nos rodeiam. É fazer o mundo ficar mais próximo. Ainda que as coisas que queira explicar sejam de difícil percepção cognitiva, como é o caso da gravidade e dos ventos, que não os vemos, mas sentimos as suas ações, a ciência encontra uma forma de fazer essa dificuldade ser reduzida ou eliminada. É por isso que se criam os simuladores de gravidade e de ventos. Mas essas criações só são possíveis se os conhecimentos gerados pela ciência efetivamente seguirem as regras do método científico e se as explicações apresentarem a estrutura efetiva desses conhecimentos.

A ciência só permite alcançar mais intimidade dos seres humanos com os fatos e fenômenos do mundo porque aquilo que ela produz apresenta três elementos essenciais que devem estar contidos nas respostas às questões que formula: o que acontece, como acontece e por que acontece. O que é gravidade, como acontece a gravidade e por que acontece a gravidade? O que é o vento, como acontece o vento e por que acontece o vento? Se a resposta gerada não apresentar esses três componentes não se pode admitir estar-se diante de um conhecimento propriamente científico. O primeiro componente da resposta permite diferenciar um fenômeno do outro. O segundo viabiliza o manuseio do conhecimento com a intenção de reproduzir o fenômeno (e construir tecnologias). O terceiro faz a ligadura tanto do primeiro para com o segundo quando do próprio fenômeno com os demais fatos e fenômenos do mundo.

A ciência progride a cada investigação, tanto em nível horizontal quanto vertical. E esse progresso é feito a partir de três tipos de questões tipicamente de ciência. O primeiro tipo são as questões exploratórias. Os cientistas se formulam essas questões quando o estoque de conhecimentos sobre o fenômeno é reduzido. Geralmente essas questões começam com os pronomes interrogativos “o que”  e “qual” ou estão a eles vinculadas. Por exemplo: “O que é aprendizado?” e “Quais são os principais fatores determinantes do aprendizado?”. Quando os cientistas fazem essas questões estão querendo saber a) o que é aprendizado, como ele acontece e por que acontece e b) quais são os fatores que determinam o aprendizado, como eles determinam e por que determinam o aprendizado. Note que a finalidade dessas questões pode ser sintetizada na busca por delimitações do fenômeno e conhecimento de suas variáveis componentes.

O segundo tipo de questões de ciências é conhecido por questões associativas. Nesse estágio evolutivo o estoque de conhecimentos sobre determinado fenômeno já é significativo. Já se conhece, por exemplo, os diferentes tipos de aprendizado e seus inúmeros componentes e processos. Quando se quer saber a que o fenômeno está associado, a intenção é saber com quem aparece. Por exemplo, pode-se perguntar se o aprendizado está associado com a fome, o que significa querer saber se quando a pessoa está ou não com fome o aprendizado estará ou não presente. Veja que, aqui, o cientista quer apenas se certificar sobre ausência/presença de dois ou mais fenômenos. Ele não está interessado com relação causa-efeito. As questões são formuladas diretamente, assim “A fome está associada com o aprendizado?” ou “Fome e aprendizado estão associados?”. Novamente, o padrão de resposta apontará se os fenômenos estão ou não associados, como e por que essa associação acontece.

O terceiro tipo são as questões relacionais. Em toda relação haverá sempre causa-efeito. Estudos relacionais querem saber justamente isso: qual é a relação entre fenômenos. Esse tipo de questão é fundamental não apenas para a ciência, mas para todos os esforços de produção de tecnologia. Ainda que se possa gerar tecnologias com todos os tipos de questões, as relacionais são as mais promissoras. A estrutura das respostas indicará se há ou não relação, como e por que essa relação se dá. E só há três possibilidades de descobertas: 1) relação diretamente proporcional, 2) relação inversamente proporcional e 3) não há relação. Como essas relações são todas medidas com muita precisão, permitem que se reproduza artificial ou virtualmente o fenômeno explicado. Aqui, como nos demais tipos de questões, o papel que as dimensões e categorias analíticas desempenham fica muito mais evidente.

Os cientistas são pessoas que têm a determinação de deixar as coisas do mundo compreensíveis. Para isso, vasculham a imensidão do cosmos, a inusitada pequenez dos elementos essenciais e já descortinam os primeiros meandros de outras dimensões e seus possíveis habitantes. Mas, não importa o quão grande ou pequeno seja o desafio enfrentado, há uma lógica no conhecimento que produz: o que, como e por quê. Quando esses três componentes estruturam qualquer resposta produzida com o uso do método científico se diz que ali há ciência. Com os pés no chão, os cientistas começam com questões elementares, ditas exploratórias, para pouco a pouco adentrarem as complexidades das perguntas relacionais. Com todo tipo de resposta há sempre a possibilidade de algum artefato poder ser criado.

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